Jenna Schoenefeld / The New York Times
Jenna Schoenefeld / The New York Times

Aplicativo promete melhorar saúde de pessoas com ansiedade e depressão

Autoridades estão preocupadas com os perigos que plataformas desse tipo representam para a privacidade dos usuários

Benedict Carey, The New York Times

06 de julho de 2019 | 06h00

No fim do ano passado, várias dezenas de pessoas que estavam lidando com pensamentos suicidas e emoções intensas abriram as portas de suas vidas a uma empresa do Vale do Silício chamada Mindstrong. O empreendimento prometia algo que nenhum remédio ou terapia convencional pode oferecer: um sistema de alerta precoce que avisa o usuário quando uma crise emocional parece iminente - um “alarme de incêndio” pessoal e digital.

Nos doze meses mais recentes, autoridades de saúde mental da Califórnia se reuniram com a Mindstrong e outra empresa, 7 Cups, para testar aplicativos de smartphone para pessoas que recebem atendimento por meio do sistema público de saúde mental do estado. Os usuários do aplicativo, cuja maioria foi diagnosticada com transtorno de personalidade borderline, estavam entre os primeiros a participar dos testes. Eles permitiram que a Mindstrong instalasse digitalmente um teclado alternativo nos seus smartphones, monitorando a evolução da sua atividade na tela.

“As pessoas com transtorno de personalidade borderline têm muita dificuldade em identificar quando o estresse fica muito alto", disse Lynn McFarr, diretora da clínica de terapia cognitiva e dialético-behaviorista do Centro Médico Harbor, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “Se pudermos mostrar a eles, usando essa linguagem de feedback biológico, que os sinais extrapolaram a escala ontem, depois de um confronto com um colega de trabalho, por exemplo, essas pessoas poderiam compreender tal dinâmica emocional e se preparar para desarmar a crise com as habilidades que aprenderam”.

Para a maioria das pessoas, o uso diário do celular costuma ser relativamente estável. A partir dos dados coletados ao longo de uma semana, os algoritmos da Mindstrong são capazes de identificar a atividade normal de uma pessoa por meio de uma série de indicadores, incluindo a frequência de uso do celular e a rapidez com que a pessoa digita. Se várias medidas começarem a se desviar da média, a Mindstrong envia uma mensagem ao usuário. “Interpretamos esse funcionamento como o de um alarme de incêndio", comparou o Thomas R. Insel, psiquiatra e neurocientista que é um dos cofundadores da Mindstrong. “Queremos que esse alarme seja disparado quando há um incêndio, e não quando há apenas fumaça”.

O aplicativo inclui também uma função diário: um cartão digital que os usuários preenchem todos os dias, anotando os acontecimentos, o estresse no trabalho, seu humor e a qualidade do seu sono, entre outras coisas. “Gosto do cartão diário", avaliou Skyy Brewer, de 30 anos, barbeira que usa a função desde dezembro para administrar os sintomas da ansiedade e da depressão. “Na terapia, podemos repassar os cartões da semana e separar os dias bons dos ruins, e tentar entender o que afetou nosso humor naquele momento”.

A outra empresa, 7 Cups, é uma rede digital de saúde mental: os clientes em apuros podem conversar via mensagem de texto com um “ouvinte” treinado, que avalia a gravidade do problema e pode colocar a pessoa em contato com um terapeuta da 7 Cups se necessário. A empresa tem 340 mil ouvintes inscritos em 189 países, oferece apoio em 140 idiomas e alcança 40 milhões de pessoas.

Por enquanto, os aplicativos encontraram alguns desafios. Das poucas dezenas de pessoas na Califórnia que tinham instalado os teclados da Mindstrong, cerca de metade parou de usar a função. Alguns usuários decidiram que o recurso do diário é interessante, mas pouco além dele. As autoridades também estão preocupadas com os perigos que aplicativos desse tipo representam para a privacidade dos usuários. “Se estamos animados com o potencial dos dados, deveríamos estar igualmente preocupados com os riscos, que parecem estar evoluindo muito mais rápido do que os benefícios científicos", avaliou John Torous, diretor da divisão de psiquiatria digital do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston.“As empresas podem garantir que não compartilharão os dados dos usuários, mas, se forem vendidas, os dados vão junto".

Os desenvolvedores de aplicativos e o Big Data podem vir a transformar o atendimento de saúde mental, mas terão de se ocupar do trabalho gradual de testar novos tratamentos. Insel reconheceu que o programa pode fracassar inicialmente. “O diferencial da Califórnia é o fato de haver muita gente no sistema público", destacou. “No mínimo, vale a pena perguntar: ‘Por que isso não está funcionando? Por que os condados não estão trabalhando com esse incrível setor da tecnologia?’ Então poderemos fazer alguma coisa a respeito disso”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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