James Hill para The New York Times
James Hill para The New York Times

Antes esquecido, herói da democracia é celebrado em Belarus

Integrante da Revolução Americana, Andrej Tadeusz Kosciuszko foi por muito tempo ignorado pela sua terra natal

Andrew Higgins, The New York Times

03 de agosto de 2019 | 06h00

KOSAVA, BELARUS - Thomas Jefferson o celebrou como o “mais puro filho da liberdade que já conheci". Nova York celebrou seu papel na guerra de independência americana. A Polônia o considera líder de uma revolta do fim do século 18 contra o império russo. Assim sendo, o que faz Andrej Tadeusz Kosciuszko, que lutou a vida inteira contra a autocracia, no centro de um complexo memorial do governo de Belarus? Kosciuszko nasceu e foi criado no interior nos arredores de Kosava, pequena cidade localizada 200 quilômetros a sudoeste da capital, Minsk.

Cansada de ser ignorada como mero apêndice da Rússia, de ser denunciada como “última ditadura da Europa” ou, pior ainda, de ser simplesmente ignorada, Belarus está agora exaltando seu mais famoso herói. “Ele é um herói nacional americano, um herói nacional polonês, mas é também o nosso herói", disse Irina Semenyuk, vice-diretora do complexo memorial. “Graças a ele, as pessoas sabem a nosso respeito.”

Kosciuszko estava muito à frente da maioria dos seus contemporâneos europeus na defesa da democracia e dos direitos humanos. Ele viajou para os Estados Unidos em 1776 e se juntou às forças americanas que combatiam os ingleses. Chegou ao fim da guerra de independência com a patente de general de brigada do exército dos EUA e a cidadania da nova república.

De volta à Europa na década de 1780, defendeu reformas liberais em um império russo em expansão. Em 1794, esteve à frente de um levante contra o governo russo, defendendo Varsóvia contra as forças que a sitiavam durante meses antes de a revolta ser sufocada. Detido durante algum tempo em São Petersburgo, Kosciuszko foi solto em 1796 recebeu permissão para deixar a Rússia.

Governado como parte da União Soviética até 1991, que já foi controlada pela Lituânia, o país passou décadas sem demonstrar nenhum interesse na celebração de Kosciuszko. Governantes soviéticos removeram uma antiga estátua erguida em homenagem a ele pelos poloneses da Bielorrússia ocidental. Durante anos, a única estátua em homenagem a ele era um busto na Embaixada Americana em Minsk.

Mas, nos anos mais recentes, as autoridades, pressionadas por fãs de Kosciuszko, começaram a enxergá-lo como uma fonte útil de orgulho nacional. Entrou para os livros didáticos como um gigante nascido no país e teve uma nova rua nomeada em sua homenagem em Brest, perto da fronteira com a Polônia.

No ano passado, uma estátua de Kosciuszko, a primeira homenagem pública a ele desse tipo no país, foi erguida do lado de fora de uma réplica da casa em que ele nasceu em 1746. Uma placa instalada no pé da estátua declara que ele é um campeão da liberdade de renome internacional e “um grande filho da pátria bielorrussa". O entusiasmo tardio da Bielorrússia em relação a Kosciuszko irritou alguns na Polônia, país vizinho, onde ele é considerado um tesouro nacional.

“Os poloneses dizem que ele lhes pertence. Lituanos e ucranianos dizem o mesmo. Americanos, também". “Mas sempre digo que Kosciuszko não percence a ninguém", disse Leonid Nesterchuk, historiador que comanda a Fundação Kosciuszko. “Ele pertence ao mundo todo, como verdadeiro democrata e defensor da liberdade.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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