Gus Powell para The New York Times
Gus Powell para The New York Times

Após lesão, pianista clássico repensa sua abordagem musical

Lang Lang ignora críticos da música para tocar Metallica e Für Elise

Michael Cooper, The New York Times

09 de agosto de 2019 | 06h00

Era o fim de uma tarde de primavera, e os 19 mil assentos do Madison Square Garden, em Nova York, estavam vazios enquanto Billy Joel e Lang Lang improvisavam no palco. O grande pianista do pop tinha convidado o superastro do piano clássico para uma participação em seu espetáculo de abril no Garden, e os dois ensaiavam Root Beer Rag, de Joel. Então, começaram a brincar um com o outro. Logo estavam trocando melodias do Concerto do Imperador, de Beethoven. Uniram forças para tocar Bach. Por fim, os dois se lançaram no começo do Concerto para Piano num. 1, de Tchaikovsky.

Foi uma ótima demonstração da habilidade de Lang, o mais famoso e bem pago pianista clássico do mundo, depois que uma lesão no braço esquerdo em 2017 o afastou da música por mais de um ano. Depois de recuperar a força, ele está voltando com tudo esse ano. Vai se apresentar novamente com as principais orquestras do mundo. Está promovendo um novo álbum. E desperta mais uma vez a suspeita, ou até hostilidade, do meio clássico por aplicar à sua carreira as lições do universo pop.

Lang, 37 anos, está se afastando dos cavalos de guerra românticos voltados para o grande público, com os quais construiu sua reputação. Os críticos às vezes apontavam que essas peças revelavam um lado mais cafona do seu estilo; agora ele conquista elogios com um repertório reduzido e mais refinado, com obras de Mozart e Beethoven. 

Isso não quer dizer que o antigo Lang Lang - o jovem e extravagante Lang Lang - desapareceu completamente. Não há muitos solistas clássicos fazendo participações em apresentações de Billy Joel ou tocando com o Metallica. Quem mais faria a Steinway lançar uma linha de pianos em seu nome? Ou trabalharia com o diretor Ron Howard, que está preparando um filme biográfico contando a infância de Lang? 

O pianista atribuiu sua lesão ao excesso de trabalho: estava fazendo uma turnê apresentando números difíceis enquanto aprendia o Concerto para piano para a mão esquerda, de Ravel. Lang acabou com tendinite, um quadro que ficou grave a ponto de, em abril de 2017, ele decidir pelo cancelamento dos concertos dos próximos meses. No fim, sua pausa durou mais de um ano.

Aa escolha do repertório do novo álbum, Piano Book, é quase uma provocação àqueles que consideram suas escolhas artísticas pouco arriscadas: Piano Book é uma coleção de peças curtas no estilo grandes sucessos, como Für Elise (Beethoven) e Clair de Lune (Debussy). “A reação de muitos foi dizer: ‘Está falando sério? Vai tocar ‘Fur Elise?’” disse Lang.

Mas ele acrescentou que gravou essas músicas simplesmente porque gosta delas. Em quatro meses desde o seu lançamento, a versão de Lang de Für Elise já foi transmitida 5,1 milhões de vezes no Spotify. Lang nasceu em 1982 em Shenyang, China. Os pais lhe deram um piano quando ele ainda engatinhava, e ele costuma citar com uma de suas primeiras influências um desenho de Tom e Jerry em que o gato e o rato aprontam das suas enquanto Tom tenta tocar uma peça de Liszt.

De acordo com as memórias de Lang publicadas em 2008, Jornada de mil quilômetros, o pai o pressionava incessantemente, chegando a insistir para que Lang se matasse depois de ser largado pelo primeiro professor em Pequim. “Melhor morrer agora do que viver envergonhado", teria dito o pai. Ele quase desistiu do piano naquele momento. Mas a loucura passou; pai e filho se reaproximaram; e Lang voltou ao piano.

Quando tinha 17 anos, teve sua grande oportunidade ao substituir André Watts na Orquestra Sinfônica de Chicago. Em pouco tempo, tornou-se uma sensação. Mas críticos de destaque começaram a apontar aquilo que lhes parecia uma falta de gosto no seu estilo de tocar. 

Anthony Tommasini, principal crítico de música clássica do New York Times, não se impressionou com o recital de Lang no Carnegie Hall em 2003, escrevendo que ele tocava de maneira “frequentemente incoerente, autoindulgente e exagerada". Mas o público continua impressionado enquanto ele tenta equilibrar humildade e curiosidade com Metallica, Joel e Für Elise

“Quero levar a música clássica a novas áreas", disse ele. “Mas, às vezes penso, será longe demais? Talvez seja melhor recuar um pouco.” E, assim, semanas após a aparição especial no Garden, Lang estava de volta ao emprego, tocando o Segundo concerto para piano de Beethoven na Alemanha.

Em maio, apresentou a mesma peça em Los Angeles. Lá, o espetáculo fez parte de um ciclo dos cinco concertos para piano de Beethoven; originalmente, Lang apresentaria o ciclo completo, mas teve de se comprometer apenas com o segundo enquanto prossegue na recuperação.

As eventuais dúvidas que os cancelamentos possam ter despertado a respeito das habilidades dele foram afastadas por sua apresentação delicada e nuançada. Mark Swed, crítico de música clássica do Los Angeles Times, escreveu em sua resenha que foi “uma apresentação a respeito da qual as pessoas talvez comentem durante anos". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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