Chet Strange para The New York Times
Chet Strange para The New York Times

Antigo abrigo nuclear é convertido em residência de luxo

Originalmente, local abrigava mísseis Atlas-F, equipados com ogivas nucleares centenas de vezes mais poderosas do que a bomba usada em Nagasaki

Julie Turkewitz, The New York Times

06 de outubro de 2019 | 06h11

61 METROS ABAIXO DA TERRA, KANSAS - Em sua apresentação aos possíveis compradores, Larry Hall enaltece o pé-direito alto de seus apartamentos e as espaçosas salas de estar. Depois, vêm a piscina, as saunas e as salas de cinema. Mas o que realmente diferencia seu empreendimento dos demais é a capacidade de fazer com que seus habitantes sobrevivam ao apocalipse. Hall converteu um antigo abrigo de mísseis nucleares em um luxuoso apartamento instalado 15 andares abaixo da superfície terrestre. Ele é o líder entre um novo grupo de empreendedores imobiliários: os capitalistas do fim do mundo.

Há gerações, os americanos têm se preparado para o colapso da sociedade. Construíram abrigos contra a radiação durante a Guerra Fria e porões repletos de provisões para se preparar para o bug do milênio. Nos anos mais recentes, porém, a prevenção personalizada de desastres se tornou um negócio multimilionário, alimentado por uma torrente de ameaças aparentemente infinita - da mudança climática ao terrorismo.

Construtores de abrigos consideram o interior dos Estados Unidos seu principal mercado. Durante a Guerra Fria, os militares gastaram bilhões de dólares construindo ogivas nucleares e escondendo-as em compartimentos subterrâneos por todo o país, frequentemente em Kansas, Nebraska, Oklahoma e Novo México. Esvaziados de suas bombas, os esconderijos estão agora à venda, e empreendedores civis os estão comprando e transformando em propriedades.

Os 12 apartamentos do Survival Condo (Condomínio da Sobrevivência, em tradução livre) de Hall custam a partir de US$ 1,3 milhão. Ele disse que, quando começou a oferecê-los, em 2011, todas as unidades eram vendidas em poucos meses. Para Hall, isso é uma vocação, e não apenas um negócio. “Estou salvando vidas”, afirmou ele.

Mas John Hoopes, professor de antropologia da Universidade do Kansas, acusa os investidores do fim do mundo de vender uma “fantasia hipermasculina” na qual o perigo estaria próximo e poucos teriam a oportunidade de salvar a si mesmos e suas famílias - se estiverem preparados. “Medo vende mais ainda do que sexo”.

Kiki Bandilla, 52 anos, uma corretora de seguros de saúde do Colorado, se distanciou das pessoas “ansiosas”, para quem “o céu está caindo” o tempo todo. Ela descreveu sua adesão a uma comunidade de sobrevivência chamada Fortitude Ranch como uma apólice de seguro. “Não gosto de depender de nada”, afirmou ela.

O Survival Condo cobra taxas de condomínio mensais de US$ 2,6 mil. Os visitantes entram por uma cúpula de concreto. Abaixo ficam os apartamentos, com telas digitais no lugar das janelas, a piscina, um parque para cachorros, um arsenal e os salões de armazenamento de comida. Hall equipou o edifício com cinco filtros de ar e cavou um poço até um aquífero local. Instalou geradores a diesel, uma turbina eólica e um painel de baterias solares, tudo para a reserva de energia.

Originalmente, o local abrigava mísseis Atlas-F, equipados com ogivas nucleares centenas de vezes mais poderosas do que a bomba usada em Nagasaki. O compartimento, cuja construção custou milhões de dólares aos militares, foi vendido em 1967 por US$ 3.030 e passou por vários donos antes de chegar às mãos de Hall, que gastou US$ 20 milhões para reformá-lo.

Hall comprou um segundo compartimento no Kansas. A construção do novo bunker, três vezes maior do que o primeiro, ocupa agora a maior parte de seu tempo. Há tanto a ser feito, disse ele, e o fim pode chegar a qualquer momento. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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