Michelle V. Agins/The New York Times
Michelle V. Agins/The New York Times

Após escândalo sexual, Stormy Daniels migra para a comédia

Outras atrizes afirmam que a atuação em filmes adultos foi elemento fundamental para papéis em stand-ups

Hallie Lieberman, The New York Times

21 de junho de 2019 | 06h00

Quando Stormy Damiels anunciou seu primeiro show como stand-up em uma casa noturna em março, alguns comediantes ficaram pasmos. O fato de uma estrela de filmes pornôs apresentar-se no seu primeiro trabalho do gênero ficou entalado na garganta de todos. Afinal, ela ganhara notoriedade porque afirmava ter tido um caso com o presidente Donald Trump.

“Fazer stand-up não é um prêmio porque se tornou famosa; por favor, deixe o stand-up de fim de semana para as verdadeiras comediantes”, tuitou a Laurie Kilmartin, muito conhecida no ramo. Podia parecer que Stormy fosse a única mulher atuando na área da comédia; ocorre que ela é uma das dezenas de mulheres que fazem ou já fizeram este tipo de trabalho, que aliás tem uma longa tradição.

A fusão da performance feminina como "profissional do sexo" e na comédia ocorre há séculos. Os enredos de várias comédias da Grécia e da Roma antigas giravam em torno da prostituição; e, por outro lado, comediantes americanas atuaram no teatro burlesco e no vaudeville na primeira parte do século 20.

As comediantes Margareth Cho e Roseanne Barr não escondiam seu passado. Aaron Berg, 46, ex-stripper e atual stand-up, disse que sua carreira anterior serviu de treino para ele atuar na comédia. No palco de um clube noturno, “nunca fico nervoso, porque já fiquei nu diante de 400 pessoas”.

De certo modo, a adaptação torna-se algo natural. Universal e tabu, intrinsecamente ridículo ou carregado de emoção, o sexo é um elemento fundamental no stand-up. Kaytlin Bailwey, 32, ex-prostituta e atual stand-up, disse que profissionais das duas áreas desempenham um papel semelhante. “Nós podemos fazer coisas que os cidadãos normais não podem fazer”. Mesmo assim, muitos profissionais do sexo afirmam que quando ingressaram nas casas onde este tipo de comedia era apresentado, não foram particularmente bem recebidos.

“Teve gente que me disse que eu não era uma atriz cômica de verdade”, contou Silvia Saige, 35, comediante e atriz de filmes para adultos. “Muitos clubes nem me contratavam, muitas atrizes ainda se recusam a trabalhar comigo. Elas acham que estou vendendo uma péssima imagem da mulher”. Os stand-ups avançam para palcos maiores aprimorando o seu material noite após noite, e as críticas aos que ingressam nesta área da comédia em geral limitam-se a perguntar se eles pagaram os impostos.

Embora outros atores cômicos talvez não gostem, os nomes conhecidos são procurados pelos donos dos clubes porque atraem clientes. Silvia e outros afirmam que o stand-up lhes dá uma chance de acabar com o preconceito a respeito do seu trabalho. “Tenho a sensação de que o nosso grupo é o mais visado pelas pessoas que gostam de julgar”, afirmou.” A comédia é uma válvula de escape excelente para falarmos sobre a nossa história e torná-la mais aceitável”.

Sigmund Freud escreveu que a comédia tem “o inequívoco escopo de provocar o prazer no ouvinte”. Mas o sucesso nesta área é tão difícil para profissionais do sexo quanto para os stand-ups mais tradicionais. “Qualquer pessoa que fique na frente de uma câmera e se exiba em uma cena erótica, sempre terá quem olhe”, disse Missy Martínez, diretora, comediante e ex-atriz de filmes para adultos. “Acho que na realidade preciso me esforçar mais para fazer alguém rir do que para provocar o orgasmo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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