Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Democracia na natureza: como grupos de animais votam?

Como alguns animais tomam decisões em grupo e de que maneira podemos aplicar suas estratégias em nossas próprias vidas

Elizabeth Preston, The New York Times

13 de março de 2020 | 06h00

Os animais que vivem em grupo também precisam tomar decisões em grupo. Eles confiam uns nos outros para a proteção mútua ou para procurar comida. Então, precisam encontrar maneiras de chegar a um consenso. Embora não possam realizar eleições como os seres humanos, espécies que variam de primatas a insetos têm métodos para chegarem a acordos surpreendentemente democráticos.

Assim que os suricatos acordam, ao nascer do dia, eles começam a procurar comida. Cada suricato cuida de sua própria alimentação, mas eles se deslocam em grupos um tanto dispersos, com até 10 metros de distância entre os membros mais próximos, diz Marta Manser, cientista do comportamento animal da Universidade de Zurique, na Suíça.

Eles se movem como uma unidade, chamando um ao outro enquanto avançam. Um de seus sons é um miado suave que os pesquisadores batizaram de “chamado do vamos embora”. Parece significar: “Estou pronto para sair fora desta área, quem vem comigo?”.

Em um estudo de 2010, Manser e seus colegas analisaram esses chamados em uma dúzia de grupos de suricatos que vivem no deserto de Kalahari, na África do Sul. Os grupos variavam de 6 a 19 indivíduos, mas apenas três precisavam miar para que todo o grupo decidisse seguir adiante.

Quando os animais mudam de comportamento em resposta à conduta de uma massa crítica de seus iguais, os biólogos chamam essa mudança de resposta ao quórum. Manser acha que as respostas ao quórum também se manifestam nas decisões humanas. “Se você está em um grupo e alguém diz ‘Vamos comer pizza’, mas ninguém se anima, não acontece nada”, disse ela.

Mas, se alguns dos amigos topam o chamado para a pizza, o argumento fica muito mais convincente. Manser descobriu que não importava se os suricatos que faziam o “chamado do vamos embora” eram dominantes ou subordinados. “Tudo depende do grau de convicção que esse indivíduo demonstra”.

Quando uma colônia de abelhas se divide em duas, uma rainha e vários milhares de operárias fogem juntas da colmeia. O enxame encontra um lugar para fazer uma pausa, enquanto algumas centenas de batedoras procuram um novo lar. Quando uma batedora encontra um buraco promissor, ela voa de volta para o enxame e faz uma dança oscilante, com a qual conta às outras as características do local – qualidade, distância e direção.

Outras batedoras também retornam ao enxame e fazem suas próprias danças. Aos poucos, umas batedoras são convencidas pelas outras e trocam de coreografia. Quando todas as batedoras concordam, o enxame voa para seu novo lar. Os cães selvagens africanos passam um bom tempo socializando e descansando. Membros de uma matilha pulam e se cumprimentam em rituais cheios de energia chamados “comícios”. Depois de um desses comícios, os cães podem sair juntos para iniciar uma caçada – ou podem voltar a descansar.

Em um estudo de 2017, pesquisadores descobriram que a decisão parece ser democrática. Para votar na caça, os cães espirram. Quanto mais espirros ocorrem durante um comício, maior a probabilidade de os cães saírem para caçar. Se é um cão dominante que começa o comício, fica mais fácil convencer a matilha – bastam três espirros. Mas, se é um cão subordinado que inicia o comício, são necessários pelo menos 10 espirros.

Os autores de um artigo de 2015 colocaram colares com GPS em 25 membros de uma tropa de babuíno-anúbis no Quênia. Eles monitoraram cada passo dos macacos por duas semanas. Depois, estudaram os movimentos de cada indivíduo, para ver quem estava puxando o grupo em novas direções.

Os dados mostraram que qualquer babuíno pode começar a se afastar dos outros, como que para atraí-los para um novo percurso. Quando vários babuínos se moviam na mesma direção, outros eram mais propensos a segui-los. Quando havia discordância, com babuínos se movendo para direções diferentes, os outros seguiam a maioria. Mas, se dois estivessem tomando direções com menos de 90 graus de distância, os seguidores tentavam encontrar um caminho do meio. De qualquer maneira, o grupo todo sempre acabava junto.

Ariana Strandburg-Peshkin, pesquisadora do comportamento animal da Universidade de Konstanz, na Alemanha, que liderou o estudo, destaca que, diferentemente do que acontece com os humanos, nenhuma autoridade contabiliza os votos dos babuínos e anuncia o resultado.

O veredito surge naturalmente. Mas nosso processo de votação parece contar com o mesmo tipo de construção sutil de consenso. “Podemos, por exemplo, influenciar as decisões uns dos outros sobre em quem votar nas eleições, antes mesmo de começar a votação”, disse ela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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