Heba Khamis / The New York Times
Heba Khamis / The New York Times

Ao lado das maravilhas do Egito, animais sofrem maus tratos 

Turistas descrevem cavalos caindo de fraqueza, camelos doentes e mulas magras.

Declan Walsh, The New York Times

16 de abril de 2019 | 18h54

CAIRO - Uma viagem às lendárias pirâmides de Gizé deveria ser um dos pontos mais altos das férias no Egito de Noémi Haszon. Mas minutos mais tarde, a turista húngara voltou para o ônibus turístico, abalada pela cena que testemunhara. No complexo das pirâmides, cavalos desnutridos esforçavam-se para puxar charretes carregadas de turistas subindo uma rampa íngreme, enquanto os condutores os chicoteavam para que andassem mais depressa. Alguns cavalos escorregavam  na pista de asfalto muito lisa. Outros tinham feridas abertas. Apesar do calor do verão, não havia água para eles. “Fiquei chocada”, comentou Noemi.

Há anos, a sensação de deslumbramento experimentada pelos visitantes nos fabulosos sítios antigos do Egito, como as pirâmides de Gizé ou no Vale dos Reis em Luxor, em geral é arruinada  por cenas de uma crueldade espantosa para com os animais que trabalham nestes lugares.

Em mensagens escandalizadas postadas no Facebook ou em e-mails para organizações egípcias protetoras dos animais, os turistas descrevem cavalos caindo de fraqueza, camelos doentes e mulas magras. Um mercado de camelos nos arredores do Cairo, onde os turistas pagam para tirar fotos, revela cenas de camelos sendo espancados e animais com o focinho coberto de sangue.

Os hospitais veterinários do Cairo oferecem tratamento a uma multidão constante de animais de trabalho doentes, desnutridos ou vítimas de maus tratos. Agora, a organização Povo para o Tratamento Ético dos Animais pede aos turistas que boicotem todos os animais de trabalho nos principais locais turísticos do Egito. Depois de solicitar inutilmente a ajuda do Ministério do Turismo do país, a associação divulgou imagens  de cavalos e camelos maltratados a fim de conseguir apoio internacional.

“Tais abusos não têm lugar no turismo moderno”, afirmou Ashley Fruno, funcionária da organização. Mas, como deveria ser um turismo ético em um país pobre como o Egito, é assunto de debate, mesmo entre as organizações protetoras dos animais. As corridas com os bichos constituem o sustento de milhares de famílias egípcias, e alguns grupos afirmam que é melhor tentar mudar o seu comportamento agressivo do que tirar-lhes o emprego.

Por outro lado, os proprietários insistem que tratam bem seus animais e afirmam que não deveriam ser multados pelos maus tratos de outros. Ahmed Kamel oferece passeios de charrete ao redor das pirâmides por cerca de US$ 9. “Certamente, alguns proprietários são maus. Eles trabalham  de manhã, depois à tarde ficam bebendo. Não ligam para nada”, disse, acariciando seu cavalo. "Eu preciso cuidar da minha família. Se  vocês nos expulsam daqui, o que iremos fazer?”.

No Brooke Hospital for Animals do bairro de Syeda Zainab do Cairo, o veterinário Mohammed Hammad abriu a porta de um estábulo para mostrar um cavalo magérrimo, com ossos saltando e uma enorme ferida na parte traseira. Em lugar de mandar embora os proprietários, o Brooke tenta convencê-los a usar um tratamento melhor com os seus animais, apelando para o bolso. Apontando para outro cavalo doente, Hammad explicou. “Eu disse ao proprietário que se ele sarar depressa, poderá voltar a trabalhar. Mas se nós não fizermos nada, ele morrerá e não valerá mais nada”.

O governo está construindo um novo centro para os visitantes nas pirâmides, a ser inaugurado em breve, com uma área separada para os passeios com cavalos e camelos. O local incluirá instalações para alimentar e dar água a cavalos e camelos, além de tratamento médico.

No Egito, está havendo uma recuperação do turismo, gravemente afetado pelos protestos da Primavera Árabe, em 2011. Mas é uma recuperação frágil. A violência dos militantes é a maior preocupação; entretanto, uma publicidade ruim por causa da crueldade com os animais poderá prejudicar o setor.

Na Hungria, Noémi Haszon lançou uma petição online para que o Egito não permita a crueldade no tratamento dos animais que trabalham. Em abril, cerca de 50 mil pessoas já haviam assinado o documento. “Esta área é o 'inferno na terra' para cavalos de tiro e camelos”, escreveu. “Este horror deve parar imediatamente”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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