Lauren Fleishman/The New York Times
A artista conceitual Anicka Yi assumiu o Turbine Hall na Tate Mondern com um trabalho odorífero para excitar os sentidos. Lauren Fleishman/The New York Times

Anicka Yi transforma medo humano de infecções em obra de arte

Com o trabalho, ela tenta fazer com que o público também tenha uma experiência olfativa

Tess Thackara, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Há seis anos, a artista Anicka Yi criou uma exposição sobre um tema que agora parece assustadoramente presciente: o medo humano do contágio viral. Depois que um caso de ebola foi confirmado em Nova York, perturbando a vida da metrópole e causando meses de ansiedade, Yi montou tendas no espaço de artes The Kitchen, na mesma cidade, para exibir placas de Petri contendo bactérias que ela havia coletado de cem mulheres.

Para Yi, de 50 anos, os germes e micróbios com os quais temos contato são a chave para entender como os humanos respondem uns aos outros. E o ar que respiramos é responsável por grande parte dessa troca molecular. Agora ela assumiu o Turbine Hall, na Tate Modern, em Londres, para uma apresentação solo em 16 de janeiro de 2022. O ar é seu principal material e assunto.

Quando os visitantes entram no salão industrial cavernoso, encontram criaturas gigantes transportadas pelo ar que parecem primas etéreas das águas-vivas e amebas, trazidas à vida com tecnologia e algoritmos de drones.

O salão também está tomado por outra sugestão, menos tangível, de vida microbiana: um aroma que mudará a cada semana, evocando a história olfativa da área de Bankside em torno do museu, desde a era Pré-Cambriana e o fim do Jurássico até a Idade das Máquinas. Entre os perfis olfativos que Yi criou estão aqueles que representam períodos mais nocivos da história de Londres, incluindo o cheiro da cólera e o da peste bubônica.

O ecossistema de Turbine Hall, como Yi o imaginou, "é o local em que se reúne todo esse emaranhado biológico", disse ela em recente entrevista em vídeo, de Londres, onde estava instalando os "aeróbios", ou "máquinas biologizadas", como ela os chama, que flutuam e ondulam no espaço. "Quero colocar em primeiro plano a ideia de que o ar é uma escultura que habitamos."

A experiência olfativa e os organismos negligenciados ou malignos - como bactérias, algas e amebas - têm sido componentes centrais do trabalho de Yi. A curadora Lumi Tan, que trabalhou com Yi em sua exposição de 2015 no The Kitchen, lembra-se de ter visto um dos primeiros trabalhos da artista: uma imagem projetada sobre um bloco de tofu. "Com o calor da projeção e o tofu sem refrigeração, dava para vê-lo suar. Dava para sentir o cheiro. Ela não tem medo de usar coisas que não gostamos de ver no dia a dia - como sinais de decomposição e contaminação - no centro de uma exposição", afirmou Tan em entrevista.

O trabalho de Yi com odores varia do emocional ao sociopolítico, iluminando seu interesse pela forma como o nariz humano é condicionado por forças externas. Ela já cultivou um cheiro para representar a experiência do esquecimento, criou um aroma de "imigrante" e recriou o odor de um showroom de Nova York que pertence ao negociante de arte Larry Gagosian. "Acho que a utilização de aromas tem um potencial incrível para a arte. O cheiro altera nossa química. Molda nossos desejos. Também pode nos deixar gravemente doentes. Sempre vai haver risco biológico, risco social, quando falamos do ar."

As formas flutuantes de Yi reagem ao ar no Turbine Hall de maneiras imprevisíveis, com cada uma das criaturas tentaculares e bulbosas programada para exibir um conjunto próprio de comportamentos. Sensores de calor instalados por todo o espaço permitem que seja detectada a presença de visitantes - e podem fazer com que um ou dois dos microrganismos flutuem para baixo, pairando sobre a cabeça deles.

O interesse em algoritmos é um desenvolvimento recente, mas se baseia em ideias que permeiam a carreira artística de Yi. Na Bienal de Veneza de 2019, ela apresentou uma série de casulos translúcidos feitos de pele de alga e habitados por moscas animatrônicas. Uma instalação complementar de vitrines suspensas abrigava terra e bactérias, com uma inteligência artificial monitorando o comportamento da colônia, aprendendo com ela e ajustando o clima interno.

Yi comentou que esperava devolver as máquinas à natureza: quer que elas manifestem e representem a inteligência de diversas formas de vida, não apenas a inteligência humana, e que aprendam com a experiência de incorporação: "Sinto que é isso que devemos desenvolver em nossa pesquisa sobre inteligência artificial, em oposição à inteligência artificial, que é ostensivamente cognição pura e sem matéria."

Para muita gente, a perspectiva de máquinas autônomas ocupando livremente o mundo dos vivos pode provocar pesadelos distópicos, mas Yi disse que estava otimista: "Quero quebrar o binário que temos de que as máquinas são puramente adversárias. Elas não vão desaparecer, e ainda há tempo de moldá-las e desenvolvê-las de uma forma mais gentil e compassiva."

É esse atributo que diferencia Yi como artista, segundo Barbara Gladstone, sua agente. "Sempre me interessei por artistas que usam o que está disponível no presente: tecnológica, científica e culturalmente. Esses artistas abrem portas e são realistas. Não são sentimentais em relação ao mundo em que vivem."

Com sua apresentação no Turbine Hall, Yi afirmou que esperava "descentralizar o humano" e cultivar empatia pela natureza e pelas máquinas, criando a sensação de que todos podemos coexistir em harmonia, em um estado perpétuo de troca e aprendizado mútuo. "As tentativas de fechar as fronteiras - e digo isso em todos os sentidos - são sintomáticas de nossos medos e ansiedades. Devemos deixar tudo fluir. Não existe nada além da porosidade incessante."

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