Maxime Fossat para The New York Times
Maxime Fossat para The New York Times

Ancorados na fé, menonitas resistem em país de maioria muçulmana

A cidade de Rot Front, no Quirguistão, abriga dez famílias de cristão alemães que enfrentam o conflito de voltar ou não à Europa

Andrew Higgins, The New York Times

23 de maio de 2019 | 06h00

ROT FRONT, QUIRGUISTÃO - Todos os domingos pela manhã, um ônibus desce chiando pela rua principal de um dos lugares mais remotos do cristianismo, outrora um posto avançado. O ônibus continua uma jornada iniciada há cerca de 500 anos pelos menonitas, cristãos de língua alemã que fugiam das perseguições na Europa. Hoje, sua comunidade na Ásia Central está encolhendo - contudo, ainda resiste.

Seu reduto mais importante é a aldeia de Rot Front, Frente Vermelha, nome dado na era soviética ao assentamento composto por duas ruas localizado na Quirguízia, nação de maioria muçulmana formada quando a União Soviética implodiu, em 1991. Este é o posto mais a leste do êxodo menonita proveniente da Europa, que disseminou fiéis também na América do Norte e do Sul.

A comunidade alemã de Rot Front viveu em um mundo fechado durante gerações, falando exclusivamente a língua alemã, dominada pela religião. Os moradores ainda desconfiam de quem vem de fora, mas muitos começaram a imigrar para a Alemanha nos anos 1990, e os que ficaram já aprenderam a usar celulares, contribuindo para uma maior interação com o mundo lá fora.

Em uma aldeia onde vivem mais de mil pessoas, restaram apenas dez famílias alemãs. Mas nas manhãs de domingo, o ônibus ajuda a manter viva a fé religiosa destes alemães profundamente devotos, transportando-os juntamente com um punhado de quirguizes convertidos para um local de oração.

Irina Pauls, a esposa do condutor do ônibus, disse que, anos atrás, ela e o marido planejavam mudar-se para a Alemanha, mas acabaram ficando porque seus filhos não quiseram deixar os amigos. Partir ou não, segundo ela, "é uma decisão dolorosa". Três de seus filhos já crescidos foram para a Alemanha, e ela teme pelas perspectivas de casamento das duas filhas que ficaram em Rot Front.

Os menonitas raramente casam-se fora de sua religião, e embora às vezes desposem convertidos quirguizes, Irina gostaria de que as filhas se casassem com alemães étnicos. Dos cerca de 100 mil alemães étnicos que viviam na Quirguízia quando o império soviético desmoronou, restaram apenas 8.300. Entretanto, muitos daqueles que partiram costumam voltar regularmente.

A invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, em 1941, transformou os alemães étnicos em inimigos do povo. Grande parte da população adulta de Rot Front foi enviada para campos de trabalhos forçados, deixando as crianças alemãs abandonadas para cuidarem de si. Os quirguizes locais as abrigaram e alimentaram.

Esta experiência derrubou as barreiras que antes separavam os alemães étnicos e a população quirguiz indígena. Os alemães que sobreviveram à guerra também tiveram dificuldade para se sentirem completamente à vontade na Alemanha.

Andrej Keller, um alemão étnico de 59 anos que nasceu e cresceu em Rot Front, disse que tentou mudar-se para a Alemanha em 2011, mas voltou para sua aldeia depois de um ano e meio. Ele contou que, assim como muitos outros, foi seduzido pelas promessas de uma vida fácil na Europa. "A Alemanha não é nosso país", observou. "Nosso país é aqui, onde nascemos. Este é o meu lar. Aqui eu envelheci".

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