Chase Castor para The New York Times
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Amarga disputa envolvendo quem tem o direito de alimentar os sem-teto

Departamento de Saúde de Kansas City causou polêmica ao despejar desinfetante em alimento distribuído por voluntários em um parque da cidade

John Eligon, The New York Times

16 Dezembro 2018 | 06h00

KANSAS CITY, MISSOURI - Todas as semanas, nos nove anos mais recentes, os voluntários se reuniam num parque de Kansas City, Missouri, com refeições caseiras para os sem-teto. Para os participantes, trata-se de um piquenique com os amigos.

Mas, num dia nublado de novembro, uma inspetora do departamento de saúde de Kansas City chegou ao local descrevendo a reunião de outra maneira: um estabelecimento alimentar ilegal. 

Ela ordenou que a maior parte da comida fosse colocada em sacos pretos de lixo, reuniu-os no gramado e, num gesto que deixou muitos perplexos, derramou desinfetante no alimento. “Eles nos tratam como animais", disse Allen Andrews, que vive nas ruas há meses.

Uma amarga disputa veio à tona na cidade envolvendo o direito de ajudar os famintos. Batalhas semelhantes surgiram em lugares como Fort Lauderdale e Tampa, na Flórida, e El Cajon, na Califórnia.

As autoridades de Kansas City dizem que o objetivo da repressão é proteger os necessitados.

Elas alegam que os estatutos da cidade exigem que grupos como o Free Hot Soup, responsável por organizar os encontros em quatro parques aos domingos, obtenham um alvará de “estabelecimento alimentar", e a cidade não poderia garantir as condições sanitárias de algumas das cozinhas caseiras nas quais o alimento é preparado.

Mas os voluntários do Free Hot Soup e os defensores do grupo disseram que a preocupação higienista da cidade é apenas um pretexto. Para eles, o real objetivo é limitar as reuniões de sem-teto. “É uma política contra a pobreza, contra os sem-teto", disse Quinton Lucas, vereador da cidade.

Nenhum dos lados parecia disposto a recuar. As autoridades municipais disseram que continuariam dispersando as reuniões do Free Hot Soup (embora tenham dito também que não usarão mais o desinfetante).

Depois de serem reprimidos, alguns membros do Free Hot Soup mudaram de tática. Num dos parques, voluntários pediram comida de restaurantes e a dividiram com os sem-teto, método que respeitava as regras da cidade.

Mas os voluntários no Prospect Plaza Park, onde ocorreu o episódio do desinfetante, desafiaram as autoridades, trazendo caçarola de peru e picadinho caseiro.

Troy Schulte, presidente da Câmara dos Deputados de Kansas City, disse que não veria problema nas reuniões do Free Hot Soup se eles obtivessem o alvará exigido, mas reconheceu que as preocupações da prefeitura não se limitavam à segurança alimentar.

“Para muitos moradores, o problema é encarado nos seguintes termos: ‘Bem, eles alimentam os sem-teto, mas agora há muitos deles vagando pelo meu bairro’”, disse Schulte. Por enquanto, boa parte do debate gira em torno do incidente envolvendo o desinfetante. 

“Eles fizeram um grande escândalo, e a intenção era nos assustar para que não voltássemos", disse Spring Wittmeier, da organização do Free Hot Soup. “Tenho o direito de ir a um parque público e compartilhar comida.”

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