Sarah Blesener/The New York Times
Sarah Blesener/The New York Times

Após dois anos de pandemia, alguns bairros de Nova York voltam a receber moradores

A variante ômicron está mantendo os escritórios de Manhattan vazios, mas um influxo de moradores e um boom imobiliário em bairros como Chelsea sugerem um futuro melhor

Mihir Zaveri, The New York Times - Life/Style

22 de fevereiro de 2022 | 07h13

NOVA YORK - Pouco depois de se formar na Universidade da Flórida nesta primavera, Emily Locke decidiu se mudar para o bairro de Chelsea, em Manhattan.

Locke, 22, cresceu perto de West Palm Beach, mas há muito se sentia atraída pela energia revigorante e imprevisível que sentia durante as visitas de infância a Nova York. Chelsea oferecia a combinação perfeita de lojas e acesso a várias linhas de metrô.

Ela sabia do número devastador da pandemia em Nova York e como tantas pessoas haviam fugido da cidade. Ainda assim, neste verão (do hemisfério Norte) ela aproveitou a chance de alugar um estúdio. Totalmente vacinada, ela já foi a espetáculos da Broadway e restaurantes perto de casa, e tem até uma loja de sucos favorita no bairro.

À medida que a pandemia deu origem a cenas de morte e desespero em Nova York, poucos lugares esvaziaram mais do que os quarteirões de Chelsea e arredores, o bairro nobre conhecido por restaurantes modernos, galerias de arte e um parque urbano elevado, o High Line. A saída de moradores de Manhattan alimentou manchetes sobre o fim de Nova York e o declínio da América urbana.

Mas mesmo que a variante ômicron tenha mais uma vez mergulhado a cidade na incerteza, este ano também promoveu uma narrativa mais esperançosa: o preenchimento de bairros antes vazios. Chelsea está entre as principais áreas de Nova York que atraem novos e antigos moradores, de acordo com novas descobertas, alimentando um boom no mercado imobiliário e projetando um futuro muito mais otimista do que o imaginado pelas previsões mais sombrias do ano passado. Os aluguéis dispararam e superaram os níveis pré-pandêmicos.

“A covid é terrível e o que está fazendo com a cidade é horrível”, disse Locke, que trabalha em uma empresa de marketing em Manhattan. “Mas você não pode deixar que isso o impeça completamente de viver sua vida.”

Locke, que testou positivo este mês e se recuperou, disse que estava ciente das altas taxas de contaminação pela ômicron na cidade, mas que não estava com medo, observando que as vacinas pareciam impedir os piores resultados para muitas pessoas.

"Isso tem que acabar em algum momento", ela disse.

Chelsea é um dos vários bairros de Manhattan, incluindo Murray Hill, East Village, Upper East Side e Greenwich Village, onde um rápido êxodo impulsionado pela pandemia parece ter parado em grande parte e está se revertendo lentamente em alguns casos. Em um CEP de Chelsea, por exemplo, dados do Correio dos EUA mostram mais pessoas entrando do que saindo durante vários meses deste ano.

A população ainda está longe de se recuperar totalmente e o trabalho remoto está permitindo que muitos funcionários morem longe de seus escritórios em Manhattan. A variante ômicron está alimentando uma nova onda de infecções e ansiedade, levantando questões sobre por quanto tempo os funcionários de escritório e turistas ficarão longe de Nova York e prejudicarão sua recuperação.

E para muitas partes da classe trabalhadora da cidade, o quadro é mais terrível: o desemprego continua alto, milhares lutam para pagar o aluguel e o vencimento da moratória de despejos de Nova York está a apenas algumas semanas de distância.

A pandemia levou muitos a abandonarem cidades em todo o país para subúrbios ou áreas rurais. Mas esse fluxo parece estar diminuindo em muitos centros urbanos, à medida que mais pessoas foram vacinadas e escolas e empresas reabriram.

E as mudanças populacionais foram as mais marcantes na maior cidade do país, que estava entre os primeiros e mais atingidos lugares nos primeiros dias da pandemia.

Uma análise recente dos dados do Correio dos EUA pelo New York City Comptroller descobriu que o número de moradores que deixaram a cidade em 2020 foi o triplo do que em 2019. O fluxo de saída também ressaltou a desigualdade da cidade: moradores dos bairros mais ricos, muitos com empregos em escritórios que facilitavam o trabalho remoto ou tinham recursos para mudarem, eram muito mais propensos a sair do que outros moradores, segundo o relatório.

Este ano, uma faixa do oeste de Manhattan, incluindo Chelsea e Midtown, que teve as maiores perdas em 2020, também teve o maior ganho líquido de pessoas que disseram que planejavam ficar permanentemente, segundo o relatório.

Os dados do Correio, que rastreia as mudanças de endereço relatadas pelos moradores, estão incompletos - por exemplo, não levam em conta a migração internacional nem capturam jovens adultos fazendo a primeira mudança após a faculdade que podem não preencher formulários de mudança de endereço.

Uma análise separada da Partnership for New York City, examinando apenas um CEP em Chelsea e analisando mudanças permanentes e temporárias, mostrou uma perda líquida em 2020 de mais de 2.700 moradores, totalizando cerca de 12% da população estimada de todo o CEP - entre as maiores proporções de pessoas que deixam qualquer CEP na cidade.

Os dados refletem uma imagem mais animadora este ano: a perda líquida até novembro foi de cerca de 100. E entre abril e novembro, houve até um ganho líquido de 29. Essa é uma reversão notável em comparação com o período correspondente em 2019, quando o CEP mostrou uma perda líquida de mais de 530.

Os aluguéis têm disparado. De acordo com a StreetEasy, o aluguel médio pedido em novembro em Chelsea foi de US $4.801, um aumento de mais de 45% em relação ao ano anterior e superior ao pico de US $4.462 em junho de 2019.

O aumento dos preços das moradias é impulsionado, em parte, por muitas pessoas que adiaram a mudança e economizaram dinheiro durante a pandemia, disseram corretores e analistas. Outros proprietários haviam retirado unidades do mercado porque sabiam que talvez não conseguissem um bom preço. As baixas taxas de hipoteca estão incentivando mais compras.

“Quando você tem um grande aumento na atividade de vendas, parte disso é demanda reprimida, parte é extrema confiança no futuro e parte é o setor se normalizando”, disse Jonathan Miller, da Miller Samuel, uma empresa de avaliação. “A cidade está se recuperando da falta de atividade.”

Ainda assim, Mark Zandi, economista-chefe da Moody's Analytics, disse que Nova York enfrentou imensos desafios.

Embora o retorno de alguns moradores possa impulsionar bairros específicos, ele disse que, no geral, a área metropolitana de Nova York, incluindo Newark, Nova Jersey, e Jersey City, em Nova Jersey, ainda está perdendo população, apenas em um ritmo mais lento.

“Acho que ninguém está argumentando que Nova York não voltará”, disse Zandi, acrescentando que as perguntas serão “com que rapidez e se recuperará o que perdeu durante a pandemia”.

Chelsea está atraindo tanto recém-chegados quanto moradores que saíram e voltaram.

À medida que a pandemia piorava em abril de 2020, Emily Bracken, 45 anos, mudou-se de seu apartamento no Harlem para a casa de sua irmã no condado de Westchester. Bracken gostou de se reconectar com a família. Mas depois de alguns meses, ela começou a sentir falta das pequenas coisas da vida em Nova York, como as interações nos locais do bairro ou ouvir conversas de estranhos.

Bracken sempre quis comprar um lugar na cidade e encontrou um imóvel de um quarto em Chelsea, que a atraiu por causa da facilidade de chegar ao Brooklyn ou Greenwich Village, NoMad e outros bairros que ela gostava. Ela se recusou a dar o preço exato, mas disse que o apartamento estava dentro de sua faixa de preço de US $500.000 a US $1 milhão. O negócio foi fechado em setembro e ela se mudou perto do Dia de Ação de Graças.

“Gostei da ideia de apostar em Nova York”, ela disse.

Yousif Alrasheed, 25, estudante de pós-graduação da Pace University que está em estudo remoto, mudou-se em maio para um apartamento de um quarto em Chelsea, vindo de Boston, onde morava perto da família. Alrasheed cresceu no Kuwait e visitou Nova York muitas vezes no passado. Ele nunca pensou em morar em outro lugar.

“Vir para cá foi incrível comparado a Boston”, ele disse. “Era tão animado aqui.”

Alrasheed disse que adora a localização central de Chelsea e a concentração de bares e restaurantes próximos. Entre os maiores atrativos do apartamento, que custa cerca de US$ 3.600 por mês: máquina de lavar, secadora e closet. E ele notou recentemente mais e mais pessoas no bairro.

“Especialmente quando o outono começou e o verão terminou, todo mundo voltou para cá”, ele disse. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.