Jim Huylebroek / The New York Times
Jim Huylebroek / The New York Times
Rod Nordland, The New York Times

12 de maio de 2019 | 06h00

MAZAR-I-SHARIF, AFEGANISTÃO - Um menino de aproximadamente 8 anos gritava: “Vai, John Cena, vai com tudo, rapaz, acabe com ele, quero sentir toda a sua dor!”. O John Cena em questão não era o lutador profissional americano, e sim um cachorro que estava com a cabeça presa nas mandíbulas de um rival em uma luta sangrenta, uma das 13 que seriam realizadas naquele dia de março em um estádio como parte do Nowruz, as festividades do ano persa. John Cena se libertou e investiu com tudo contra o adversário, um cachorro chamado Alemão, até que o juiz declarou um deles vencedor e seus donos os separaram.

Diferentemente do que ocorre na maioria dos países, essas brigas eram organizadas abertamente. São realizadas em uma arena pública externa no centro de Mazar-i-Sharif, cidade situada no norte do Afeganistão; ingressos eram vendidos por 50 afeganis cada - menos de um dólar. Milhares compareceram.

Esportes violentos de diferentes tipos são promovidos no Afeganistão, sem qualquer fiscalização, apesar da oposição dos mulás, que denunciam a prática como pecaminosa, e as crescentes críticas de uma geração mais jovem e letrada para quem tais práticas são coisa de mau gosto, típicas de senhores da guerra e seus seguidores armados.

Os afegãos parecem interessados em brigas envolvendo animais de todos os tipos: cães, galos, camelos e canários. Ainda que tecnicamente as brigas de cães e aves sejam ilegais, a multa é de US$ 150 - uma fração das somas apostadas. Os cavalos usados nas partidas de buzkashi, ainda mais populares, não chegam a lutar de fato, mas as lesões são comuns com os cavalos mordendo e escoiceando, enquanto os cavaleiros batem com o chicote neles e uns nos outros, em um esporte que parece uma versão particularmente violenta do pólo.

O estádio atraiu donos de cães de todo o Afeganistão, com prêmios que variavam entre US$ 65 e mais de  US$ 20 mil. Normalmente, os donos comparecem com uma quantia predefinida a ser paga pelo perdedor ao ganhador. Apostas paralelas, muitas vezes de quantias expressivas, são feitas pelos espectadores. Vendedores circulavam com bandejas de doces equilibradas sobre a cabeça.

As lutas terminam quando os juízes declaram que um dos cães está apresentando comportamento submisso; raramente há lutas até a morte, em parte porque os cães vencedores são valiosos demais para que seus donos permitam que fiquem demasiadamente feridos. 

Uma briga teve início entre dois homens. Seus cães tinham acabado de lutar ente si e os juízes declararam a vitória de Abelha, um cachorro cor de caramelo, que enfrentou Leopardo, um cachorro preto. Seu dono, Akbar, tinha se recusado a pagar, e o público o provocava aos cantos de “Akbar, o perdedor”. Os dois trocaram socos. Seguiu-se uma briga generalizada. “Os cães não são os únicos animais aqui", disse um espectador. Ele não quis se identificar, mas disse que era estudante universitário. Foi a primeira e última vez que veio a uma briga de cães.

Abelha mancava bastante. Seu dono, Javed Masjidi, de 33 anos, disse que o animal adora brigar e é bem tratado, comendo mais proteína que o próprio Masjidi. O mulá Abdul Basir Bahrawi disse haver pouca dúvida de que o Islã proíbe jogos que provoquem ferimentos ou mortes de animais. Mas ele indagou se esportes como o buzkashi não seriam tão ruins quanto as lutas entre animais? “Depois de 40 anos de guerra, há muita coisa arruinada aqui", respondeu./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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