Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Ressentimento na antiga Alemanha oriental alimenta a extrema direita

Trinta anos após a queda do Muro, divisões entre os antigos lados Ocidental e Oriental da Alemanha são mais difíceis de transpor do que nunca

Katrin Bennhold, The New York Times

17 de novembro de 2019 | 01h00

BERLIM - Abenaa Adomako se lembra da noite em que o Muro de Berlim caiu. Alegre e curiosa como muitos alemães do lado Ocidental, ela foi ao centro da cidade cumprimentar os alemães do lado Oriental que estavam atravessando a fronteira para um primeiro gosto de liberdade. “Bem-vindos”, disse ela, oferecendo vinho espumante a um casal que aparentava estar desorientado em meio à multidão.

Mas o casal não aceitou. “Eles cuspiram em mim e me xingaram”, disse Abenaa, cuja família vive na Alemanha desde a década de 1890. “Eles eram estrangeiros em meu país. Mas, para eles, por ser uma mulher negra, a estrangeira era eu.” O alemães comemoraram o 30º aniversário da queda do Muro de Berlim em 9 de novembro, mas a questão envolvendo o que torna alguém alemão - quem pertence ou não ao país - está tão indefinida quanto sempre foi. A Alemanha é uma usina de energia econômica e política, e sua reunificação foi central para que o país passasse a ocupar uma posição dominante na Europa.

Mas a unificação fez pouco para conciliar a dolorosa questão da identidade alemã. Trinta anos depois, ela parece até ter exacerbado o problema. Ódio étnico e violência estão em ascensão. Um partido de extrema direita progride no antigo lado Oriental. Abenaa afirma que ainda tem medo de visitar a região.

Mas ela não é a única pessoa que se sente uma estranha em sua própria terra. O atual esforço da Alemanha em integrar mais de um milhão de solicitantes de asilo, que receberam as boas-vindas da chanceler Angela Merkel em 2015, é o desafio mais imediato - agravado por erros do passado, em um país que abriu uma via legal para a cidadania de filhos de imigrantes somente em 2000.

Nas décadas após a queda do Muro, a população de imigrantes na Alemanha se tornou a segunda maior no mundo, atrás dos Estados Unidos. Um em cada quatro habitantes da Alemanha é descendente de imigrantes. Mas, duas décadas após o país parar de definir a cidadania exclusivamente por genealogia ancestral, alemães de extrema direita e outras orientações políticas começaram a fazer a distinção entre “alemães de passaporte” e “alemães biológicos”. 

Os descendentes dos trabalhadores turcos que foram convidados para viver no país após a 2ª Guerra Mundial ainda lutam por aceitação. Judeus, em sua maioria vindos da União Soviética, estão apreensivos depois que o ataque a uma sinagoga em Halle, no leste da Alemanha, ocorrido no mês passado, chocou o país que fez do lema Never Again (“Nunca mais outra vez") um pilar da identidade alemã do pós-Guerra.

Muitos alemães do lado Oriental se sentem cidadãos de segunda classe, após uma reunificação que Hans-Joachim Maaz, um psicanalista de Halle, qualifica como uma “invasão cultural”. Uma nova identidade alemã oriental está minando a alegre narrativa que dominou a história da reunificação em aniversários passados.

“É um momento existencial para o país”, afirmou Yury Kharchenko, um artista que vive em Berlim que, de maneira desafiadora, se identifica como um judeu alemão, apesar - e por causa - dos agentes de segurança armados que guardam a creche de seu filho em Berlim. “Todos estão em busca de sua identidade.”

Superar o passado, especialmente a ideologia nazista, responsável pelo Holocausto, tem sido um    princípio que orienta a identidade alemã desde a 2ª Guerra Mundial. Tanto no lado Oriental como no Ocidental, a intenção era criar uma Alemanha diferente, melhor. O lado Ocidental resolveu se tornar um modelo de democracia liberal, fazendo reparações pelos crimes nazistas e submetendo seus interesses nacionais aos da Europa pós-nacionalista.

O lado oriental definiu a si mesmo segundo a tradição dos comunistas que resistiram ao fascismo, produzindo uma doutrina de Estado de lembrança desse passado que o escusava das atrocidades dos tempos de guerra. Atrás do Muro, o lado Oriental estava congelado no tempo, sendo um país quase que homogeneamente branco. “Sob o cobertor do antifascismo, o antigo nacionalismo sobreviveu, em parte”, afirmou Volkhard Knigge. “Tiraram essa coberta em 1989.”

Essa é uma das razões por que o populismo prospera mais abertamente no antigo lado oriental. A outra é que os habitantes do leste têm se rebelado contra uma narrativa ocidental que os enfraqueceu. Maaz, como muitos de seus pacientes, agora se identifica como um alemão oriental, algo que ele nunca fez sob o regime comunista.

O lado ocidental, afirmou ele, negligenciou o papel que a identidade nacional cumpriu na pacífica revolução do lado oriental contra o domínio soviético. “Nós que marchamos, nós que derrotamos o comunismo, mas isso tudo se tornou uma vitória do Ocidente”, afirmou ele, acrescentando: “Nunca nos deram o poder para contar nossa versão da história. 

Não podíamos nem dizer que tivemos uma infância feliz sem quebrar algum tabu”. Os alemães do lado oriental foram cúmplices em relação à sua submissão, afirmou ele. “O preconceito dos ocidentais era: nós somos os melhores. O preconceito dos orientais era: não somos assim tão bons”, disse ele. “Agora, os orientais estão dizendo: nós somos diferentes.”

O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha explorou esse sentimento, incorporando a identidade do lado oriental e alimentando ressentimentos, especialmente contra imigrantes. Mais de 9 entre 10 imigrantes vivem no antigo lado ocidental. Mas é no antigo lado oriental que o sentimento anti-imigração é mais forte.

Maaz afirmou que isso tem menos a ver com a imigração do que com a emigração em massa que ocorreu nos anos que se seguiram a 1989. “Existe uma ansiedade demográfica que agudizou a sensação de ameaça à identidade”, afirmou ele. Abenaa, que cresceu na Alemanha Ocidental, se recorda da onda de ataques contra imigrantes nos anos após a queda do Muro.

Durante a maior parte de sua vida, o lado Ocidental também era  majoritariamente branco. Na época que ela nasceu, a década de 1960, ela era a única criança negra na escola que frequentava em Berlim Ocidental. Quando a filha dela, Antonia, de 20 anos, terminou o ensino médio, no ano passado, um a cada quatro alunos em sua classe não era branco.

Mas, quatro gerações após o bisavô dela ter chegado de Camarões, que era uma colônia alemã na época, Antonia ainda ouve rotineiramente a pergunta: “De que país você é?” “Quando estou no exterior, me sinto alemã”, afirmou ela. “Mas quando estou na Alemanha, não sei.”

Idil Baydar afirmou que, quando era criança, se sentia alemã. Mas isso mudou. Filha de um imigrante turco que chegou ao país na década de 1970, a mulher de 44 anos se descreve como uma “estrangeira com passaporte alemão”. “Os alemães fizeram de mim uma imigrante”, afirmou Idil, uma comediante que ficou popular por zombar da inquietante relação da Alemanha com seus maiores grupos de imigrantes.

A reviravolta ocorreu no ano passado, quando um veredicto foi alcançado em um caso de 10 homicídios em série, em sua maioria de imigrantes turcos, cuja culpa recaiu em outros imigrantes. Na verdade, os assassinatos tinham sido cometidos ao longo de sete anos, por um grupo neonazista clandestino que era protegido pelo serviço de inteligência da própria Alemanha. Para Idil, esse caso acabou com o pouco de confiança que ela tinha de que o país onde ela nasceu a protegeria.

Ela tem planejado uma “rota de fuga”, possivelmente para o Canadá. “Meus amigos alemães me dizem: ‘Você está exagerando’”, afirmou ela. “Eu respondo: ‘Se eu tivesse olhos azuis e cabelo loiro, eu diria o mesmo’. E agora, estão caçando estrangeiros nas ruas de Berlim”; referindo-se aos radicais de extrema direita que atacaram pessoas que aparentavam ser “estrangeiras”, na cidade de Chemnitz, no leste do país, ano passado.

Em junho deste ano, um político regional que tinha defendido a política alemã de imigração foi morto com um tiro na varanda de sua casa. Então, em outubro, houve o ataque à sinagoga em Halle, que deixou dois mortos. A comunidade judaica da Alemanha, que tem aproximadamente 200 mil membros, está nervosa. “É inevitável se perguntar: Será que isso poderia acontecer novamente?”

Entender que sim, isso pode acontecer novamente, é fundamental para evitar esses crimes, afirmou Knigge. O ressurgimento da ideologia pré-fascista atualmente o preocupa. As pessoas anseiam por uma identidade nacional forte, ele ressaltou, e a velha receita alemã ocidental de atrelá-la à humildade - “se orgulhar de não se orgulhar” - não satisfez essa necessidade. “Precisamos tornar as lições do Holocausto a respeito dos direitos humanos e proteção de minorias relevantes para todas as minorias”, afirmou Knigge.

Agora, 30 anos depois da queda do comunismo, a Alemanha tem outra oportunidade de tentar. Ibrahim Kodaimi, 52 anos, afirmou que nunca se esquecerá dos rostos sorridentes e da comida quente que deram as boas-vindas à sua família três anos atrás, depois de sua perigosa jornada vindo da Síria.

Mas sua filha de 20 anos, Nahida, afirmou que se sentiu excluída por usar véu para cobrir a cabeça. E seu filho de 18 anos, Omar, disse que tentou fazer amigos alemães na escola, mas só encontrou indiferença. Ele afirmou que passa a maior parte do tempo com outros imigrantes durante os intervalos.

Ainda assim, Omar está determinado a fazer a Alemanha aceitá-lo. Um dos momentos de que mais se orgulha, afirmou ele, foi quando, após ouvi-lo falar, um alemão lhe perguntou se ele tinha nascido na Alemanha. Adaptando uma frase que Merkel usou quando as ondas de imigração chegaram à Alemanha, ele afirmou: “Ich schaffe das” - “Eu consigo”. John Eligon e Christopher F. Schuetze colaboraram com a reportagem./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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