Zinyange Auntony/Agence France-Presse-Getty Images
Zinyange Auntony/Agence France-Presse-Getty Images

Após ciclone, Moçambique ainda tem muito o que enfrentar

O ciclone tropical conhecido como Idai castigou um dos países mais pobres do planeta; cerca de 110 mil moradias foram atingidas e mais de 600 pessoas, mortas

Declan Walsh, The New York Times

24 de abril de 2019 | 06h00

MASSANE, MOÇAMBIQUE - Quando a água chegou aos seus pés, a família subiu numa mangueira. Augusto Brás levantou dois dos seus filhos até os galhos mais altos enquanto sua esposa, Amélia Augusto, se equilibrava em uma haste mais em baixo. Eles ficaram três dias naquela árvore, enquanto o ciclone bradava ao seu redor.

A certa altura, a água subiu pelo tronco da árvore e parou a uns dois metros deles; eles rezaram. Um helicóptero de resgate sobrevoou a família no terceiro dia e deixou cair uma caixa de biscoitos. Augusto nadou para alcançá-la. Amélia chorou. Francisco, filho de 8 anos, se afogara  na correnteza enquanto eles saíam correndo da  casa.

Alguns pescadores encontraram o corpo do menino a muitos quilômetros de onde ele desapareceu. A família o enterrou por enquanto no quintal de uma casa abandonada. O cemitério local estava alagado. A família não teve muito tempo para chorá-lo, quando voltou para a sua morada, três semanas mais tarde, lutando contra a fome.

Ao redor do monte de tijolos onde antes a casa estava, estendia-se o campo, sua principal fonte de alimentos, agora destruído. “Precisamos recolher o que apodreceu”, disse Augusto, segurando um punhado de pés de milho encharcados que escavaram de um campo vizinho. “Isto é tudo o que temos por enquanto”.

Perdas

O ciclone tropical conhecido como Idai, que se abateu sobre a África do Sul em março, castigou um dos países mais pobres do planeta. Em Moçambique, arrasou 110 mil moradias e deixou a terra coberta de água. O numero oficial de mortos é de 603, mas as autoridades suspeitam que muitos mais tenham sido arrastados até o mar. O ciclone acabou com a principal fonte de alimentos em um país em que cerca da metade da população já vivia abaixo da linha de pobreza. Quase 7.800 quilômetros quadrados de terra cultivada foram destruídos. As pessoas precisam de ajuda constante para sobreviver.

Uma enorme campanha internacional entrou em ação. A iniciativa - hospitais de campanha transportados por barcos, alimentos jogados de aviões e 800 mil pessoas imunizadas contra a cólera - ajudou a evitar o pior. Mas o ciclone Idai custou a Moçambique US$ 773 milhões em prejuízos econômicos diretos, segundo estimativa do Banco Mundial. O apelo pela coleta de recursos coordenada pela ONU para cobrir a emergência inicial só conseguiu US$ 282 milhões. No dia 20 de abril, haviam sido obtidos somente US$ 74 milhões.

Ventos de 170 quilômetros por hora destruíram os silos de armazenamento nas docas e arrancaram os telhados de zinco dos barracos de Beira, um porto importante. Pelo menos 61 pessoas morreram. Fora da cidade, os trabalhadores correram para levantar cercas em uma fazenda a fim de impedir que 26 mil crocodilos de um criatório se soltassem.

Fazia mais de um século que o sudoeste do Oceano Índico vira um ciclone tropical tão letal quanto o Idai, que se abateu sobre Moçambique no dia 14 de março, antes de atingir partes de Zimbábue e Malaia, onde 400 pessoas morreram. Em Buzi, cidade à beira de um rio, no interior, a 25 quilômetros de Beira, os moradores se refugiaram nos telhados das casas enquanto a água subia. Alguns disseram que os crocodilos nadavam perto deles.

No dia seguinte à reabertura da estrada principal, em meados de abril, alguns homens levaram sacos da ajuda até um pequeno porto. A água baixara na cidade, deixando uma trilha de destruição. Um homem com um megafone gritava para os moradores se vacinarem contra a cólera.

Algumas pessoas se reuniram para os trabalhos de reconstrução. Joaquim Cuahanha cortou tábuas de uma árvore para pôr sua casa em pé novamente. Estava preocupado com a alimentação dos quatro filhos. “Por enquanto, só precisamos voltar ao trabalho”.

No dia seguinte, Amélia Augusto chegou a Buzi. Ela havia deixado a família, e a mangueira, e caminhou por duas horas por trilhas cheias de lama e através de campos cobertos de água. Pediu carona em uma canoa nos pontos em que a água era funda demais. Ela levava consigo uma vizinha, Ester Carama, para buscar ajuda. Laucina, a filha de dois anos de Ester, adoecera com diarreia e vômitos - sintomas que poderiam indicar infecção por cólera. 

Em poucos dias, Moçambique  passou de algumas infecções da doença para mais de 3 mil. As mulheres foram orientadas para uma espécie de clínica dos Médicos sem Fronteiras. Lausina aparentemente não estava com cólera, explicou um médico - só precisava de uma boa refeição. Por enquanto, a ajuda não falta em Buzi. A operação atraiu inúmeros grupos de resgate - médicos cubanos, bombeiros brasileiros e fuzileiros navais americanos - além da costumeira ajuda das agências internacionais.

Na manhã seguinte, Amélia e Ester partiram. Uma porta de madeira, apoiada a uma árvore, era tudo o que restava da casa de Amélia. Seu marido calculou que custaria US$ 200 para reconstruí-la, mas ele não dispõe deste dinheiro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.