Karsten Moran para The New York Times
Karsten Moran para The New York Times

Análise do beisebol como ciência da mente

Empresa desenvolve tecnologia capaz de quantificar e melhorar o desempenho de times profissionais, principalmente por meio do estudo do tempo de resposta dos rebatedores

Zach Schonbrun, The New York Times

04 Maio 2018 | 15h00

Na guerra para abocanhar nem que seja a mínima vantagem competitiva no Beisebol da Major League, os campos de batalha tornaram-se um pouco diferentes dos campos de jogo.Quando começou a revolução desencadeada pelos dados, cada time passou a utilizar uma análise avançada para descobrir novos jogadores ou redescobrir os antigos. A essa altura, a batalha teve de mudar de lugar.

Os neurocientistas Jason Sherwin e Jordan Muraskin são os fundadores da deCervo, uma empresa que desenvolveu tecnologias capaz de quantificar e melhorar o desempenho dos times profissionais de beisebol, principalmente dos lançadores. Em Avondale, Arizona, eles realizaram recentemente dois dias de testes com um time novato da liga. 

Muraskin, encarregado da execução do experimento, preparou uma espécie de toca de natação translúcida que colocou sobre a cabeça de um jogador – um fone de ouvido usado em um eletro-encefalograma. Então passou uma pomada condutora para os eletrodos ao redor dos pontos em que os sensores teriam de manter o máximo contato. E a simulação começou.

Desde 2014, todas menos duas franquias da Major League de Beisebol entraram em contato com eles, interessadas no seu trabalho que utiliza  a tecnologia do EEG. Várias marcaram consultas.

“Nós queríamos ser a primeira empresa a medir o impacto de uma decisão de swing”, explicou Sherwin, “e relacionar esse aspecto, que tem a ver com a mente, aos resultados do desempenho”.

Rebater uma bola de beisebol é considerada “a coisa mais difícil de se conseguir no esporte”.

Para a bola arremessada atingir o rebatedor, até os sinais nervosos viajarem do cérebro aos pontos respectivos do corpo, o tempo de resposta disponível já se reduziu pela metade. O tempo que o rebatedor tem de fato para avaliar a velocidade da bola é quase duas vezes mais rápido do que o piscar do olho.

Os melhores rebatedores dificilmente tem a mesma constituição. Os dois favoritos para a indicação a Melhor Jogador da Liga Americana em 2017, na realidade, foram um defensor venezuelano de 1.67 metro de altura e 75 quilogramas (José Altuve) e um rebatedor californiano de dois metros de altura e 128 quilogramas (Aaron Judge). O que eles têm em comum? A que se deve atribuir o seu talento?

Aparentemente, não teria quase nada a ver com os seus bíceps ou sua visão, que, para a maioria dos jogadores de beisebol, em geral é a mesma. Teria muito mais a ver com os sinais neurais que controlam todos os nossos movimentos.

O que Sherwin e Muraskin puderam mostrar é conhecido como uma rápida capacidade de decisão perceptivo-motora. Ou, como tudo o que está relacionado ao cérebro, os padrões de ativações neurais distintas e interdependentes em termos espaciais e temporais.

Os jogadores de beisebol realmente bons produzem ou reagem a estas ativações de maneira diferente das outras pessoas. É algo semelhante a como um mestre de xadrez é capaz de sacar rapidamente os movimentos no tabuleiro.

A deCervo produz gráficos detectando quando o batedor decidiu o swing até o milésimo de segundo. Ele registra minúsculas explosões de ação neural no EEG.

Outro cientista, Daniel Wolpert, investigou a origem das nossas diferenças na composição dos sinais neurais que disparamos. Individualmente, é quase impossível classificar os neurônios. Mas, agrupados, eles produzem pensamentos, ações e tudo o que ocorre no meio tempo.

Quando eles disparam seus potenciais de ação, podem soar como bolas de tênis batendo contra as cordas de uma raquete: “Pop, pop, pop”. Podem soar como rebatedores treinando.

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