Jackie Molloy para The New York Times
Jackie Molloy para The New York Times

Após 30 anos, Playboy traz de volta as famosas 'Coelhinhas'

As garçonetes com rabinho de algodão estariam se adaptando à era do #MeToo?

Shawn McCreesh, The New York Times

26 Setembro 2018 | 10h15

Victoria Oliver se olhou no espelho e inclinou a cabeça. Ajeitou uma de suas orelhas de coelho. "Gosto delas um pouco tortas. É mais bacana", disse.

Victoria, 25, estava se preparando. Ela é uma das 54 jovens escolhidas entre centenas de outras para servir drinks em um novo Playboy Club de Nova York. Outra futura Coelhinha, Lauren McFall, esperava pacientemente que a costureira terminasse de ajustar o corpete em seu corpo.

As mulheres se sacudiram um pouco para ajeitar o novo uniforme de trabalho. A costureira sabia os lugares certos onde poderia soltar um pouco o traje de modo que o espartilho não se tornasse um instrumento de tortura. No busto de cetim do uniforme são colocados bolsos internos, caso seja preciso aumentar o volume com enchimento. Com a sensação de estar totalmente amarrada, Lauren, que não quis revelar sua idade, disse que se sentia um pouco a Mulher Maravilha.

Esta não é a primeira vez que a Playboy, que trabalha com a companhia hoteleira Merchants, tenta trazer de volta as Coelhinhas. O clube Playboy original, criado por Hugh Hefner em Chicago, em 1960, abriu filiais em mais de 30 cidades em todo o mundo. O último desses clubes foi fechado em 1988.

Tentativas anteriores de ressuscitá-lo foram feitas em outro clube de Nova York em que as mulheres trabalhavam ao lado de funcionários (Playmates) chamados “Coelhos”, de macacão e bonés de marinheiro de iate; um clube Playboy foi inaugurado no Palms Hotel de Las Vegas, em 2006, e fechou seis anos depois.

Mas como estarão se saindo as orelhas das coelhinhas em uma época mais conhecida pelo florescimento de milhares de chapeuzinhos de "gatinhas" de orelhas pontudas (um dos símbolos feministas) usados nas marchas de mulheres? E num momento em que candidatas em número recorde procuram (e conseguem) emprego nos Estados Unidos, uma mulher com um rabinho feito de um chumaço de algodão servindo bebidas será apenas um fantasma do passado sexista?

Em 1963, Gloria Steinem escreveu um livro em que contava tudo para a revista Show depois de ter trabalhado como Coelhinha no clube original em Nova York. Ela contou da longas horas de atividade, de homens brutos, das exigências absurdas do trabalho (como a inspeção médica) e salários baixos. Sua conclusão - "todas as mulheres são Coelhinhas" - provocou estardalhaço.

Uma das mulheres que se tornou uma Coelhinha enquanto Steinem trabalhava disfarçada no clube de Nova York foi Kathryn Leigh Scott, vinda de uma fazenda em Minnesota. Kathryn, que foi designada "a Coelhinha dos cigarros", posteriormente trabalhou em filmes e na televisão e publicou livros, como The Bunny Years, em que entrevistou mais de 200 ex-coelhinhas. "Elas se tornaram empresárias, cientistas, arquitetas, todo gênero de coisas", falou a respeito das antigas Coelhinhas.

Mas Steinem defende sua tese de que a vida das Coelhinhas era, e é, uma vida de abusos.

"Na época atual, de movimentos como #MeToo e Time's Up, sabemos que as que trabalham em restaurantes são as mais molestadas sexualmente porque não estão protegidas pela legislação do salário mínimo e dependem das gorjetas", disse em um e-mail. "Assim como Hefner, os Playboy Clubs eram uma paródia do patriarcado, portanto, eram os homens que precisavam deles. É difícil imaginar qualquer nova-iorquino frequentando-os, com a exceção de Donald Trump".

Ainda segundo ela, "a Playboy não existiria se a nossa fosse uma sociedade igualitária para as mulheres e os homens".

Oliver e McFall disseram que leram A Bunny's Tale. Elas contaram que a leitura as fez lembrar do que as mulheres enfrentavam nos anos 1960, mas, de acordo com McFall, "se a roupa das Coelhinhas é ultrapassada, significa que a roupa da Mulher Maravilha e que cada figurino que Beyoncé veste é ultrapassado - e não é".

Quando Hefner, fundador da revista Playboy, morreu no ano passado, aos 91 anos, vários editoriais analisaram seu legado e revelaram a calcificação de certo desdém em relação a um homem que no passado foi saudado como um defensor da liberdade de expressão, da diversidade e dos direitos dos LGBTs em suas páginas, antecipando-se a todos os outros.

Hoje, xampu, colônia, relógios, bonés e mochilas da Playboy são vendidos no mundo inteiro, e, segundo a companhia, são adquiridos principalmente por mulheres, o que representa uma receita anual de mais de US$ 1 bilhão.

O diretor executivo da Playboy, Ben Kohn, disse ao jornal The Wall Street Journal, em janeiro, que pretendia concentrar os negócios no "Mundo da Playboy", projeto que incluía um cassino em Londres e espaços no Sudeste asiático. Mas, em agosto, afirmou a The New York Times que a revista continuará.

Cooper Hefner, 27, diretor de criação e filho do fundador, é considerado um homem com uma visão pansexual na Playboy. No ano passado, sob sua direção, a revista estampou a imagem de um Playmate transgênero na capa pela primeira vez em seus 64 anos de história.

"É a coisa certa a fazer", afirmou a The Times em 2015. "Nós nos encontramos em um momento em que os papéis de gênero estão evoluindo".

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