Pablo Rochat / The New York Times
Pablo Rochat / The New York Times

Antes tratado como obsoleto, e-mail ainda prospera para uma pequena elite

Novo serviço chamado Superhuman é destinado somente para convidados e tem mensalidade de US$ 30; sistema promete 'a experiência de e-mail mais ágil de todos os tempos'

Kevin Roose, The New York Times

12 de julho de 2019 | 06h00

Estamos em 2019, e os engenheiros do Vale do Silício estão debruçados sobre o trabalho, desenvolvendo tecnologias transformadoras de última geração como carros autônomos, moedas digitais e computação quântica. Enquanto isso, a startup mais comentada de San Francisco é… um aplicativo caro de e-mail?

Alguns meses atrás, falou-se em algo chamado Superhuman. Trata-se de um serviço apenas para convidados com mensalidade de US$ 30 que promete “a experiência de e-mail mais ágil de todos os tempos". O influente investidor Marc Andreessen teria apostado na ideia, assim como fizeram nomes importantes da tecnologia como Patrick e John Collison, fundadores do Stripe. Dizia-se que o aplicativo teria uma lista de espera de mais de 100 mil pessoas. “Temos uma verdadeira lista de grandes nomes do Vale do Silício no momento", garantiu Rahul Vohra, fundador do Superhuman. 

A lista de espera tem, na verdade, 180 mil pessoas, de acordo com ele, e algumas delas estão ficando impacientes. Ele mostrou uma foto de um bolo sem glúten enviado ao escritório da Superhuman por alguém que esperava receber em troca um convite. “Alcançamos um grau de viralização incrível, como não se via desde o Dropbox ou o Slack", acrescentou Vohra.

Em maio, a Superhuman captou US$ 33 milhões em uma rodada de investimento, vindos principalmente da Andreessen Horowitz, a firma de Andreessen. Isso levou a avaliação de mercado da empresa a um valor de aproximadamente US$ 260 milhões - valorização considerável para um aplicativo com menos de 15 mil clientes, mas aparentemente justificada pela trajetória da empresa e do apoio inspirado por ela nos fãs.

Não é fácil registrar-se para uma conta do Superhuman. Primeiro, é necessário preencher um longo questionário a respeito de seus hábitos de uso do e-mail e seu fluxo de trabalho. Então, se a sua solicitação for devidamente aprovada, há uma reunião obrigatória na qual um representante da empresa apresenta o funcionamento do aplicativo por meio de uma videoconferência. O Superhuman, que se aproveita da conta que e-mail que o usuário já tem, só funciona com endereços do Gmail e do Google G Suite por enquanto, mas a empresa planeja expandir o serviço para outros provedores.

Alguns dos recursos do aplicativo - como os que possibilitam cancelar o envio de mensagens, rastrear quando suas mensagens são abertas e abrir automaticamente o perfil de um contato no LinkedIn - estão disponíveis em outros complementos de terceiros para programas de e-mail. Mas há outros recursos, como “apresentação instantânea", que transfere o remetente de uma mensagem de apresentação para cco, poupando o usuário de ter que inserir manualmente o endereço de e-mail da pessoa. Ou o recurso de agendamento, que identifica quando estamos digitando “na próxima terça” e abre automaticamente nossa agenda para o dia.

São recursos atraentes para os usuários intensivos que passam a maior parte do dia digitando em um computador de mesa ou laptop (o Superhuman tem um aplicativo para celulares, mas boa parte das funções mais potentes exige um teclado). Vohra disse que o aplicativo é voltado para pessoas que passam pelo menos três horas por dia respondendo e enviando e-mails. “Quando passamos tantas horas por dia lendo mensagens de e-mail, esse é o nosso trabalho", disse Vohra. “E todos os outros trabalhos dispõem de uma ferramenta que nos permite realizá-los mais rapidamente”.

O Superhuman promete ajudar os usuários a zerar suas caixas de entrada duas vezes mais rápido. Em parte, isso ocorre porque cada comando ganha um atalho de teclado, o que possibilita um usuário mais habilidoso poupar segundos preciosos sem ter de usar o mouse. E, em parte, ocorre porque o próprio aplicativo é pensado para ser rápido - armazena informações localmente no navegador do usuário, em vez de recuperá-las dos servidores do Google, reduzindo o tempo necessário para navegar entre os e-mails.

Durante anos, o e-mail pareceu um resquício de uma era tecnológica anterior que estava lentamente se tornando obsoleto. Aplicativos de mensagens voltados para o ambiente de trabalho, como o Slack, se apresentavam às grandes empresas como “substitutos do e-mail", e os aplicativos de mensagens tomaram o espaço do e-mail como caixa de entrada primária dos usuários.

Mas o e-mail sobrevive. Na verdade, prospera: quase 300 bilhões de mensagens de e-mail são enviadas e recebidas todos os dias, de acordo com a firma de pesquisas Radicati. Parte do que faz o e-mail uma proposta que continua interessante é o fato de ele ser, em tese, administrável. Diferentemente dos aplicativos de mensagem, que nos interrompem durante o dia, ou os feeds das redes sociais, que são organizados e classificados por algoritmos, o e-mail é controlado pelo usuário. Pode ser compartimentado e agendado. Ele se encaixa no nosso dia sem assumir o controle do nosso tempo. E, apesar das mensagens de spam, das listas de marketing e dos ocasionais pesadelos causados pelo botão responder a todos, o e-mail ainda é uma ferramenta de trabalho bastante boa.

Vohra acredita que o e-mail continuará dominando nossas vidas por anos. Outro grande problema é o Gmail. O serviço criado há 15 anos tem 1,5 bilhão de usuários e dispõe dos recursos quase infinitos do Google. Se quisesse, o programa poderia simplesmente copiar todos os recursos do Superhuman e oferecê-los gratuitamente. Mas, para Vohra, isso  é improvável. “Construir ferramentas pagas para grupos relativamente pequenos de pessoas não está no DNA do Google", afirmou.

O Superhuman diz que não armazena e-mails dos usuários nos seus servidores; ainda assim, exige-se dos usuários que concedam acesso completo às suas contas de e-mail, o que pode afastar aqueles mais preocupados com a privacidade. O maior obstáculo para o Superhuman pode ser o fato de a maioria das pessoas não usar o e-mail de forma tão intensiva. Para o usuário médio, uma experiência de e-mail com recursos diferenciados e caros só valeria a pena se fosse capaz de ler e responder mensagens automaticamente, além de pedir o almoço e ajudar com o imposto de renda. Mas, se você passa o dia na caixa de entrada e pode pagar a mensalidade de US$ 30, vale a pena acessar essa área VIP e conhecer a vida da elite do e-mail.

 

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