Ksenia Kuleshova para The New York Times
Ksenia Kuleshova para The New York Times

Após briga judicial, Uber tenta abordagem mais amistosa na Alemanha

Empresa de corridas abandona táticas agressivas

Adam Satariano, The New York Times

30 Novembro 2018 | 06h00

DÜSSELDORF, ALEMANHA - Guido Goebel parou de dirigir para o Uber três anos atrás, quando a empresa deixou sua cidade, Düsseldorf, depois de uma batalha com as autoridades.

Várias semanas atrás, a empresa de corridas voltou a procurá-lo. O Uber disse a Goebel que estava voltando a Düsseldorf e ofereceu a ele uma bonificação de 500 euros, ou cerca de 560 dólares, se ele alcançasse determinadas metas. “Foi bom, estou ocupado", disse Goebel. “As pessoas ficaram felizes com a presença do Uber.”

Düsseldorf é o ponto de partida de uma iniciativa de Dara Khosrowshahi, diretor executivo do Uber, para relançar o negócio na Alemanha antes da abertura do capital da empresa planejada para o ano que vem. 

Quando o Uber voltou a essa cidade de 600 mil habitantes em outubro, foi a primeira expansão da empresa na Alemanha desde 2015, quando foi decidido que ela funcionaria apenas em Berlim e Munique.

Em 2015, o ousado comportamento do Uber sob comando do ex-diretor executivo Travis Kalanick levou ao desgaste no relacionamento da empresa com as autoridades alemãs, que a obrigaram a recuar. Dessa vez, a empresa voltou com uma estratégia diferente: em vez de avançar com tudo, desafiando as regras municipais e nacionais que regulam os transportes, o Uber as está seguindo.

A antiga estratégia, mais agressiva, “claramente fracassou", disse Christoph Weigler, executivo do Uber na Alemanha.

A Alemanha é um teste da capacidade de Khosrowshahi de ampliar os negócios do Uber em lugares onde seu histórico é problemático. Depois de assumir o controle no ano passado, ele tirou o Uber de regiões pouco lucrativas como o Sudeste Asiático e a Rússia para limitar as perdas da empresa, que chegaram a 1,07 bilhão de dólares no terceiro trimestre.

Mas Khosrowshahi também precisa apresentar algum crescimento antes da abertura do capital do Uber no ano que vem, que promete ser uma das maiores ofertas públicas iniciais do setor de tecnologia. Como resultado, ele voltou a se concentrar na Europa, onde a empresa consegue cobrar tarifas mais altas, em geral.

O caminho que reconduz à Europa deve ser difícil. Em Londres, maior mercado europeu do Uber, a empresa resistiu às tentativas de revogação da sua licença, mas vê-se agora envolvida num processo que exigiria o pagamento de um salário mínimo e de férias para os motoristas, tratados como freelancers. Na Espanha, as operadoras de táxi conseguiram pressionar os políticos a limitar o número de carros do Uber em circulação. As regras também mantiveram a empresa fora da Itália.

A Alemanha é um prêmio particularmente valioso por ser a quarta maior economia do mundo e a maior da Europa, com várias cidades densamente povoadas e uma população relativamente rica e acostumada à tecnologia.

Mas o país tem também um emaranhado de regulamentos de licenciamento que dificulta o recrutamento de motoristas independentes. A Alemanha exige dos motoristas que sejam aprovados em exames de saúde e capacidade do condutor, bem como um exame de contabilidade. Outra regra determina que os motoristas voltem para casa entre as corridas, limitando o número de corridas por dia. Serviços de carona são proibidos.

Khosrowshahi visitou a Alemanha para defender mudanças em algumas das regras de transporte. Em março, o governo disse que atualizaria suas políticas, mas isso pode levar anos.

Enquanto o Uber aguarda mudanças na legislação, a empresa fez parcerias com alguns serviços particulares de corridas e algumas operadoras de táxis que já têm as licenças exigidas. A empresa pretende também oferecer bicicletas elétricas em Berlim, primeira cidade fora dos Estados Unidos a receber o serviço.

Mas, enquanto o Uber tenta fincar suas raízes na Alemanha após um hiato de três anos, a empresa enfrenta mais concorrentes. O serviço DriveNow, pertencente à BMW, permite que as pessoas aluguem carros usando um aplicativo para viagens curtas em cidades como Berlim. A Moia, uma subsidiária da Volkswagen, está testando um serviço de compartilhamento de corridas de ônibus em Hamburgo. O aplicativo MyTaxi, que pertence à Daimler, é muito usado para chamar táxis. E há rivais em rápido crescimento como o Taxify, oferecendo corridas de táxi em cidades europeias.

O Uber disse ter escolhido Düsseldorf para sua expansão na Alemanha depois de ver que usuários na cidade tinham acessado seu aplicativo mais de 150 mil vezes desde janeiro.

Mas, mesmo depois de voltar a Düsseldorf, o Uber enfrentou um obstáculo: os taxistas. Embora a empresa tenha procurado parcerias com operadoras de táxis, dúzias de motoristas protestaram diante dos escritórios do Uber no mês passado, buzinando e travando o tráfego.

Dennis Klusmeier, diretor da Taxi Düsseldorf, maior operadora de táxis da cidade, disse que os motoristas do Uber não respeitam a lei que exige dos motoristas particulares que retornem para a garagem entre as corridas. Trazendo nas mãos um livro explicando as regras de transporte, Klusmeier disse que estava explorando a ideia de mover uma ação na justiça. “Nós, alemães, adoramos um código processual", brincou ele.

A polícia de Düsseldorf disse ter registrado seis incidentes envolvendo taxistas e motoristas do Uber, incluindo um incidente em que um motorista do Uber foi obrigado a parar por taxistas, que o atacaram.

Há cerca de 100 carros do Uber circulando em Düsseldorf, e a espera pode ser demorada. Ao perguntarmos às pessoas se já usaram o aplicativo, a maioria dá de ombros.

“Não é um serviço muito popular", disse Dennis Zimney, que trabalha num hotel do centro. “A maioria não conhece o Uber.”

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