Charlie Gates para The New York Times
Charlie Gates para The New York Times

Antonio Banderas interpreta Pablo Picasso em série para a TV

Segundo o ator, o papel do grande ícone da pintura é um sonho realizado

Taffy Brodesser-Akner, The New York Times

25 Abril 2018 | 10h00

ETYEK, HUNGRIA - Quando Antonio Banderas raspou as sobrancelhas e o cabelo para interpretar o papel de Pablo Picasso - seu herói desde jovenzinho - já havia sido convidado para o papel duas vezes. “Isso mesmo”, ele disse. “Duas vezes antes”.

Banderas viajaria no dia seguinte para Malta, onde trabalharia na última parte de “Genius”, para a NatGeo, uma série centrada em Picasso. A segunda temporada estreou no dia 24 de abril.

O Picasso que ele interpreta hoje teria 67 anos. Quando estava filmando, ele assumia a postura de um senhor de 67 anos. Mas quando não personificava o artista, ele era Antonio Banderas, um ponto de exclamação humano, o rosto, uma orquestra de expressões.

Banderas já era um astro na Espanha e havia inspirado Pedro Almodóvar em sete filmes. Premiado por sua atuação de “Os reis do mambo”, em 1992, seu desempenho foi tão apaixonado que poucos notaram que seu inglês, na época, não passava de uma imitação fonética.

Já havia conquistado o público americano com seu retrato íntimo do amante de Tom Hanks em “Filadélfia”. Havia feito que Robert Rodriguez, outro diretor apaixonado por ele, fosse aclamado pelas plateias dos Estados Unidos com os filmes “A balada do pistoleiro” e “Pequenos Espiões”. Além disso, abriu caminho nos corações das crianças como o sensual gato da franquia “Shrek”, o Gato de Botas. Dirigiu dois filmes. Participou de Evita e simulou um beijo de língua com Catherine Zeta-Jones em dois filmes sobre “Zorro”. Seduzira as plateias até uma indicação ao Tony pela película “Nine”. Ao envelhecer, foi recompensado com a chance de atuar (ou quase atuar) no papel de personagens históricos: Dalí, Mussolini e Pancho Villa.

E agora, iria interpretar o papel do herói de sua juventude e encher de orgulho Málaga - a cidade natal de ambos, dele e de Picasso, na Espanha. Quando era menino, sua mãe costumava parar na frente da casa do artista toda vez que passavam por ela e dizer: “Olha, Antonio”. Agora, na casa que ele possui em Málaga, pode ver a de Pablo de seu terraço.

No entanto, interpretar Picasso não será seu último papel. “Ah, não”, afirmou. “Eu acho que ainda não fiz o filme pelo qual serei lembrado”.

Banderas e Picasso começaram de maneiras muito semelhantes, mas é fácil confundir os detalhes do nascimento com os da vida do homem adulto. Por exemplo, seu trato com as mulheres. Sua amiga, a atriz Salma Hayek, disse que Banderas é um amigo tão dedicado que quando ele leu o seu artigo publicado pelo “New York Times” em que ela fala que foi assediada sexualmente pelo produtor cinematográfico Harvey Weinstein, Banderas foi um dos primeiros a ligar para ela.

No entanto, Picasso disse que “as mulheres são máquinas de sofrimento” e que, na sua opinião, elas eram “deusas ou capachos”.

“Genius: Picasso” trata da misoginia do artista assim como de sua arte. No primeiro episódio, uma mulher está em casa com o filho dele enquanto o pintor está aos abraços e beijos com outra amante, e as duas se atracam na sua frente quando ele está pintando “Guernica”.

Segundo Banderas, “o problema de Picasso, do meu ponto de vista... não acredito que ele maltratasse as mulheres, da maneira como nós entendemos hoje. O problema é que ele queria tudo, tudo, o tempo todo”.

Banderas costuma atirar-se a um projeto com o máximo da dedicação, mergulhando na pesquisa. Por exemplo, pergunta: “você sabia que o neto de Picasso ficava em uma rua perto da sua casa, na França, com um daqueles cartazes duplos que envolvem um homem, e que o avô não permitia que ele o visitasse nos últimos dias de sua vida? Pergunte para ele, vá lá”.

Aos 57 anos, os papéis ficaram melhores. “Têm mais peso, são mais complexos, mais profundos e eu tenho mais prazer em interpretá-los”, disse. “É quase como um pote, em que você não para de colocar coisas dentro. Antes, era quase um uniforme. Eles queriam o heroico, o épico, o cara”.

Talvez seja o fato de que a população hispânica está amadurecendo, ponderou. Um número maior de pessoas com uma formação maior, e uma presença real no cinema. “Agora é normal ver diretores mexicanos ganharem Oscar na Academia, atores espanhóis, atores de Porto Rico”.

Mas talvez seja ele também. Talvez seja porque alguma coisa acontece quando pequenas caricaturas se transformam em grandes personagens memoráveis. Ele assumiu riscos artísticos ao longo da carreira. Passou a infundir uma alma nos personagens de uma nota só.

Banderas, que mora na Inglaterra com a namorada, Nicole Kimpel, uma assessora de investimentos, viveu momentos difíceis - a mudança para a Inglaterra, o divórcio (em 2015) da atriz Melanie Griffith, e depois um ataque cardíaco, há cerca de um ano.

Ele ficou no hospital apenas um dia, mas enquanto se recuperava, descobriu que não conseguiria acabar com a tristeza. “De repente, você descobre lá no fundo que, em um segundo apenas, pode ter de dizer ‘adeus’ ”.

Mas a tristeza deu lugar a outra profunda descoberta: a inspiração. Ele continua aí, com tantas coisas para fazer ainda.

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