Samyukta Lakshmi para The New York Times
Samyukta Lakshmi para The New York Times

Após freira acusar bispo de estupro, convento indiano se revolta

Igreja só reconheceu o crime depois que as irmãs organizaram um protesto público para dar voz ao caso

Maria Abi-habib e Suhasini Raj, The New York Times

17 de fevereiro de 2019 | 05h00

KOCHI, ÍNDIA - Quando o bispo Franco Mulakkal se dispôs a celebrar a Primeira Comunhão para o filho de Darly, uma honra na Igreja católica, a família ficou cheia de orgulho. Durante a cerimônia, Darly  olhou para a irmã freira, e viu que chorava muito - de alegria, imaginou. 

Mais tarde, ficou sabendo que, na noite anterior, o bispo mandara chamar a irmã e a estuprara. Segundo a família, este foi o primeiro ataque em uma provação que durou dois anos, durante os quais ele a estuprou 13 vezes.

O bispo, que se declara inocente, será acusado formalmente e processado por estupro e intimidação, informou a polícia que investiga o caso. Mas a Igreja só reconheceu as acusações depois que as freiras se revoltaram e fizeram um protesto público a fim de chamar a atenção para o caso da religiosa, que buscava justiça havia um ano.

"Nós víamos os padres da Igreja como figuras equivalentes a Deus, agora não mais", disse Darly. "Como posso falar a meu filho que a pessoa que nos ensina a diferença entre o certo e o errado lhe deu a Primeira Comunhão depois de cometer um pecado tão horrível?"

O fato ocorrido no Estado de Kerala, no sul da Índia, faz parte de um drama muito maior a respeito do qual o papa Francisco falou no dia 5 de fevereiro, após dezenas de anos de silêncio do Vaticano. Ele reconheceu que os abusos sexuais de freiras por representantes da Igreja são um problema constante.

Nos tempos atuais, com a redução do número de fiéis no Ocidente e o fechamento de paróquias e mosteiros vazios na Europa e nos Estados Unidos, o Vaticano depende de lugares como a Índia para que a fé continue se expandindo.

Mas o escândalo de Kerala dividiu os católicos indianos, que hoje são cerca de 20 milhões. Enquanto isso, cresce o número de freiras que acusam os padres de abusos sexuais, informa a polícia de Kerala. Quatro padres também foram acusados de chantagear mulheres na confissão, coagindo-as a fazer sexo.

"Se este caso for adiante, começará tudo de novo e padres e bispos serão obrigados a assumir a responsabilidade por seus atos", afirmou o reverendo Augustine Vattol. Ele foi um dos que por defender as freiras recebeu dos superiores a ordem de se calar. 

"A Igreja está perdendo sua autoridade moral. Estamos perdendo a fé das pessoas. A Igreja acabará se tornando um lugar vazio se isto continuar. Assim como na Europa, os jovens deixarão de vir aqui", acrescentou.

Os detalhes das acusações da freira foram fornecidos pela polícia, pela família e pelas outras cinco freiras que viram o desenrolar da saga na Igreja de Syro-Malabar. A família da freira acusa o bispo Mulakkal, 54, de estuprá-la por dois anos, desde o dia 5 de maio de 2014. O bispo não foi encontrado, mas, segundo autoridades da igreja, ele se declara inocente.

A freira, que pertence à ordem das Missionárias de Jesus, informou pela primeira vez as autoridades religiosas dos ataques em janeiro de 2017, quando decidiu falar com bispos, um cardeal e representantes do Vaticano. Alguns a aconselharam a esperar, garantindo que a Igreja tomaria alguma atitude. Outros a proibiram de ir à polícia, segundo informações da família.

Mas a única coisa que aconteceu foi em setembro do ano passado, quando, depois que o silêncio da Igreja fez com que ela e mais cinco freiras se revoltassem, elas decidiram realizar um protesto em frente ao tribunal de Kerala. 

Elas ficaram sentadas diante de um grande cartaz com a reprodução da estátua da Pietà, a famosa escultura de Maria com o corpo inerte de Jesus deposto da cruz. No lugar de Jesus, o cartaz mostrava o corpo inerte de uma freira, e uma frase dizia: "Justiça para as freiras".

Cerca de duas semanas depois do início dos protestos, o Vaticano exonerou o bispo Mulakkal de suas obrigações administrativas. No dia seguinte, 21 de setembro, ele foi preso pela polícia de Kerala. Na cidade, é comum as famílias cristãs terem um ou duas filhas freiras. Estátuas de Maria e Jesus são vistas aos lados das ruas, e a Missa em qualquer dia da semana atrai muitos fiéis.

Os cristãos da Índia, que constituem apenas 2% da população, são em geral muito unidos. O partido governista indiano, Bharatiya Janata, do primeiro-ministro Narenda Modi, baseia-se no nacionalismo hindu. O escândalo de Kerala provocou uma cisão entre os cristãos que acreditam que chegou a hora da reforma e os que querem manter a união.

Um policial de alto escalão envolvido na investigação, que não quis identificar-se, disse acreditar que as autoridades têm provas suficientes para provar que o bispo Mulakkal estuprou a freira e depois intimidou as famílias das freiras que começaram o protesto.

"Estamos arrasadas; a Igreja à qual entregamos as nossas vidas não quer nos ouvir", afirmou Anupama Kelamangalathuveli, uma colega da freira que acusa o bispo. "A luta não é só nossa", acrescentou. "A Igreja precisa ouvir as mulheres e não apenas os padres e os bispos."

Decidida a levar o seu caso diretamente ao Vaticano, a religiosa escreveu ao representante do papa na Índia, o arcebispo Giambattista Diquattro. "Assim que eu entrei no quarto, ele me puxou", diz uma carta endereçada no dia 28 de janeiro de 2018. "Fiquei paralisada e aterrorizada com o seu gesto. Tentei em vão me desvencilhar. Ele me estuprou brutalmente."

Durante mais de um ano de tentativas para conseguir ajuda, ela se abriu com cinco freiras que em algum momento haviam convivido com ela no mesmo convento, a Casa da Missão de São Francisco, na zona rural de Kerala. Em abril, as cinco, comovidas com o seu caso, desafiaram as regras da Igreja e escapuliram de suas residências para se unirem à irmã.

Elas disseram que decidiram ir a público depois que o bispo Mulakkal as acusou de planejarem o seu assassinato. Segundo a polícia, as acusações do prelado foram ignoradas. As freiras levaram o seu protesto até a porta do tribunal de Kerala. 

No segundo dia, ao lado delas havia dezenas de fiéis, ativistas e até mesmo padres com cartazes exigindo que o bispo fosse responsabilizado. "Fizemos o voto de constituir uma congregação - de considerar a congregação a nossa família", disse a Irmã Josephine Villoonickal, uma das freiras. "Agora eles estão tentando destruir esta família."

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