Projeto arqueológico Caverna Callao
Projeto arqueológico Caverna Callao

Antiga espécie humana é descoberta em caverna filipina

Arqueólogos descobriram os ossos do Homo luzonensis, expandindo a árvore genealógica humana

Carl Zimmer, The New York Times

23 de abril de 2019 | 06h00

Em uma caverna nas Filipinas, cientistas descobriram um novo ramo da árvore genealógica humana. Há pelo menos 50 mil anos, uma espécie humana extinta viveu na região que é atualmente a ilha de Luzon, informaram os pesquisadores no início do mês. É possível que o Homo luzonensis, como a nova espécie vem sendo chamada, tivesse menos de um metro de altura.

A descoberta traz nova complexidade para a história da evolução humana. Diferentemente do que se pensava, tal processo não foi uma simples marcha adiante. “Quanto mais as pessoas tiram fósseis da terra, mais percebemos que a variedade presente no passado vai muito além daquilo que observamos na humanidade hoje", disse o paleo-antropólogo Matthew Tocheri, da Universidade Lakehead, no Canadá, que não esteve envolvido na nova descoberta.

No início da década de 2000, o estudante de pós-graduação Armand Salvador Mijares, da Universidade das Filipinas, estava em uma escavação na Caverna Callao, em Luzon, buscando traços dos primeiros agricultores das Filipinas. Logo, ele decidiu cavar um pouco mais fundo. Pesquisadores na ilha de Flores, na Indonésia, tinham descoberto os ossos de uma espécie semelhante à humana de aproximadamente 60 mil anos atrás. Os cientistas a batizaram de Homo floresiensis.

Algumas de suas características eram semelhantes às nossas, mas o Homo floresiensis era mais parecido com outros hominis (termo empregado pelos cientistas para se referir aos humanos modernos e outras espécies da nossa linhagem). Criavam ferramentas de pedra, mas os adultos tinham apenas cerca de um metro de altura, e seus cérebros eram pequenos.

Em um processo iniciado a cerca de 2,5 milhões de anos atrás, uma linhagem de hominis da África, onde foram encontrados todos os fósseis mais antigos de homini, começou a desenvolver novos traços - um rosto mais plano, cérebros maiores e corpo mais alto, entre outras características. Esses hominis foram os primeiros membros conhecidos do nosso gênero, Homo.

É somente mais tarde que os primeiros fósseis de Homo aparecem fora da África. Uma das espécies mais comuns era o Homo erectus, que se espalhou para o Leste e o Sudeste da Ásia. É possível que os mais recentes fósseis de Homo erectus sejam de apenas 143 mil anos atrás. Uma hipótese diz que o Homo floresiensis teria evoluído a partir do Homo erectus. Será que os hominis poderiam ter chegado a Luzon e a Flores? “Isso me inspirou a voltar e cavar mais fundo", disse Mijares, atualmente professor da Universidade das Filipinas.

Em 2007, ele voltou à Caverna Callao. Enquanto escavava, sua equipe encontrou uma camada de ossos. Posteriormente, quando o arqueólogo Philip Piper, da Universidade das Filipinas, classificou as descobertas, ele reparou em uma que se parecia com um pequeno osso do pé humano.

Em 2011, em outra escavação, Mijares encontrou mais fósseis semelhantes a restos humanos, como dentes, partes de um fêmur e ossos da mão. Em 2015, sua equipe encontrou outros dois molares, que seriam de pelo menos 50 mil anos atrás. Os fósseis são provenientes de três indivíduos. Mijares e seu colega concluíram que as evidências apontavam para a existência de uma nova espécie de Homo.

O Homo erectus pode ter sido o ancestral dos hominis encontrados em Flores e Luzon - talvez tenham sido levados às ilhas por tempestades. É até possível que o Homo luzonensis seja descendente de hominis que chegaram a Luzon centenas de milhares de anos antes.

No ano passado, outra equipe de cientistas escavando outra caverna em Luzon encontrou os ossos de um rinoceronte abatido. Os pesquisadores também descobriram ferramentas de pedra de 700 mil anos atrás. Os dois estudos indicam que havia hominis em Luzon há 700 mil anos e há 50 mil anos.

“Acho provável que sejam da mesma linhagem", disse o arqueólogo Gert van den Bergh, da Austrália, e um dos autores do estudo do ano passado. Ele especulou que o Homo erectus teria encolhido ao se adaptar à vida em Luzon. Tocheri discorda. Para ele, os pequenos hominis das ilhas tiveram ancestrais pequenos - possivelmente hominis menores da África que se expandiram para a Ásia e foram parar em Flores e Luzon. “Se estamos encontrando traços deles aqui, deve haver um rastro deles pelo continente, remontando até a África", disse Tocheri. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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