Tom Jamieson para The New York Times
Tom Jamieson para The New York Times

Aos 92, escritora transgênero reflete sobre suas diferentes vidas

Nascida James Humphrey, a britânica Jan Morris teve sua última obra, 'In My Mind's Eye', adaptada para a TV pela BBC

Sarah Lyall, The New York Times

19 de maio de 2019 | 06h00

CRICCIETH, PAÍS DE GALES - Todo mundo aqui aparentemente conhece Jan Morris. Jan tem 92 anos e caminha com uma bengala. Ela viveu nesse lado do norte do País de Gales durante a maior parte de sua vida. Na Grã-Bretanha, ela é uma respeitada ensaísta, historiadora, jornalista e cronista, além de autora de mais de 40 livros, mas foi somente quando sua última obra, In My Mind’s Eye (Pelos Olhos da Minha Mente, em tradução livre), foi adaptada para a rádio BBC sob a forma de um seriado, no fim do ano passado, que muitos de seus vizinhos se deram conta de que ela era uma celebridade.

Jan Morris viveu muitas vidas, e é impossível separar quem é agora de quem ela era antes: James Humphrey Morris, nascido em 1926 em Somerset, Inglaterra, e cuja formação e carreira foram típicas dos ingleses da época. Jovem ainda, ganhou uma bolsa de estudos na Christ Church, em Oxford, para em troca cantar no coral da universidade; nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, serviu no 9.º Batalhão dos Lanceiros Reais da Rainha; e aos 23 casou-se com Elizabeth Tuckniss. Tiveram cinco filhos (um deles morreu ainda criança). Jan Morris trabalhou como jornalista para “The Times” de Londres.

Em 1953, seu relato exclusivo da histórica conquista do Monte Everest por Sir Edmund Hillary e pelo sherpa Tenzing Norgay tornou Morris famoso. A fama o escolheria ainda em 1972 quando, depois de sentir-se por toda uma vida preso a um corpo que parecia pertencer a outra pessoa, ele se submeteu a uma cirurgia para mudança de sexo. Poucas pessoas na época compreendiam o que acarretava esta transição.

“Eu tinha 3 anos, talvez 4, quando me dei conta de que havia nascido no corpo errado, e que na realidade deveria ser uma menina”, escreveu posteriormente o autor em Conandrum (Enigma), agora conhecido como Jan, sobre sua luta para conciliar corpo e espírito. A principal constante em sua vida foi Elizabeth, inicialmente sua esposa, e depois ex-esposa - o casamento de pessoas do mesmo sexo era ilegal na Grã-Bretanha, em 1972 -, e hoje sua cônjuge perante a lei, sua companheira mais próxima há mais de 70 anos. O casal se estabeleceu em Gales; Elizabeth ficava na maior parte do tempo em casa, e Morris viajava e escrevia.

Hoje, Jan Morris olha retrospectivamente sua vida do alto de seus 93 anos e lembra da expedição ao Everest. A cobertura do feito exigiu que o participante estivesse integrado na equipe do Everest, e escalasse os 4.500 metros até o campo base. “Isso mudou totalmente minha vida”, disse ela. “Hoje sou a única sobrevivente da expedição, e tenho saudade de todos eles”.

Jan agora vive no território acabrunhante do que ela chama “a idade da extrema velhice”. Ela acha que a longevidade a tornou mais interessante, mas não tão divertida quando é demais. Não consegue mais viajar muito, e Elizabeth sofre de demência.

In My Mind’s Eye - uma coletânea de ensaios, um por dia ao longo de meses - revela que sua escrita continua elegante como sempre. Os ensaios falam da beleza dos arcos-íris galeses, a sandice da política contemporânea e a banalidade transcendente da vida familiar. Jan escreve também sobre a importância da bondade para com o outro e para com a natureza.

Ela viveu o mesmo número de anos como homem e como mulher, e afirma que a transição feita há muito tempo parece menos relevante agora. Em Conandrum, ela diz: “Para mim, o gênero não é algo físico, mas totalmente sem substância. É a alma, talvez, é o talento, é o gosto, é o ambiente, é como a pessoa sente, é luz e sombra, é música interior, é a primavera em nossos passos, um troca de olhares, é vida e amor, mais verdadeiros do que qualquer combinação de órgãos genitais, ovários e hormônios”.

Ela trabalha intensamente em outro livro na forma de diário. Já escreveu uma coletânea de ensaios, destinado à publicação póstuma. “É um belo livro, mas não sei por que decidi que este particularmente seria o meu último”, afirmou. “Todos acham que é porque tenho uma revelação chamejante. Desejaria que fosse, mas não tenho”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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