Gioncarlo Valentine para The New York Times
Gioncarlo Valentine para The New York Times

Aos 40, casa noturna de NY esbanja juventude

O Sugar Hill abriu suas portas em 1979, e ainda hoje atrai público jovem interessado em sua história

Arielle Gordon, The New York Times

18 de abril de 2019 | 06h00

No início de março, o coletivo de techno e house music Sublimate postou nas redes sociais um lista de seus mais recentes eventos noturnos, com DJs de Detroit e Londres, em um local histórico do Brooklyn cujo nome não foi mencionado. Entretanto, para alguns leais habitués da noite de Nova York, o lugar era óbvio: Sugar Hill Restaurant & Supper Club.

Somente no ano passado, o Sugar Hill hospedou duas gravações da Boiler Room - uma plataforma de streaming que transmite sets de DJs e festas underground. E embora o proprietário do clube, Eddie Freeman, que abriu o local em 1979, desejasse que os produtores do evento não mantivessem as luzes tão baixas, sempre compartilhou seu amor pela vida noturna.

Freeman, nascido nos arredores de Kinston, na Carolina do Norte, disse que foi para Nova York em 1957, com US$ 40 no bolso e uma caixa de galinha frita, deixando para trás uma comunidade rural segregada. Os negócios dos brancos ocupavam um lado da Rua Principal em Kinston. Do outro lado, os restaurantes e clubes noturnos dos negros prosperavam em um setor chamado Sugar Hill.

Ele encontrou trabalho em Nova York, de início em fábricas, e depois nos Correios. Com o dinheiro de sua aposentadoria, ele adquiriu um prédio e abriu uma discoteca. Saudoso dos clubes da sua terra, ele a batizou Sugar Hill.

Agora com 78 anos, Freeman compartilha das responsabilidades do dia a dia do clube com seus dois filhos, Aaron e Akesha, que herdaram seu entusiasmo pelo espaço. O Sugar Hill "era o seu sonho", contou Aaron falando do pai.

Inicialmente, o DJ "só tocava disco", segundo Freeman. Mas ao longo dos anos, Sugar Hill diversificou seu programa e passou a tocar astros do R&B como Harold Melvin e o pioneiro do Blue Notes e da house music, Colonel Abrams. Em meados dos anos 1980, o clube se tornou suficientemente lucrativo a ponto de Freeman ter de dedicar-se a ele em tempo integral.

À medida que foi crescendo, Sugar Hill ganhou fama de local de encontro da comunidade e funcionou como ponto de reunião de personalidades políticas nacionais, como Jesse Jackson e Hillary Clinton.

Para Freeman, o envolvimento cívico foi importante desde o começo. "Ele queria participar das reuniões", disse Akesha. "Queria fazer parte da comunidade". Freeman e os filhos continuam mantendo o Sugar Hill como empreendimento familiar. A certa altura, ele contou, ofereceram-lhe US$ 15 milhões pelo imóvel, mas ele recusou. 

Atualmente, depois de 40 anos, Sugar Hill continua uma instituição, embora o bairro esteja testemunhando um rápido aburguesamento. "Quando abrimos as portas, foi o sucesso", disse Aaron. "Se você visse um branco nas proximidades, levaria um choque". A chegada de novos habitantes provocou uma mudança inconfundível na clientela do clube. "Agora, você vê uma fila que dá a volta da quadra, com até 700 brancos do lado de fora esperando para entrar no Sugar Hill".

Freeman vê com humor estas novas multidões - jovens de outros lugares que lotam o clube nos fins de semana para dançar. "Há noites em que o alugamos para hipsters (uma subcultura da classe média americana)". Akesha disse que para alguns jovens clientes, a atração do Sugar Hill está em sua história. "Eles gostam da sua história. Eles o consideram 'o Brooklyn original'".

Na festa do Sublimate, em uma noite de sexta-feira, o pátio do Sugar Hill estava lotado de jovens usando gorros adaptados e fumando cigarros eletrônicos Juul (que elevam o teor da nicotina) - hipsters, segundo a definição de Freeman. A recepção de um funeral havia sido realizada no mesmo espaço horas antes.

Embora Freeman se mantenha distante deste negócio ("fumaça demais", segundo ele), o espírito de Sugar Hill era palpável na pista de dança lotada. Em algumas trilhas techno, o DJ tocou um remix de "Keeep Your Body Workin", de Kleeer, um sucesso disco que esteve nas listas dos mais vendidos em 1979, quando Sugar Hill foi inaugurado. Para Freeman, uma coisa permanece coerente em todas as mudanças da clientela. "É uma música que dá vontade de dançar". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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