Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Após doação de casal, sistema nacional de parques nasce no Chile

Dois americanos cederam grandes extensões de terra na Patagônia, em troca de o governo criar uma área de conservação que será três vezes o tamanho de Yosemite e Yellowstone combinados

Pascale Bonnefoy, The New York Times

15 Março 2018 | 15h00

COCHRANE, Chile - Uma águia sobrevoou a casa solitária no topo de uma colina árida nas estepes do Parque Patagônia.

No vale abaixo, Michelle Bachelet, então ainda presidente do Chile, anunciava a criação de um vasto sistema de parques nacionais que se estenderia de Hornopirén, a 1.150 quilômetros ao sul da capital, Santiago, ao Cabo Horn, a ponta meridional da América do Sul.

O parque é uma iniciativa de Kristine McDivitt Tompkins e de seu marido, Douglas Tompkins, que fundaram as companhias de vestuário North Face e Esprit. A partir de 1991, o casal investiu US$ 345 milhões - grande parte de sua fortuna - na compra de amplas extensões de terra na Patagônia.

Enquanto Bachelet falava da criação da rede de parques, Kristine Tompkins olhou para cima, e observou a águia voando sobre a casa, a sua casa; ‘águila’, águia, era o nome que o marido usava no rádio.

Tompkins faleceu em dezembro de 2015, aos 72 anos, depois de um acidente de caiaque, na Patagônia. 

Meses antes, a Tompkins Conservation, um  grupo de iniciativas de conservação dirigido pelo casal, propôs um negócio ao governo chileno: os dois doariam ao Chile mais de 400 mil hectares do seu território preservado e restaurado se o governo prometesse preservar terras adicionais e designasse novos parques criando desse modo uma rede nacional na Patagônia.

O governo Bachelet acabou contribuindo com 3,5 milhões de hectares. O negócio foi uma rara vitória para a conservação de uma região em que a mineração, o desmatamento e a agricultura ameaçam cada vez mais os ecossistemas. Nasceram assim os quatro milhões de hectares do sistema Nacional de Parques da Patagônia, que aumentam a área reservada aos parques do Chile em cerca de 40%.

Para chegar até o local em que ocorreu a cerimônia do anúncio, as estradas sinuosas são de terra e serpenteiam por montanhas flanqueadas por rios de cor turquesa e pelo Lago General Carrera, aparentemente sem fim. Pastos povoados por guanacos, primos do camelo, que dão lugar a imensas estepes, florestas e majestosas montanhas com picos cobertos de neve aos pés de extensões de gelo de tirar o fôlego.

Tompkins viajou pela Patagônia em 1961, quando tinha 18 anos, em busca de aventuras e de rochas para escalar. Adquiriu suas primeiras terras na região 30 anos mais tarde - a fazenda Reñihué de 17 mil hectares.

Casaram-se em 1993, depois que Kristine se aposentou da companhia de vestuário esportivo Patagonia, onde chegara ao cargo de diretora executiva. Começaram então “uma vida verdadeiramente nômade à procura de projetos conservacionistas no Chile e na Argentina”, ela explicou.

Os dois continuaram comprando terras. Adquiriram outros 84 mil hectares ao sul de Reñihué , juntamente com amplas extensões no nordeste da Argentina, que atualmente estão doando ao governo argentino.

“A imensidão da Patagônia produz um efeito raro, uma estranha e profunda emoção que afeta as pessoas fisicamente”, observou Kristine. “Poucos lugares como este prendem e persistem na gente, como aconteceu com Doug e comigo”.

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