Grant Hindsley / The New York Times
Grant Hindsley / The New York Times

Antes do combate, um momento para respiração e relaxamento

Trabalhar a respiração para aumentar a concentração e eliminar distrações é uma prática que tem encontrado espaço no exército dos Estados Unidos e no de outros países

Matt Richtel, The New York Times

14 de abril de 2019 | 06h00

Enquanto comandante das forças da coalizão no Iraque, o general de divisão Walter Piatt alternava entre caçadas implacáveis a inimigos e delicadas jogadas num xadrez diplomático envolvendo líderes tribais, usando um acervo de armamentos modernos e enxurradas de dados gerados pela tecnologia. Mas ele disse que as melhores decisões que tomou dependeram de uma ferramenta tão antiga quanto poderosa. Com frequência, o general Piatt começava as operações do dia com uma respiração profunda, de maxilar relaxado, olhando fixamente para uma palmeira.

A meditação que busca o bem-estar - a prática de usar técnicas de respiração, semelhantes às da meditação, para aumentar a concentração e eliminar distrações - está encontrando espaço no exército dos Estados Unidos e no de muitos outros países. No fim do ano, soldados da infantaria do exército na base de Schofield Barracks, Havaí, começaram a usar a meditação para aprimorar a pontaria - por exemplo, concentrando-se no momento certo de puxar o gatilho em meio ao caos para evitar ameaças desnecessárias para os civis.

A marinha real britânica ofereceu a seus oficiais treinamento em meditação, e líderes militares estão implementando o curso no exército e na força aérea para alguns oficiais e soldados. As forças de defesa da Nova Zelândia adotaram a técnica recentemente, e forças militares dos Países Baixos também estão pensando na ideia. A Otan acaba de realizar um simpósio este mês em Berlim para debater a meditação no exército.

Um grupo pequeno e cada vez maior de oficiais defende o uso das técnicas para incentivar veteranos na superação de traumas, facilitar as decisões de comando e ajudar soldados em batalha. “Recentemente, fui indagado se os soldados me chamam de general namastê", brincou o General Piatt, comandante da 10.ª Divisão montanhesa do Exército. “De acordo com o estereótipo, esse tipo de coisa nos deixaria moles. Ao contrário: é uma forma de se manter afiado". 

De acordo com ele, a abordagem tem como base o trabalho da professora-assistente Amishi Jha, que ensina psicologia na Universidade de Miami. Ela é a principal autora de um estudo publicado em dezembro a respeito da eficácia do treinamento entre os membros de uma unidade das operações especiais. O estudo informou que os soldados submetidos a um treinamento com duração de um mês, que incluía a prática diária da respiração meditativa e técnicas de concentração, se mostrava mais capazes de discernir informações-chave em meio a circunstâncias caóticas, apresentando ganhos na memória e funções relacionadas. Além disso, esses soldados cometeram menos erros cognitivos.

Os resultados, que aproveitam pesquisas anteriores mostrando melhorias entre os soldados treinados na meditação, são significativos porque os membros das forças especiais já são escolhidos por sua capacidade de concentração. “Eles são os melhores, empenhados nas tarefas mais difíceis", avaliou Jha. 

Mais concentração

A ciência mostra que técnicas para acalmar e concentrar o poder de atenção da mente permitem que as pessoas alcancem um desempenho melhor e diminui sua probabilidade de reagir exageradamente à chegada de um estímulo - seja um movimento brusco, um som ou uma enxurrada de informações em um dispositivo.

A neurociência da meditação envolve, em parte, fortalecer uma parte da capacidade mental chamada “memória de trabalho” - um catálogo de tarefas mantido no curto prazo que, aparentemente, só consegue trabalhar com algumas peças de informação por vez.

Conforme a memória de trabalho se torna opaca com a sobrecarga, as decisões se tornam menos claras e as reações, mais impulsivas. A concentração induzida pela respiração permite que as pessoas mantenham o foco na tarefa que têm diante de si. Mas é necessário treino.

O comandante William MacNulty é um oficial do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos que ajudou no treinamento de uma unidade das forças especiais. Ele comparou os benefícios da prática da meditação às flexões de braço. “É claro que ninguém vai começar a fazer flexões no meio de um tiroteio: a ideia é ter um ganho de capacidade". Ele acrescentou que o mesmo vale para a meditação: a capacidade de concentração “se torna uma habilidade transferível". 

As pesquisas também mostraram que a meditação pode ajudar os soldados na superação do distúrbio de estresse pós-traumático. Essa foi a experiência do comandante Tim Boughton, principal defensor britânico do uso da meditação nas forças armadas. Quando entrou para a reserva, em 2008, Boughton percebeu que tinha se tornado introspectivo e propenso a ataques de fúria por causa dos horrores que testemunhou: a morte de 48 compatriotas em batalhas no Iraque, Afeganistão, nas Malvinas e na Irlanda do Norte; “limpeza étnica, combate corpo-a-corpo e outras barbaridades do tipo".

Boughton descobriu a meditação depois de sofrer os efeitos do distúrbio de estresse pós-traumático. Agora, ele começa e encerra o dia com cinco minutos de exercícios para a respiração. Usa a técnica toda vez que se sente tomado pela ansiedade e pelo pânico. Os traumas não desapareceram, disse Boughton, mas ele não se sente mais assombrado diariamente por eles.

“É incrível a quantidade de energia mental que liberamos ao deixar de pensar o tempo todo no passado ou no futuro", pontuou. “O exército está enxergando o benefício em massa que pode tirar disso.” Boughton pensou se a meditação tem lugar em um conflito. “Os puristas diriam que a meditação nunca foi pensada para uma aplicação na guerra".

O que ele quer dizer é que a meditação costuma ser associada à paz de espírito. Mas ele acrescentou que a ideia é ser tão fiel a ideais de humanidade e compaixão quanto o possível, dada a realidade do trabalho.

O general Piatt sublinhou esse ponto, descrevendo uma delicada missão diplomática no Iraque envolvendo uma reunião com uma líder tribal local. Antes da reunião, ele disse ter meditado diante de uma palmeira, descobrindo-se extremamente concentrado no momento da conversa, logo em seguida. “Não precisava fazer anotações. Eu lembrava cada palavra que ela dizia. Em vez de reagir, eu apenas escutava", lembrou Piatt. 

Quando a líder concluiu sua fala, ele disse que respondeu "a cada ponto mencionado por ela, e tive de fazer algumas concessões. Lembro da expressão no rosto dela: parecia reconhecer em mim alguém com quem podia negociar". No fim, a meditação o ajudou a “reduzir o conflito por meio do entendimento". “Não estou sugerindo uma abordagem mole. Estou sugerindo que empatia e compaixão sejam usadas para a conquista de vantagens reais. A manutenção da paz, interior ou não, dá muito trabalho”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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