Kate Owen para The New York Times
Kate Owen para The New York Times

Aos 90, mestre da Pop Art está de olho no futuro

A vida e o trabalho do artista Claes Oldenburg estão reunidos em um vasto arquivo de notas e desenhos recém-adquiridos pelo Getty Research Institute, em Los Angeles

Hilarie M. Sheets, The New York Times

30 de junho de 2019 | 06h00

Quando Claes Oldenburg, mundialmente conhecido como o pai da Pop Art, ouviu dizer que um visitante de seu estúdio em Nova York queria ver os desenhos de Neubern, país fictício que ele inventou quando criança, brincou: "Até que enfim!"

"Deixei de esperar por isso há muito tempo", disse o artista, atualmente com 90 anos, mais conhecido por suas esculturas de objetos e comidas comuns, como a cereja gigante equilibrada sobre uma colher no jardim das esculturas do Walker Art Center, em Minnesota, enquanto folheava velhos cadernos que começara aos 8 anos. "Acho que eu era muito bom desde o começo".

O mundo perfeito de Neubern, pressagiando a aguda sensibilidade do futuro artista pelos ambientes feitos pelo homem e pela cultura popular, faz parte do vasto arquivo de Oldenburg, recentemente adquirido pelo Getty Research Institute, em Los Angeles, juntamente com os documentos de Coosje van Bruggen, a segunda esposa do artista e sua colaboradora de 1976 até sua morte, em 2009. O arquivo inclui mais de 2 mil desenhos e colagens, 450 diários e cadernos e uma quantidade de fotografias e trechos de filmes.

Acompanhado pela filha, Maartje Oldenburg, e por Glenn Phillips, curador do Getty Research Institute, o artista nascido na Suécia nos guiou para uma visita aos artefatos instalados no edifício industrial de cinco andares em Soho, onde vive e trabalha desde 1971.

Ele guarda um conjunto de diários escritos à mão desde 1956. Eles captam a inspiração que Oldenburg encontrava na vida de rua, o que ele comia e os inúmeros artistas - como Jan Dine, Red Grooms e Lucas Samaras - com os quais colaborou. Também guardava diários intitulados "Notes", repletos de ideias e escritos em uma máquina de 1926. "Essencialmente, minha arte é cômica - uma comédia do absurdo séria... Irreverente... erótica... moralista", diz um artigo do início dos anos 1960. "Os desenhos são para mim o campo de batalha do meu ser", escreveu nos anos 1970.

Durante a visita, dava risadinhas enquanto olhava os desenhos de nuvens de batatas assadas e o projeto de um túnel com a forma de um nariz. "Havia me esquecido disso completamente", comentou, observando o esboço de um ponto de interrogação de cabeça para baixo em uma prancha de skate.

"Nunca vi um artista gravar seu processo de pensamento como Claes fazia", observou Phillips. "Aqui, você tem todas essas coisas paralelas lado a lado, para que um estudioso possa quem sabe encontrar a origem de cada ideia de Claes, e depois acompanhá-la até a obra acabada".

Maartje contou que seu pai costumava passar muito tempo "arrumando, arquivando, editando, descartando". "Talvez suas ideias criativas venham daí, por meio deste processo", afirmou.

Atualmente, há uma iniciativa para devolver seu primeiro grande monumento, "Batom (Ascendendo) sobre Lagartas de um Tanque Militar", concluído em 1969, ao centro do campus da Universidade Yale. Os estudantes ajudaram Oldenbeurg a montar a escultura, um gigantesco batom de tecido inflável instalado sobre uma base de compensado que parece um tanque de guerra. A obra tornou-se o pódio sobre o qual os estudantes discursaram contra a Guerra do Vietnã e em apoio aos direitos dos homossexuais. A universidade adotou a peça, mas em 1974 ela foi transferida para outro lugar.

"Há humor em tudo o que faço", escreveu Oldenburg em suas "Notes" de 1969, "mas ele pode também transformar-se em algo muito sério".

Observando como o artista iluminou inteiramente a visita à casa, a gente se pergunta sobre o custo emocional de toda esta obra que está partindo para uma nova sede. "Estou em uma fase em que posso aceitar este tipo de coisa", afirmou.

O arquivo foi adquirido por um preço abaixo do valor justo de mercado, disse Phillips, que não quis revelar o preço. A escultura "Clothespin Ten Foot" de Oldenburg, de 1974, foi vendida por mais de US$ 3,6 milhões em leilão em 2015. 

"Se analisarmos quase todos os movimentos artísticos dos Estados Unidos (do pós-guerra), perceberemos que Claes Oldenburg os intersecta - com seu trabalho, Pop, minimalista, pós-minimalista, arte conceitual, instalação como arte, pós-modernismo", afirmou.

A filha do artista disse que o pai estava preocupado com o que aconteceria com todo este material.

"Espero que isso o libere para passar o tempo que lhe resta fazendo novas coisas que lhe interessam".

Como ele está mais frágil e perdeu a mobilidade (agora anda de bengala), Oldenburg tira fotografias das janelas de sua casa.

"Estou atirando em todas as quatro direções enquanto o mundo vai passando", disse, animado por mostrar cópias em grande escala que ele espera exibir. A imagem de um guindaste amarelo vivo e outra de um comboio de caminhões de cimento flutuantes se unem ao fascínio do artista pela rua e por objetos mecânicos.

Ele pegou um print com um anúncio de uma linda mulher caminhando que cobria a metade de um edifício. "Parece que ela tem um quilômetro e meio de altura", disse feliz. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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