Al Bello/Getty Images
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Tim Arango, The New York Times

23 de junho de 2019 | 06h00

IMPERIAL, CALIFÓRNIA - Andy Ruiz Jr. é rechonchudo, não há como negar. Já foi chamado de "gordo molenga” ou, mais carinhosamente, de “tiozinho da lancheira". Seu ritual anterior às lutas, devorando barras de doces, só reforçou essa imagem. Mas agora ele tem um novo apelido, que seu pai, sentado na plateia do programa de entrevistas de Jimmy Kimmel, em Los Angeles, gritou quando Andy Ruiz Jr. sentou sob os holofotes: “Rocky Mexicano".

Filho de imigrantes mexicanos, Ruiz Jr., 29 anos, se tornou o improvável campeão dos pesos pesados do boxe no dia 1º de junho ao nocautear repetidas vezes o campeão Anthony Joshua, o invicto britânico que fez sua estreia americana no Madison Square Garden, em Nova York, em meio a um clima de vitória garantida. Desde então, a fama e a riqueza correram atrás do garoto gordinho de soco devastador vindo da cidade fronteiriça de Imperial. Ele teve ganhos de quase US$ 6 milhões. Foi entrevistado na TV por Kimmel. Foi convidado à Cidade do México para ver o presidente.

Mesmo antes da vitória surpreendente contra Joshua, o boxe parecia estar voltando, com mais dinheiro vindo da televisão e fãs aguardando ansiosamente a disputa do título entre Joshua e o invicto Deontay Wilder. A luta entre Joshua e Wilder era esperada como os antigos espetáculos do boxe que fizeram do esporte um acontecimento global, antes de outros esportes roubarem boa parte da atenção e de surgirem preocupações com os problemas de saúde decorrentes da modalidade.

Agora, com Ruiz Jr., o boxe tem uma história comovente. Ele só teve chance de disputar o título depois que o adversário original de Joshua ter sido reprovado em vários exames antidoping. Ruiz Jr., nascido nos Estados Unidos e muito orgulhoso de suas raízes mexicanas, é agora o filho favorito de uma comunidade de imigrantes do lado americano da fronteira que há tempos procura algo para celebrar.

“Sou abençoado por me tornar o primeiro mexicano campeão mundial dos pesos pesados", disse Ruiz Jr. recentemente, enquanto esperava o embarque para o voo até a Cidade do México, levando consigo pastas de documentos contendo seus cinturões de campeão. Sua cidade natal na Califórnia, Imperial, é formada por casinhas arrumadas e térreas em meio a uma paisagem desértica e suburbana de shoppings, escritórios de advocacia de porta de cadeia e restaurantes que servem tacos.

O feito de Ruiz Jr. levantou o ânimo de uma comunidade que se sente sitiada pela divisão nacional dos americanos em relação ao imigrantes. “Latinos, saibam que podemos fazer algo pelos EUA", disse o pai, Andy Ruiz, em uma manhã recente em sua sala de estar, cercado por troféus e cinturões de campeão. “Não viemos aqui roubar o lugar dos brancos. Viemos aqui para trabalhar, para criar os filhos, para que eles possam fazer algo com a própria vida.”

Dirigindo pelas ruas de Imperial, Ruiz pai indicou o antigo ginásio onde o filho treinava quando menino, enfrentando boxeadores muito mais velhos; o lugar é agora um estacionamento usado pelo departamento local de controle de animais. E a escola Imperial High, onde o filho estudou sem nunca se formar, pois preferia brigar na rua a estudar. “Ele não se comportava direito e, por isso, levei-o ao México", disse o pai. Lembrou as intermináveis viagens, atravessando a fronteira repetidas vezes, esperando horas a cada travessia, para treinar em ginásios no México.

Para Ruiz Jr., o boxe foi herdado. Nos anos 1960, seu avô administrava um ginásio de boxe improvisado em Mexicali, do lado mexicano da fronteira. Andy Ruiz (pai) veio para os EUA ainda menino, lutou nas ruas de Calexico, Califórnia, e posteriormente treinou boxeadores, incluindo o filho. “Todos são durões por aqui, pois é apenas uma pequena cidade perto da fronteira mexicana", disse Ruiz Jr.. “O boxe salvou minha vida. Foi o que me ensinou disciplina e me manteve longe das ruas.”

Seu peso - ele enfrentou Joshua um pouco abaixo do seu peso habitual, com 121 quilos - sempre foi um problema. Depois de ficar fora da equipe olímpica do México na Olimpíada de 2008, ele voltou a Imperial e caiu em desespero, passando o tempo com antigos amigos e exagerando na comida. Seu peso explodiu, chegando a 160 quilos.

Ele superou a má fase, começou a trabalhar com um treinador famoso, Freddie Roach, do ginásio Wild Card, em Hollywood, e tornou-se lutador profissional, estreando nos ringues em Tijuana. “Todos que o viram no ginásio sabiam da sua capacidade de vencer", disse Roach, que afirmou conhecer 20 pessoas que apostaram alto na vitória de Ruiz Jr. contra Joshua.

O treinador de boxe Justin Gamber, de Las Vegas, que já foi técnico de Ruiz Jr., disse que o boxeador era subestimado por causa de sua aparência. “Ele nunca terá um corpo bonito. É algo que não está na sua genética", disse Gamber. “Parece desajeitado, como um garoto mexicano gordinho, mas é um lutador perigoso.”

No Madison Square Garden, depois que o árbitro encerrou a luta, e após Ruiz Jr. saltitar pelo ringue como uma criança, ele falou com a mãe, Felicitas Ruiz. “Ele disse, ‘Não vamos mais passar necessidade’”, contou ela. “‘Conseguimos’, disse. Ele pediu, ‘Me belisque, mamãe. Nós conseguimos’.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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