Kristian Thucker para The New York Times
Kristian Thucker para The New York Times

Mesmo com ameaças, médicos decidem se manifestar para defender vacinas

Fornecedores que defendem as vacinas enfrentam ameaças de morte online e críticas negativas de pacientes

Jan Hoffman, The New York Times

16 de março de 2020 | 06h00

Brad Bigford, um enfermeiro itinerante de Boise, Idaho, deu um pulo ao receber o convite: ele passaria uma tarde na Fred’s Reel Barber Shop na cidade vizinha Meridian, oferecendo aos clientes a vacina contra a gripe. “Senhoras, mandem os seus rapazes para cortar o cabelo e tomar uma dose de vacina”, foi a mensagem que ele postou no Facebook.

No prazo de algumas horas, a sua página estava repleta de centenas de ataques ferozes, até mesmo ameaças, de pessoas contrárias às vacinação. Os comentários maldosos online sobre o seu negócio de cuidados de urgência, o Table Rock Mobile Medicine, vieram de “pacientes” de lugares tão longe dos EUA quanto a Austrália, por exemplo.

Então, um novo grupo de médicos, enfermeiras e outros voluntários, chamado Shots Heard Round the World, inundou a sua página com fatos explicando a eficácia da vacina baseados em evidências, que atraíram os autores das ofensas para os seus próprios sites, deixando Bigford em paz.

“Eles me salvaram”, ele falou. “Mas será apenas uma questão de tempo para eles voltarem a me atacar”. As vacinas sempre foram adotadas praticamente sem contestação. Entretanto, ultimamente, são cercadas por um crescente ceticismo porque os que as detestam vêm usando táticas agressivas ns redes sociais a fim de intimidar as instituições médicas mais sérias pretendendo obrigá-las a se calar.

Agora, porém, os provedores de assistência começaram uma iniciativa organizada não apenas para se defender, mas defender também as vacinas. No dia 5 de março, eles realizaram o seu maior encontro virtual, invadindo as plataformas das redes sociais com mensagens positivas sobre esta importante arma da medicina.

Quando os inimigos da vacinação atacaram a conta do Instagram de um médico que escreveu sobre a vacina do HPV, os Shots Heard correram em sua ajuda. Até recentemente, era raro que os médicos postassem mensagens em favor da vacinação nas redes. O "chamado às armas" foi concebido pelo doutor Zubin Damania, que trabalhou por dez anos como interno de um hospital na Universidade em  Stanford, na Califórnia, e agora dá conferências sobre cuidados médicos e escreve na web sob o nome de ZDoggMD.

“Quero particularmente apelar para a minha tribo – os médicos”, afirmou. “Eles são os maiores covardes quando se trata desse tipo de coisas, porque acham que têm muito a perder.” O Shot Heards nasceu de um ataque cibernético ao Kid Plus Pediatrics, em Pittsburgh, na Pensilvânia. No verão de 2017, os médicos divulgaram um vídeo de 90 segundos intitulado “Nós prevenimos o Câncer,” sobre a vacina contra o HPV.

Os seus sites foram inundados por milhares de comentários negativos. E as suas avaliações online despencaram. Os que os apoiaram mandaram a Todd Wolynn, um médico da área, e a Chad Hermann, seu diretor de mídia, capturas de tela dos sites contrários à vacinação que diziam: “Foi terrorismo coordenado”, disse Hermann.

Wolynn ficou alarmado com o ataque e com a reticência dos pediatras a falar sobre os benefícios das vacinas. Ele e Hermann começaram a aconselhar as pessoas a se apoiarem mutuamente. Desde  que foi para a internet, no fim do ano passado, o Shots Heard cresceu e hoje tem cerca de 600 voluntários no mundo todo, que se dedicam a apoiar outros defensores das vacinas contra os ataques em contrário online. Entre os seus membros há clínicos gerais, advogados, pesquisadores, estudantes de medicina e membros do staff do legislativo estadual. Quando um ataque é denunciado, os membros do grupo são notificados.

“Nós queremos que eles vão ao site e façam tudo o que acharem oportuno fazer”, disse Wolynn. “Para alguns, é responder a cada afirmação falsa com um link para um estudo baseado em evidências. Para outros, é rebater  os que são contra a vacinação.” Os ciberataques começaram ao que tudo indica com um pequeno número de radicais, e não de pessoas que “hesitam a aplicar a vacina – os pais que se preocupam com o cronograma das vacinas. “É bom fazer perguntas de boa fé”, disse Wolynn. “Não é bom adotar uma postura hostil”.

Em Idaho, Bogford instalou câmeras de segurança. Sua esposa pediu para ele parar de postar textos sobre as vacinas. “Mas se eu parar de postá-los, as únicas pessoas a falar da vacinação serão justamente os que são contra”, ele disse. “Faz parte da nossa missão como provedores de assistência continuar falando disto. Por isso, vou continuar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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