Audra Melton para The New York Times
Audra Melton para The New York Times

Após furacão nas Ilhas Virgens, pacientes de diálise não conseguem voltar para casa

As tempestades que devastaram o Caribe deixaram centenas de desabrigados e geraram caos no sistema de saúde local

Alan Blinder e Sheri Fink, The New York Times

28 Fevereiro 2018 | 12h15

CHAMBLEE, Geórgia - Os filhos, netos e bichos de estimação de Juanita Edwards estão esperando por ela em sua casa, em St. Croix. O ar da ilha seria salgado e conhecido: antes das monstruosas tempestades de 2017, ela nunca tinha deixado o Caribe. No entanto, se voltasse para casa agora, ela morreria rapidamente.

Juanita, 84 anos, precisa de tratamento regular para insuficiência renal, e os furacões que devastaram o Caribe no ano passado afetaram a capacidade da região de oferecer serviços de hemodiálise, processo de limpeza artificial do sangue que pode substituir os rins em mau estado.

Mais de 200 pacientes de diálise como a Sra. Edwards tiveram de ser retirados das Ilhas Virgens dos Estados Unidos no mês de setembro para receber tratamento e estão longe de casa desde então.

"É difícil para ela", diz Gloria Edwards, filha de Juanita e principal encarregada de cuidar dela, a respeito do hotel de estadia prolongada que eles compartilham na região metropolitana de Atlanta, onde permanecem muitas das pessoas na mesma situação. "Ela quer voltar para casa".

Autoridades de saúde dos EUA acreditam que não havia muita escolha - uma decisão sustentada em razão da lenta recuperação das Ilhas Virgens ao longo dos meses. 

"Não costumamos recomendar a retirada de pessoas por questões médicas, e certamente não nessa escala", disse o capitão Charles Weir, do Serviço de Saúde Pública dos EUA, que atua como coordenador regional de emergências em Atlanta. "A única opção para as pessoas com necessidade de diálise era procurar esses serviços em outro lugar. Considerando que se trata de cidadãos americanos, nós somos a primeira opção".

Muitos dos pacientes tiveram de ser transportados várias vezes. Pelo menos 130 pacientes de diálise das Ilhas Virgens foram levados a Porto Rico após a passagem do furacão Irma em setembro; com a aproximação do furação Maria, duas semanas mais tarde, cerca de 100 deles foram transferidos para os EUA.

Em Porto Rico, que tem mais de 6 mil pacientes de diálise, as empresas de hemodiálise trabalharam com autoridades do governo para obter geradores, combustível, água e suprimentos, restaurando e mantendo os serviços na maioria das clínicas da ilha.

Os pacientes de diálise em Atlanta, que atualmente são 138, chegaram como parte de um programa maior de transferências médicas que levou 531 pacientes das Ilhas Virgens para o continente. Quarenta e um dos pacientes, entre os quais muitos em estado crítico, morreram, incluindo 15 pacientes de diálise.

O programa, conhecido como Sistema Médico para Desastres Nacionais, foi usado por anos para transportar pacientes hospitalares para fora de áreas de desastre. Eles costumam ser levados para casa rapidamente após a normalização da situação. Mas as autoridades dizem que os pacientes de diálise trazem novos desafios, por causa da sua necessidade contínua de tratamento e porque o atendimento médico é apenas uma de suas muitas necessidades.

Muitos dos desabrigados aceitaram uma rotina desconfortável. Dias pontuados pelo tratamento médico (são três rodadas de hemodiálise para Juanita por semana) podem oferecer pouco além do tédio, da saudade de casa e das dúvidas em relação ao futuro.

Gloria Edwards elogiou os esforços dos funcionários de emergência que ajudaram sua mãe. Mas o processo de transformar Atlanta para receber os pacientes desabrigados foi marcado por obstáculos substanciais.

Alguns pacientes foram colocados em hotéis longe de suas clínicas. Outros tiveram problemas para encontrar os medicamentos receitados. As autoridades tinham participação breve no programa, e informações importantes eram perdidas nas frequentes transições de equipe.

As autoridades se viram desempenhando papéis com os quais tinham pouca familiaridade, contratando chefs para produzir dietas especiais com pratos que os habitantes das ilhas estavam acostumados a comer, negociando com hotéis para obter quartos com acesso para cadeiras de rodas e recrutando motoristas para transportar os pacientes até as consultas ambulatoriais.

Muitos dos pacientes chegaram a Atlanta com poucos pertences, e grupos comunitários fizeram doações de roupas. A Cruz Vermelha dos EUA ofereceu-lhes cartões de débito pré-pagos para que pacientes e seus cuidadores pudessem comprar comida. Mas algumas das necessidades mais difíceis de atender são psicológicas.

"Essas pessoas querem voltar para casa", disse Jeanne Eckes, vice-coordenadora de saúde do departamento de saúde e serviços humanos.

Esse é um tema que as Edwards debatem com frequência. Juanita Edwards chora ao pensar que nunca voltará para a ilha. Mas ainda não está claro quando poderá retornar. Os serviços médicos nas Ilhas Virgens ainda estão em situação precária, com centenas de funcionários demitidos de hospitais danificados, indisponibilidade de muitos tipos de atendimento, e salas de emergência superlotadas.

"No momento, para os indivíduos que convivem com problemas reais de saúde, não é possível mantê-los na ilha", disse Michelle Davis, comissária de saúde das Ilhas Virgens. Ela contou que alguns pacientes foram levados de volta, mas tiveram de ser evacuados em seguida. Portanto, as Edwards vão ter de esperar.

"É muito trabalho", disse Gloria Edwards. “É estressante. É frustrante. Cansativo, deprimente, tudo. Mas não temos escolha".

 

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