Al Drago for The New York Times
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Análise: Trump mostra o que acontece quando pessoas boas não fazem nada

Trump nos deixou tão amortecidos que um dia livre da crueldade gratuita da Casa Branca parece notícia

Timothy Egan, The New York Times

25 de janeiro de 2020 | 06h00

Os assessores habituais do ódio receberam com a indiferença de sempre a ameaça do presidente da democracia mais poderosa do mundo quando ele falou em cometer crimes de guerra ao bombardear alvos de importância cultural no Irã - o tipo de barbaridade praticada pelo Taleban e pelos capangas de estados delinquentes.

Depois de ser informado que isso representaria uma violação da Convenção de Genebra que os Estados Unidos ajudou a criar na época em que o país era realmente grandioso, o presidente Donald Trump voltou atrás, mas ainda indagou: por que não? O senhor da guerra-em-chefe já tinha se dado o trabalho de proteger um integrante dos SEALs da marinha acusado de cometer crimes de guerra. E quem exatamente é o homem em nome de quem o presidente subverteu a justiça militar?

“O sujeito é simplesmente maligno", disse um colega dos SEALs aos investigadores, referindo-se ao oficial de operações especiais Edward Gallagher, condenado por tirar fotos com o cadáver de um adolescente que morreu sob sua custódia. Após a intervenção do presidente, o oficial brevemente condenado posou do clube Mar-a-Lago, que pertence a Trump.

Todos os dias, vemos exemplos de como Trump é vingativo, ignorante, narcisista, mentiroso… suas patologias são bem conhecidas. Mas é hora de descrevê-lo nos mesmos termos que o corajoso marinheiro empregou para falar do renegado em sua unidade. Sob o governo de Trump, os EUA são uma confederação de corruptos, incentivados por milhares de exemplos malignos. E este mal é contagioso.

Todos nós crescemos ouvindo os alertas atemporais a respeito da moralidade pública: para que o mal triunfe, basta que os bons não reajam. O resultado imaginado nos dá segurança, uma história que contamos a nós mesmos. Mas, nos três anos mais recentes, essa homília se revelou verdadeira, justamente no país onde isso jamais deveria acontecer. A presidência de Trump mostrou como muitas pessoas claramente boas nada farão, e como o mal, uma vez instalado no topo, escorre até o degrau mais baixo.

Quando Trump republicou no Twitter uma imagem fabricada mostrando os dois líderes democratas mais importantes do congresso vestindo trajes islâmicos diante de uma bandeira iraniana, não se ouviu um coro de condenações por parte de seus aliados. Eis ali uma mentira deslavada, uma fabricação barata e uma difamação gratuita, o tipo de truque sujo que os políticos delegam a agentes que atuam debaixo dos panos. Para Trump, era uma segunda feira como outra qualquer.

Foi por política ou por maldade que Trump, ainda candidato, difamou a família de um soldado que tinha perdido o filho? Foi por repensar as políticas públicas ou por maldade que Trump permitiu que autoridades atuando em nome dos americanos colocassem crianças em jaulas, separando-as de suas mães?

Foi apenas teatro quando ele se deliciou com o público pedindo “Hillary na cadeia” durante a campanha presidencial, sendo que a então rival Hillary Clinton já foi exonerada duas vezes por investigadores federais? Foi normal para o presidente mentir mais de 15 mil vezes?

Trump nos deixou tão amortecidos que um dia livre da crueldade gratuita da Casa Branca parece notícia. E agora tudo chega ao auge no julgamento do impeachment. Ninguém está questionando os fatos: Trump tentou obrigar uma democracia em dificuldades a fazer seu serviço sujo político. Tentou pressionar uma potência estrangeira para que interferisse nas eleições americanas. O que está em dúvida é se haverá um número suficiente dos bons dispostos a fazer algumas coisa a respeito disso.

Ao cometer este crime, Trump violou a lei, como informou um investigador apartidário do congresso no dia 16 de janeiro. O mal maior é a violação do grandioso propósito escrito nos documentos de fundação dos EUA. Os males menores são os senadores republicanos que sabem que o presidente rompeu seu compromisso e deve ser afastado, mas não tem coragem de dizê-lo.

“Não cometam o mesmo erro do meu partido: subestimar a natureza maligna e desesperada de pessoas malignas e desesperadas", escreve Rick Wilson, assessor republicano que nunca se envolveu com Trump, em seu novo livro Running Against the Devil. “Não há fundo do poço. Não há vergonha. Não há limite.”

Quanto à natureza contagiante do mal, não precisamos ir longe. Este mês, no Texas, o governador Greg Abbott disse que seu estado se tornaria o primeiro a se negar a receber até mesmo um pequeno número de refugiados que recorreram aos devidos processos jurídicos de entrada. São pessoas que tiveram o pedido de asilo aprovado pelo governo federal depois de perderem seus lares para a guerra, a fome e a perseguição. No passado, pessoas vindas do Vietnã, de Cuba e da África foram bem recebidas, tornando-se alguns de nossos melhores cidadãos.

Algumas pessoas, a Igreja Católica e alguns congressistas apresentaram suas objeções. “Aceitar refugiados de braços abertos - oferecer sem cobrar - é a atitude digna dos americanos de verdade", publicou no Twitter a congressista democrata Pramila Jayapal, de Washington, ela própria uma imigrante.

Infelizmente, os americanos da era Trump não são assim. Quando a bandeira do ódio é hasteada, a maioria dos seguidores de Trump se levanta em saudação. Eis as duas medidas exigidas de todos aqueles que se consideram bons: primeiro, reconhecer o grau de depravação que tomou conta da Casa Branca e, em segundo lugar, combatê-la de acordo.

“Não venha para essa briga acreditando que a equipe de Trump considera algo além dos limites, nem mesmo crimes evidentes", escreve Wilson. Isso não significa que precisamos trapacear, mentir e coagir. Mas significa que precisamos lutar, ou estar entre os que nada fizeram e permitiram que o mal prosperasse.

Timothy Egan é editorialista contribuinte que cobre o meio ambiente, o Oeste americano e a política. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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