Artigo: 'Como eu venci meu desejo opressor por caras brancos'

Artigo: 'Como eu venci meu desejo opressor por caras brancos'

O filme “Driblando o destino” me deu uma perspectiva do meu futuro romântico. Meu futuro não seguiu meus planos

Meher Ahmad, The New York Times - Life/Style

13 de outubro de 2020 | 05h00

Assistir ao filme Driblando o destino em uma noite com minhas colegas escoteiras moldou minhas preferências românticas nos anos seguintes. Como a única Desi (termo que se refere aqueles que nasceram no continente indiano: Índia, Paquistão e Bangladesh) de nosso grupo de amigos de Indiana, assisti à trama em um estado de êxtase, aliviada por finalmente ver alguém que se parecia comigo na tela.

Quando Jess, a personagem principal, beija Joe, o técnico de futebol branco, no campo (usando seu sári, nada menos!), desmaiei de emoção. Na cena final, quando Joe joga críquete com Jess e o pai dela, Punjabi, tive uma visão do meu futuro. A sequência do filme foi como um portal para um universo alternativo onde uma garota da minha cor poderia namorar um cara branco e ainda estar em paz com sua família.

Em nosso círculo de imigrantes paquistaneses, os poucos casais com um cônjuge branco eram tratados como estranhos. Mais raros ainda eram os casais em que o marido era branco. Eu estava apenas começando a me imaginar como alguém interessada em homens (meninos, na verdade), mas sabia que era esperado que me relacionasse com um paquistanês.

Uma mulher da minha cor em um relacionamento com um homem branco - que era aceito pela comunidade dela - representava o melhor dos dois mundos. Depois de ver o filme, fiquei encantada com os meninos brancos: os corredores desajeitados da minha equipe de corrida, os astros dos filmes da Disney, os integrantes da banda Good Charlotte. Na faculdade, eu era corajosa o suficiente para namorá-los, ou o que quer que se chame a excitação movida a álcool da vida universitária.

Não atrapalhou o fato de eu estar na Universidade de Wisconsin-Madison, que é o que alguns chamariam de "ambiente rico em alvos" com garotos brancos. Entrei para a Associação de Estudantes do Paquistão por causa de uma culpa equivocada pelo fato de não ter um único amigo da minha origem e me encolhia se algum dos caras do grupo tentasse ser meu amigo, quanto mais flertar. Ficou claro para eles que eu estava simplesmente tolerando a companhia deles, então eles também desapareceram.

Quando cheguei à cidade de Nova York, meu gosto tinha ido de garotos brancos para “qualquer coisa, menos homens da minha cor” (não que eu jamais tenha pensado nisso conscientemente), e abracei minha cor como uma espécie de curiosidade cultural. Explicar de onde vim e como minha mãe escondeu minhas minissaias de mim no ensino médio tornou-se parte da minha personalidade, um aspecto engraçado e sedutor que desenvolvi.

Eu namorei um cara paquistanês que, como eu, tinha crescido em outro país. Ele era um colega e os elogios excessivos que recebíamos de colegas e amigos por estarmos juntos me alarmaram, como se houvesse uma audiência ao vivo aplaudindo por embarcarmos na Arca de Noé como um casal.

“Vocês funcionam tão bem juntos”, as pessoas diziam. Não funcionávamos, pensei, e logo nos separamos, confirmando minha suspeita de que eu não deveria estar com homens da minha cor. Então tomei uma decisão drástica: voltei para o Paquistão. Digo “voltei” porque nasci lá, mas isso dificilmente conta, pois saí quando tinha cinco anos. Desde que emigrei, minha família me visitava cada vez menos.

Já adulta, comecei a me dedicar exclusivamente ao meu trabalho no jornalismo, filmando as partes mais desoladas do país, hospedando-me em hotéis cercados por barreiras de segurança e saindo antes mesmo de começar a questionar minha relação com as pessoas além daqueles muros. Eu falava a língua bem o suficiente e obviamente parecia com todos ali, mas me sentia claramente americana.

Eu me arrisquei ao me mudar, pensando que seria uma mudança de carreira lucrativa trabalhar como correspondente para os meios de comunicação americanos, e foi. Eu não tinha considerado que estar lá mudaria minhas convicções em relação ao amor, muito menos ao meu "tipo". Os poucos homens brancos em Karachi estão tipicamente isolados atrás de muros altos e protocolos de segurança.

Quando finalmente encontrei alguns do lado de dentro daqueles muros, eles eram desagradáveis e quase sempre estavam acompanhados pelo tipo de mulher paquistanesa que se comporta com uma delicadeza invejável, ao contrário de minha aparência desgrenhada e despojada. Decidi que namorar no Paquistão não seria possível, porque os homens elegíveis - as dezenas de milhões de pessoas da minha cor entre as quais eu estava vivendo - nem mesmo contavam como possibilidades. Então conheci Ali no LinkedIn.

Ele estava tentando fazer networking (ele havia fundado uma empresa de mídia jovem paquistanesa) e comentou a respeito do fato de termos estudado na mesma universidade. Depois de conversarmos em uma cafeteria chique em Karachi, disse à minha colega de apartamento como ele era bonito, mas não pensei muito mais a respeito daquela experiência. Mesmo assim, encontrei-me com ele novamente.

Dessa vez, depois de nos vermos, disse à minha colega de apartamento que ele me lembrava meu irmão, um sentimento comum que eu tinha em relação aos homens da minha cor da minha idade. Não tinha percebido que meu cérebro estava automaticamente privando os homens paquistaneses de sexualidade. Nos meses seguintes, Ali e eu nos tornamos amigos, apesar (ou talvez por causa) do fato de que eu não o via como tendo potencial romântico. Zombaríamos da cultura de crianças ricas do Paquistão e, depois, lamentaríamos pela falta de kombucha no país.

Ele era gentil, atencioso e discretamente confiante. Ele me acompanhou em uma festa de aniversário de um amigo, onde alguém nos confundiu com um casal. Nós rimos disso, mas eu o peguei me olhando de modo diferente. Mais tarde, ele me ofereceu uma carona para casa e eu estava certa de que ele pediria para entrar. Quando ele não o fez, eu bufei, mandando mensagens de texto para meus amigos em Nova York sobre como "os caras aqui não conseguem nem convidar as garotas para sair direito".

Momentos depois, ele mandou uma mensagem: "Desculpe se isso é estranho, mas gostaria de convidá-la para um encontro. Que tal amanhã?". Eu não conseguia identificar o que finalmente me atraiu nele. Para começar, não precisaria explicar aspectos culturais como no meu pretenso relacionamento birracial imaginário; não era necessário porque éramos ambos da mesma cor.

Gradualmente, percebi que isso significava que eu também não precisava fazer minha performance exaustiva e preocupada com o tema raça, os comentários autodepreciativos que eu murmurava em relação a terrorismo (ou qualquer estereótipo que me ocorresse no momento), o escudo irônico reflexivo que sentia como necessário ao ser a única paquistanesa em um grupo. Ele entendia sem que eu tivesse que dizer nada.

Depois de meses de namoro, vi quanto espaço aquela performance havia ocupado em meus relacionamentos anteriores: sem ela, eu estava vulnerável e suscetível. Com o peso da performance constante subitamente deixada de lado, senti uma intimidade que nunca poderia alcançar com os caras que não são da minha cor.

Ali e eu estamos casados agora, e é o mais confortável que já me senti com outro ser humano. O que é engraçado é que, ao escrever este texto, percebo que escrevi o tipo exato de propaganda que as mães imigrantes vendem para manter suas filhas em suas culturas. Antes de Ali, minha mãe gostava de me contar histórias de alguma amiga ou parente distante que se casou com um homem branco e depois se divorciou, apenas para encontrar a felicidade ao se casar novamente com um Desi.

Não é esse o caso, mas também não deixa de ser. Não me sinto atraída pelo meu marido porque ele é da minha cor, mas também sei que não teríamos o relacionamento que temos se ele não fosse. Isso não quer dizer que sejamos tão parecidos. Na verdade, o fato de que ele cresceu no Paquistão enquanto eu passei minha juventude no meio-oeste dos Estados Unidos nos torna mais diferentes do que na maioria dos meus namorados anteriores.

Mas o que temos em comum - uma compreensão tácita de uma cultura que molda a maneira como somos, gostemos ou não - constitui um vínculo muito mais forte do que todos os outros. Escrevendo isso do ponto de vista privilegiado do meu relacionamento mais comprometido, posso ver como meu conflito interno com minha identidade se refletiu em como via os homens ao meu redor.

Outras mulheres que conheci, filhas de imigrantes como eu, mencionaram ter preferências semelhantes, um aspecto de sua sexualidade que alguns reconhecem perfeitamente como um branqueamento internalizado, mas com o qual muitos estão em paz. A preferência deles não impede relacionamentos significativos, mas ainda é uma coisa, um aspecto da intimidade que influencia qualquer relacionamento.

Meu marido e eu brincamos sobre como seria se tivéssemos nos conhecido na faculdade. Acontece que nossos caminhos se cruzaram naquela época, sem nos conhecermos, na Associação de Estudantes do Paquistão, um clube que ele ajudou a fundar. Em vez disso, nos encontramos no país onde nasci, em um café cercado por outras pessoas da nossa cor, onde finalmente parei de vê-los como “pessoas dessa cor”, mas como homens com tanta probabilidade de serem meu marido quanto o cara ao lado. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.