Jimmy Marble para The New York Times
Jimmy Marble para The New York Times

Amy Adams tem um método próprio

Uma atriz com cinco indicações ao Oscar que continua evoluindo

Reggie Ugwu, The New York Times

05 Julho 2018 | 10h00

LOS ANGELES - Amy Adams procurou na sua pochete e tirou um protetor solar. “Sou uma mãe nerd”, desculpou-se, como se tivesse a impressão de que o seu Hollywood Glamour derretia a cada aplicação em seu rosto sardento avermelhado. Era uma manhã de junho perto do meio-dia, e o sol estava alto, não havia por que desculpar-se. Mas ela é genuinamente educada e, enquanto olhava para cima no observatório de vários andares no Griffith Park aqui, no Monte Hollywood, talvez parecesse um pouco insegura.

Amy, 43, uma atriz com cinco indicações ao Oscar, começara a se perguntar como deveria estar. “Eu me sinto sempre ... não sei se decepção é a palavra certa”, disse, guardando o protetor solar na pochete. “Mas sempre que as pessoas me encontram falam: ‘É mesmo? É assim que você é’”.

Este mês, a veremos como a intérprete principal da minissérie da HBO “Objetos cortantes”, seu primeiro papel na televisão desde que começou a estrelar filmes há mais de dez anos. O longa de oito episódios, baseado no romance de Gillian Flynn (“Gone Girl”), assinala um novo começo - o papel de uma jornalista que gosta de beber e de se mutilar, de regresso à sua cidade no interior para cobrir uma série de misteriosos assassinatos, é um dos mais desolados e inquietantes de sua carreira.

“Trata-se de outro nível completamente diferente”, ela disse. E explica que se sentiu atraída pela adaptação ousada do arquétipo feminino da mulher detetive do romance.

“Eu gosto quando é possível pegar um gênero e adequá-lo à própria personalidade”, afirmou. “É uma coisa que sempre me interessou - tentar desafiar as expectativas”.

A primeira Amy Adams que apareceu nas telas foi uma Lolita de olhar faminto. Ela foi coadjuvante em quase fracassos desde a explosão dos filmes de adolescentes atrevidas, depois de “Grito”: a coadjuvante de Kirsten Dunst, ninfomaníaca, exuberante, em “Lindas de morrer” (1999) e a devassa alpinista social de “Segundas intenções 2” (2000). Ela a define brincando como a sua fase de “menina levada” - os primeiros anos desajeitados, em duas abundantes décadas de evolução diante das câmeras.

A outra fase começou em 2006, quando recebeu uma indicação ao Oscar por seu retrato generoso de uma mãe grávida em uma cidade pequena em “Retratos de família”. Ela a chama de fase “dos inocentes”, na qual se tornou uma das atrizes mais famosas e amadas dos Estados Unidos.

Como Giselle, na película seguinte, “Encantada” (2007), ela introduziu uma vida borbulhante em uma nova onda de filmes de histórias de fadas e de ação. Seguiu-se uma segunda indicação ao Oscar com “Dúvida,” em 2009, em que sua convincente inocência como freira, Irmã James, contraposta a Meryl Streep e a Philip Seymour Hoffman, embasa uma história sobre a linha sutil entre a natureza humana e o abismo.

Outra atriz poderia ter se fixado ali, limitando-se a uma vida confortável em uma ou outra nuance do personagem da ingênua desarmante.

Mas evoluiu bem mais durante esta década problemática e rude em “O mestre” (2012), e sagaz ardilosa e carnal em “A Trapaça” (2013).

“Objetos Cortantes” abre uma nova fase. Como a linguista desolada que ela interpretou em “A chegada” (2016), a jornalista da história, Camille Preaker, está à deriva e desesperada  por causa de um trauma de família que não foi resolvido, sugerindo o que a atriz identificou este período como “temperamental e introspectivo”.

“Não tenho o mesmo tom escuro e a profundidade da revolta interior, mas aquela tristeza que leva a pessoa a ser má consigo mesma. Acho que tenho isto”, ela disse para descrever como vê o seu papel.

Na trilha do Griffith Park, ela enumerou uma série de inconvenientes desde os dias que antecederam “Retratos de família” - o cancelamento de uma série de TV, importantes ocasiões que se fecharam - e o constante “diálogo negativo consigo mesma” que nunca desaparece. “Eu tenho esta voz interior que não se mostra tão entusiasta comigo”, afirmou.

Para fazer Camille em “Objetos Cortantes”, ela começou uma exagerada preparação - mapeando a biografia existencial e emocional do personagem até acreditar que poderia plausivelmente existir.

Jean-Marie Vallée, que dirigiu a série, disse “observei que sua voz caiu de tom e a sua maneira de andar mudou. De repente, ficou mais descuidada”.

Amy comparou o seu processo a “apanhar um vírus”, que ela pode sentir em seu corpo, mas também suprimir sempre que quiser.

Adam McKay, o diretor de um filme que será lançado em breve, sobre a vida do vice-presidente Dick Cheney, disse que Amy, que faz o papel de Lynn Cheney, e Christian Bale - um prestigioso ator que trabalha com um método próprio e seu parceiro anterior em “O vencedor” e “A trapaça” - mostraram igual dedicação em seus papéis.

Neste verão, ela trabalhará em uma adaptação para o cinema de outro romance de mistério, “Retrato de mulher”. Como Camille, o personagem de Amy no thriller psicológico é outro produto da era “temperamental e introspectiva” - ela fará o papel de uma reclusa mentalmente instável e patologicamente bisbilhoteira. “Devem ser os meus hormônios”, brincou.

Depois de sobreviver à sua fase “inocente”, haverá uma parte dela que irá na direção oposta.

Não que ela se queixe de algum dos seus papéis, mas Amy deseja muito um desafio. “Não tenho nenhum orgulho ou qualquer sensação de realização se não estou sob pressão, por isso tudo o que me pressiona me interessa”, afirmou. “Posso fazer sucesso, ou não, o que quero é tentar de tudo”.

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