Jim Huylebroek para Norwegian Refugee Council
Jim Huylebroek para Norwegian Refugee Council

Ao lado de seu papagaio, menino refugiado tenta dar início a uma nova vida

Família Shah enfrentou dificuldades quando precisou deixar o Paquistão e rumar para o Afeganistão

Mujib Mashal, The New York Times

09 Maio 2018 | 15h15

BESHUD, Afeganistão - O caminhão seguia o rumo entre passagens montanhosas, carregado até o limite com os pertences de uma vida de refugiados reunidos ao longo de 30 anos.

A família Shah foi obrigada a abandonar o santuário no Paquistão encontrado pelo patriarca durante a guerra anterior, contra os soviéticos. Agora eles estavam voltando ao Afeganistão, um país mergulhado numa guerra mais nova e mais longa que levou milhares a abandonar o país.

Eles se atinham a tudo que estava ao alcance: latas de roupas, trouxas de cobertores, panelas e utensílios, 11 camas, 40 galinhas, dois pombos e um bode. As mulheres e crianças, quase duas dúzias delas, viajavam no alto do caminhão ou enfiadas entre a bagagem, no fundo.

Entre elas estava um menino de 6 anos chamado Bilal, que trazia consigo uma gaiola. Dentro estava seu papagaio, Toti, o único amigo que ele conhecia num país onde nunca havia estado.

A grande família construída por Dawran Shah, avô de Bilal, estava entre os quase 100 mil afegãos clandestinos expulsos do Paquistão no ano passado. Muitos foram repatriados à força, mas outros, como os Shahs, estavam cansados de ser alvo dos abusos da polícia.

Na província de Nangarhar, a região acidentada no leste do Afeganistão onde eles se assentaram, uma em cada três pessoas foi obrigada a abandonar o lar por causa de combates ou é refugiada de volta ao país, de acordo com a Organização Internacional da Imigração.

Quando eles descarregaram a bagagem, as mulheres e crianças choraram. “Lá, nossa casa tinha uma varanda, três quartos, e também um quarto de hóspedes", disse Bilal a respeito do Paquistão. “Aqui temos dois quartos, sem portas. E temos duas barracas.”

Bilal tinha apenas 4 anos quando encontrou Toti, num país diferente, mais verde, onde a vida parecia abundante.

Bilal estava acompanhando o pai, Jamshed, no trabalho nos campos quando os dois viram o filhote de papagaio empoleirado num galho.

“Meu pai balançou o galho. Toti caiu, e joguei meu cachecol sobre ele", contou Bilal.

Bilal e Toti eram inseparáveis: viviam juntos em casa e nos campos, e até quando Bilal saía para brincar com outras crianças. “Eu tinha 10 amigos", disse ele. “Nós fazíamos casas.”

As únicas vezes em que Bilal tirava Toti do ombro era para alimentar o papagaio com grãos e amendoins, ou para colocar a gaiola sob sua cama à noite.

Para Bilal, a nova vida não foi fácil. O pai logo entrou para o exército e foi enviado para um posto distante. A avó morreu de diabetes. Ele não tinha muitos amigos com quem brincar. “Fiquei assustado aqui", disse Bilal.

Mas Bilal tinha Toti. Certa noite, há cerca de dois meses, Bilal colocou Toti na gaiola. Quando acordou de manhã, Toti estava no fundo da gaiola, imóvel. O avô de Bilal disse que a ave morreu por causa de uma mudança no clima.

Bilal perdeu o amigo que tornava suportáveis seus dias. Mas, com o tempo, veio algum consolo. Ali perto, Asadullah Safi dava aulas em sua casa.

Um grupo humanitário estava financiando a escola improvisada. Bilal começou a frequentar as aulas, acompanhando Yasir, um parente. Ele não tinha documentos autênticos e, por isso, não podia se matricular como aluno.

Diferentemente do restante das 30 crianças, ele não tinha livros, nem mochila. Mas, quando um aluno abandonou o curso, Safi entregou a mochila e os livros dele a Bilal. Matriculado com o nome de outra pessoa, ele começou a aprender. O curso já chegou ao fim, mas as crianças ainda vêm à casa do professor, convertida numa espécie de creche. Uma vez por mês, todos ganham suco e biscoitos.

E Safi os leva para o jardim. Ali, com uma vaca, um bode e alguns pintinhos correndo por aí, os meninos começaram uma partida de futebol, chutando uma bola de plástico.

Numa rachadura na parede do lado de fora do seu quarto, Bilal guarda algumas penas de Toti, uma lembrança de seu amiguinho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.