Jason Andrew / The New York Times
Jason Andrew / The New York Times

Após a invasão do Capitólio, professores tentam explicar a história em tempo real

Os educadores recorreram a Shakespeare, à ficção científica e a analogias com gatos e cães para ajudar estudantes a compreenderem as últimas semanas

Amelia Nierenberg, The New York Times - Life/Style

03 de fevereiro de 2021 | 05h00

Para explicar os tumultuados acontecimentos das últimas semanas, Tracy Merlin usou uma analogia que seus alunos do segundo conseguiriam entender: a eterna divergência entre pessoas que gostam de cachorros e aquelas que gostam de gatos.

“Vamos imaginar que a metade do país ache que os cachorros são melhores, e a outra metade ache que os gatos são melhores”, disse Tracy Marlin que leciona em Broward County, Florida. “Os cachorros ganharam a eleição."

“Vocês acham que as pessoas ainda podem gostar de gatos e que podem ainda conversar entre si?” perguntou. “Elas podem ainda gostar de gatos”, arriscou Ander, 8, com o seu fone de ouvidos na cabeça.

Tracy procurou no mar de cabecinhas que flutuavam em seus respectivos quadrados. “Vocês acham que é legal as pessoas que gostam de gatos quebrarem todas as lojas de pet quando estão decepcionadas?” perguntou.

“Não”, respondeu Ander. “Porque é ilegal”.

Uma revolta no capitólio dos EUA. O segundo impeachment de Donald Trump. E, apesar de tudo isto, uma transferência de poder. Os acontecimentos das últimas semanas foram incompreensíveis para muitos adultos. Como, então, explicá-los para os alunos, tanto os da pré-escola que se reúnem sobre tapetes dispostos em círculo obedecendo ao distanciamento social, ou aos alunos de faculdade que espiam ansiosamente nos chats de vídeos?

Em todo o país, os educadores reformularam os seus programas para explicar a notícia. Eles recorreram à ficção científica, à tragédia shakespeariana e à queda de Roma em busca de paralelos para ajudar os estudantes a processarem os acontecimentos, muitas vezes assustadores e seguramente históricos.

“Quando eu era criança, o ônibus espacial Challenger explodiu”, disse Tracy, 46, no dia anterior à posse de Joe Biden. Ela lembra exatamente o que estava fazendo quando o ônibus espacial explodiu depois da decolagem em 1986 - assim como seus pais lembram exatamente o que estavam fazendo quando John F. Kennedy foi assassinado.

“Eu não sei se este é o momento chave desta geração”, acrescentou. “Mas sei que há coisas que permanecem fixas nas mentes das crianças desde a tenra idade. Se eu conseguir fazer com que saibam que é importante conhecer a respeito do que acontece ao seu redor, e se informarem, e conhecerem os fatos, acho que cumpri meu dever”.

Os estudantes de universidade também precisaram de ajuda nestas semanas turbulentas.

Na quarta-feira, 20, na manhã da posse, 180 estudantes se conectaram na aula de introdução à história americana de Steven G. Noll, na Universidade da Florida. O tema da aula era “A Reconstrução após a Guerra Civil.”

Noll, 68, puxou facilmente os paralelos desconfortáveis com o presente.

“As palavras importam”, ele disse. Os “tumultos” , como eram antigamente chamados, que culminavam com a morte de pessoas pretas recentemente libertadas e emancipadas, agora são chamados de “massacres”, explicou.

O professor mostrou uma imagem de um monumento de pedra na Louisiana, erguido à memória de três “heróis” que em 1873, diz o monumento, “caíram na revolta de Colfax lutando pela supremacia branca”. Estes revoltosos mataram 150 pessoas pretas.

Ele disse que carregar a bandeira dos Confederados, como um dos partidários de Trump na multidão enfurecida que tomou o Capitólio no dia 6 de janeiro, nos diz “que eles estão lutando pela supremacia branca.”

Em todo o país, as escolas ocupam um espaço político carregado. A maneira como as crianças aprendem história, educação cívica e literatura, pode moldar a maneira como, algum dia, elas poderão votar. Os professores trabalham com afinco para garantir que as suas classes estejam preparadas para que todo mundo expresse opiniões e discorde.

Mas a pandemia acabou com a privacidade das quatro paredes. Agora, os professores precisam conciliar as paixões políticas das suas comunidades em uma época de intensa divisão.

Os pais com fortes opiniões podem estar por perto quando os estudantes aprendem virtualmente - e levantar objeções às caracterizações de eventos polarizadores.

“Tenho reuniões constantes e e-mails, algumas com um contingente de pais bastante agressivos a respeito da maneira como explico estes assuntos na minha sala de aulas”, disse James Mayne, que ensina em uma escola Adventista do Sétimo Dia em Clark County, Washington, de tendência conservadora, como ele afirma.

Na quarta-feira, 20, Mayne pediu aos seus alunos de história americana que comparassem o discurso de posse de Biden com o da segunda posse de Abraham Lincoln. Depois abriu as discussões da classe, orientando os estudantes para as lutas que ambos os presidentes enfrentaram para a reunificação do país.

“Eu teria muita dificuldade para encontrar um terreno comum com os supremacistas brancos”, disse Jordan, 16.

“Os supremacistas brancos são muito radicais”, observou Talia, 16, que se definiu uma liberal. “Eu tenho muitas pessoas do outro lado da minha vida que não são racistas. Elas podem ter uma maneira ruim de explicar as coisas às vezes, mas no seu íntimo são boas pessoas, amam todo mundo.”

Se você não consegue ir além das palavras, disse Talia, não encontrará um terreno comum.

Em lugares politicamente conservadores ou mesmo lugares em que as correntes políticas se misturam, algumas escolas abandonaram as discussões políticas. Alguns distritos escolares, como Bangor, Maine,  não transmitiram a posse de Biden porque temiam a violência. E os professores que moram em áreas divididas precisam trabalhar muito para evitar parecerem tendenciosos.

Alyssa Kelly ensina inglês para a 11ª e 12ª série de tendência conservadora, um distrito rural a cerca de 56 quilômetros a sudoeste de Bangor.

No dia depois da invasão, um dos seus alunos, aberto partidário de Trump, estava confuso. Ele passara a noite tentando analisar memes, frases de efeito e feeds de sua mídia social. Ele queria entender o que tinha acotecido.

O que aconteceu de fato?, ele perguntou. Depois de discutirem em classe sobre o que aconteceu, disse Kelly, ele ficou frustrado pela maneira como os seus colegas partidários de Trump haviam agido.

“Não estou certa de que se ele não tivesse tido espaço para lutar contra a própria ignorância por um minuto - de uma maneira  pela qual não o julguei absolutamente - ele teria tirado a mesma conclusão”, disse Kelly. “Eu não disse nada de político, na realidade. Apenas precisava destrinchar a coisa para ele ou ajudá-lo a destrinchá-la”.

Para analisar no meio de toda a confusão, muitos professores contaram que usaram um sistema de três perguntas: O que eu sei? O que acho que sei? E o que quero saber? Sempre que possível, eles dirigiram as discussões para o currículo escolar, usando fontes primárias como guia.

No dia depois da invasão do Capitólio, Nicole Hix virou a discussão da classe em seu curso de história mundial para a violência. Em vez de pedir aos alunos de uma escola particular católica de Houston que analisassem documentos do reino de Luís XIV, ela pediu que discutissem fotos recentes, manchetes e tuítes, como fariam com qualquer outra fonte primária.

“Quando a coisa ficou complexa, eu segui em frente”, disse Hix, 46 anos. “Foi um dia complicado, difícil de engolir”.

Uma estudante, Sophia, contou que os seus colegas ficaram de cabeça baixa e de boca fechada. Ela respondia perguntas diretas, mas evitou compartilhar sua opinião. “É a nossa idade,” disse Sophia, 15. “Não queremos perder amigos, mas também temos nossas opiniões. Todos podemos afirmar que a situação é muito tensa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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