Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Após caso de racismo, roteirista cria graphic novel sobre preconceito racial

O romance impressionista apresenta um adolescente negro que olha para os pássaros com binóculos e vê rostos de negros mortos pela polícia

Sarah Maslin Nir, The New York Times - Life/Style

22 de setembro de 2020 | 05h00

Christian Cooper se tornou um dos observadores de aves mais famosos dos Estados Unidos quando um vídeo filmado por ele de um confronto com uma mulher branca no Central Park viralizou. Depois de Cooper ter pedido a ela que colocasse a coleira no cachorro, ela o alertou que telefonaria para a polícia dizendo que “um homem negro está ameaçando me matar".

Mas, antes do ocorrido, Cooper era conhecido em outra área: é um roteirista de quadrinhos pioneiro. Agora, Cooper está usando a experiência vivida no Central Park como inspiração para uma graphic novel, intitulada “It’s a Bird” [É uma ave], publicada pela DC Comics.

Na graphic novel, disponível apenas em formato digital, ele liga as humilhações diárias do racismo e a mortífera violência policial contra negros. No mesmo dia em que ele enfrentou a mulher, Amy Cooper (nenhum parentesco com Christian), George Floyd seria morto em Minneapolis sob o joelho de um policial. A história breve (10 páginas) é impressionista, sem uma trama definida. É a primeira de uma série chamada “Represent!” com obras de autores “tradicionalmente subrepresentados na indústria dos quadrinhos", incluindo negros e membros da comunidade LGBTQ, de acordo com comunicado de Marie Javins, editora executiva da DC.

Estará disponível na internet gratuitamente a partir de quarta feira, em vários canais de distribuição de quadrinhos e livros digitais. O personagem principal de “It’s a Bird” é um adolescente negro observador de aves chamado Jules. Quando ele tenta usar o binóculo para ver aves, ele enxerga em vez disso os rostos de negros que foram mortos pela polícia.

Depois que um homem branco afasta Jules do seu gramado, a ilustradora, Alitha E. Martinez, desenhou Jules enxergando o rosto de Floyd em uma toutinegra (ave) empoleirada em uma árvore. Mais adiante, o adolescente confronta uma mulher branca no parque que passeia o cachorro sem a coleira — nas páginas a mulher se chama Beth, e é retratada como corpulenta, diferente de Amy Cooper.

Quando Jules a enfrenta, recebe o apoio de imagens de vários negros mortos em interações com a polícia. Quando ele dá as costas a ela, o jovem os enxerga alados, voando livremente. Em entrevista, Christian Cooper disse que a graphic novel “não deve ser encarada como uma experiência específica, pois não é isso que ela representa.

Foi inspirada em uma série de vivências, reunidas a partir de algo em comum: minha própria experiência e todos esses outros casos dos quais ficamos sabendo pelas notícias". “O que aconteceu comigo é pouco se comparado às consequências fatais sofridas por George Floyd naquele mesmo dia, mas a origem é o mesmo preconceito racial", acrescentou ele. “Não estou dizendo que são situações equivalentes.

O que estou tentando dizer é: observem o padrão.” Cooper disse que a graphic novel evitou deliberadamente a ideia de relatar seu encontro com Amy Cooper em 25 de maio. “Acho que essa é a beleza dos quadrinhos; podemos alcançar esse lugar de maneira visual e visceral", disse ele. “É isso que esse quadrinho tenta fazer: aproveitar tudo que está na realidade e, aplicando um tratamento de realismo mágico, chegar ao coração da questão.”

Nos dias que se seguiram ao incidente, Amy Cooper foi demitida do emprego e duramente criticada nas redes sociais. O promotor distrital de Manhattan a acusou de fazer denúncia falsa à polícia. Christian Cooper se recusou a cooperar com a investigação e manifestou publicamente sua compaixão por Amy Cooper diante das consequências que ela sofreu. Ele disse que ela não tentou entrar em contato com ele, e nem espera que ela o faça.

“Para mim, as aves nunca deixaram de ser a questão", disse Cooper. “No início, o confronto não tinha a ver com raça. Foi ela quem transformou a situação em um caso de racismo.” Cooper disse que a personagem Beth foi pensada como um pastiche, e não um retrato de Amy Cooper (ela não respondeu aos pedidos de contato da reportagem).

Nas páginas finais, enquanto Jules e Beth discutem, as imagens de Alitha mostram as palavras da mulher diminuindo. “Vemos que as palavras dela vão encolhendo, cada vez menos importantes", disse Christian Cooper. “Afinal, o foco não é ela; é uma história a respeito daqueles que perdemos e de como fazer para não perder mais ninguém.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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