Bryan Derballa para The New York Times
Bryan Derballa para The New York Times

'Angels in America' volta aos palcos da Broadway após 25 anos

O dramaturgo Tony Kushner fala sobre como trazer à atualidade um de seus maiores sucessos

Charles McGrath, The New York Times

04 Abril 2018 | 10h15

Como é característico dele, nos últimos tempos, Tony Kushner está fazendo muitas coisas ao mesmo tempo - e está atrasado em várias delas. Recentemente, estava empreendendo uma busca entre 60 caixas que contêm os seus papéis; trabalhava em uma peça para Brad Pitt enquanto acabava outra, bem como em uma nova versão de "Amor, sublime amor" ("West Side Story"), para Steven Spielberg. Além disso, discutia se deverá reescrever sua primeira peça, "A Bright Room Called Day", enquanto analisava outra que poderia ser sobre o presidente Donald J. Trump. Ele também estava acabando o segundo ato de uma ópera que escreve com Jeanine Tesori sobre a morte de Eugene O'Neill e assistindo aos ensaios da nova versão de "Angels in America" do National Theater, estrelada por Andrew Garfield e Nathan Lane, que veio de Londres para a Broadway, onde estreou no dia 25 de março.

A razão pela qual Kushner, 61, pode assumir tantos projetos se deve em grande parte ao sucesso de "Angels", que não só ganhou um Tony e um Prêmio Pulitzer, como evidentemente é a peça mais importante da segunda metade do século 20. Ela é ao mesmo tempo realista e idealista, alimentada pela raiva da era Reagan, pela epidemia de aids e pela homofobia. O personagem de Roy Cohn (desta vez interpretado por Natahn Lane), o advogado que simpatiza pelos vermelhos e que costuma consertar as confusões na política, era um vilão tão monstruoso que era impossível tirar os olhos dele.

E entretanto "Angels" se revelou um trabalho difícil, que custará para ser igualado. Alguns de seus críticos lamentaram que nenhum trabalho depois desta peça - como "Slavs!", "Homebody/Kabul" e "The Intelligent Homosexual's Guide to Capitalism & Socialism With a Key to the Scriptures" chega a ser tão bom quanto ela.

Alguns críticos queixam-se de que Kushner dedica tempo demais escrevendo para o cinema (entre seus outros roteiros estão "Munique" e "Lincoln", ambos dirigidos por Spielberg). "Não acho que Steven Spielberg seja um realizador tão grande quanto Tony é como roteirista", disse seu amigo Larry Kramer, roteirista e ativista dos direitos dos homossexuais. "Desejo que ele volte a escrever peças".

Kushner não defende sua obra cinematográfica, mas afirma que gosta dela, que aprendeu como contar uma história com Spielberg, e que dá para pagar as contas. Ele disse também que sabia que seria conhecido para sempre por "Angels". E acrescentou: "Acho que fiz uma coisa realmente boa, que é realmente uma boa peça, mas também acredito que ela foi beneficiada por seu timing".

A peça chegou à Broadway exatamente quando o tratamento da epidemia da aids começava a dobrar a esquina e quando os Estados Unidos se livravam do reaganismo. Parecia tanto uma obra daquele tempo, que ele inicialmente não teve a certeza se iria revivê-la, uma vez que aids não é mais uma sentença de morte, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, nem sequer imaginado por seus personagens, é algo comum. 

"Mas o que nos encontramos no National foi que parece uma coisa deste momento exato", explicou Kushner. "Eu tinha esquecido de que o nome da epístola que o Anjo entrega é a Epístola Antimigratória, e há toda aquela história sobre o meio ambiente e o fim do mundo".

Pelo menos, acrescentou, o personagem de Roy Cohn se tornou até mais ameaçador e relevante: "Você pode ouvir o que Roy fala na peça sobre lealdade e não pensar no demônio babilônico de barro da Casa Branca, que desconhece o que seja lealdade".

"Angels in America" começou como um trabalho encomendado por Tony Taccone, na época diretor do Eureka Theater de San Francisco, e Oskar Eustis, seu dramaturgo. Deveria ser uma comédia sobre homossexuais, judeus e mórmons, lembra Eustis, e duraria talvez 90 minutos. Ao contrário, evoluiu para uma peça em duas partes e sete horas de duração. Ela tem seus momentos engraçados, mas grande parte dela é devastadora, inspirada na epidemia da aids e na própria dificuldade de Kushner em se apresentar como homossexual.

Kushner sempre foi um revisor compulsivo, e é famoso por brigar com quase todos os diretores com quem trabalhou. Demitiu Eustis, seu amigo íntimo. Mas Kushner diz que não é tão mau quanto costumava ser, e que Marianne Elliott, a diretora desta nova versão, tem sorte.

"Acho que Tony começou a confiar um pouco no mundo e a confiar mais na peça", comentou Eustis. 

Kushner, que e casado com Mark Harris, escritor, editor e documentarista, disse que está tentando ser mais flexível.

"Comecei a observar meu marido enquanto ele fazia o documentário baseado no seu livro 'Five Came Back'. Foi um processo de dois anos, bastante complicado, e observei que ele nunca se zangava com ninguém, nunca escrevia e-mails de 5 mil palavras desancando a estupidez e a imbecilidade de todo mundo", contou. "Ele se comportava como um perfeito cavalheiro, e conseguia que fizessem o que ele precisava que fosse feito, e com resultados espetaculares. Não sou como ele, mas fico pensando que também poderia fazer algo assim".

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