Hilary Swift/The New York Times
Hilary Swift/The New York Times

Aprendendo a administrar o estresse como um campeão olímpico

A pressão de uma intensa corrida combinada com o metódico tiro ao alvo dá aos biatletas uma perspectiva única sobre como lidar com o estresse

Tara Parker-Pope, The New York Times

01 Abril 2018 | 11h00

PYEONGCHANG, COREIA DO SUL - Correr em uma competição de velocidade sobre esquis. Parar e atirar em um alvo do tamanho de um cookie a cerca de 50 metros de distância. Se errar, a penalidade será dar mais voltas de esqui antes de poder correr até a próxima série de alvos.

A maioria das pessoas jamais tentará o biatlo, um esporte particularmente estressante que exige força física e domínio emocional. Mas isso não significa que não precisemos nos informar a respeito. Conversar com uma biatleta olímpica sobre o treinamento necessário pode representar uma lição de vida no que se refere a administrar o estresse e recuperar imediatamente a intensidade emocional e física.

“As coisas físicas são difíceis - você precisa usar todos os seus músculos enquanto o coração bombeia com a maior aceleração possível”, diz Clare Egan, 30, que mora e treina em Lake Placid, Nova York. “Mas a parte mental constitui o maior desafio no biatlo”.

Conversei com Clare e com o psicólogo dos esportes Sean McCann sobre o que as pessoas comuns podem aprender com o esporte. Aqui está o que eles disseram:

Esteja preparado. Clare começa a administrar o stress do evento muito antes de iniciar uma disputa. Ela sempre esquia no trecho da prova nos dias anteriores à competição para não ter surpresas. Identifica os marcadores físicos - uma árvore ou o pau da bandeira - que a ajudarão a reconhecer que está perto do local da prova de tiro. É um passo pequeno, mas muito importante para reduzir o stress da competição. “Este servirá de lembrete para mim de que preciso desligar o modo de esqui e ligar o modo de tiro”, explica.

Expire lentamente. Estudos mostraram que a respiração controlada, mesmo quando você não está competindo nas Olimpíadas, ajuda a reduzir o estresse e aumenta o estado de alerta. O psicólogo trabalha com Clare e com outros biatletas a técnica da respiração para ajudá-los a se acalmar ligeiramente nos poucos segundos que têm para desligar o modo de esqui e passar para o de tiro. Embora o batimento cardíaco continue acelerado, a respiração controlada os ajuda a reduzi-lo o suficiente para concluir a prova de tiro.

“Se alguma vez você tentou frear a sua respiração, saberá que é muito difícil”, explicou o psicólogo. “Uma das maneiras de mudar o ritmo da respiração é expirar lentamente. É preciso prática, mas se você expira lentamente, a inspiração fará o mesmo por conta própria. É uma maneira de passar de uma respiração rápida para uma mais lenta repetidamente”.

Esteja atento. Estar totalmente consciente das dificuldades que se encontram ao nosso redor é um passo importante na administração do estresse. Cerca de 30 segundos antes de chegar à área de tiro, Clare olha as bandeiras que indicam a direção do vento e pensa como terá de se ajustar. Então começa a desacelerar a respiração. Chega ao local e se posiciona sobre a esteira, olhando os seus alvos.

“Os 15 segundos seguintes são aqueles em que eu preciso estar extremamente atenta”, diz. “Tenho esta tarefa que já fiz milhares de vezes e vou tentar repeti-la. Sei que haverá algumas distrações. A colega ao meu lado acertou todos os alvos. Os fãs estão gritando. A pessoa no alto-falante diz: ‘Aqui está Clare Egan dos EUA. Vejamos se ela consegue’ ”.

Os exercícios para a atenção ensinaram-lhe a aceitar as distrações. “Para atirar, você precisa eliminar toda a emoção do que está fazendo”, afirma. “O alvo está lá, aqui está o gatilho, este é o meu método, agora vou acertar o tiro”.

Concentre-se na tarefa, não nos resultados. Um dos momentos mais vulneráveis é quando um biatleta atingiu quatro alvos e está prestes a dar o último tiro. “‘Se atingir este alvo, vou ganhar a medalha de ouro’ - se pensar nisso, definitivamente errará”, diz Clare.

Ela diz que sua estratégia é substituir os pensamentos voltados para o alvo (“preciso acertar este último tiro”) por dicas que a ajudem a se concentrar nas coisas que terá de fazer para realizar a tarefa. Palavras como forma, respiração, gatilho e conclusão. “Você precisa eliminar todo este barulho da sua mente. Eu preciso usar algum tipo de palavra que se refira a limitar-me a atirar bem”.

“Mesmo que tenha feito apenas minigolfe, você compreende o conceito de concluir o que está fazendo”, afirma.

Experimente competir contra você mesmo, e mais ninguém. “Você vai para a última fase de tiro, e falta tanta gente - a pressão cresce”, diz Clare. “Mesmo os melhores atletas do mundo estão sujeitos a entrar em colapso no última fase”.

A chave do biatlo é concentrar-se no próprio método e nas próprias tarefas, sem se deixar distrair pelo possível resultado ou pelo desempenho dos outros. “Acho que este princípio se aplica praticamente a tudo”. Acho que em grande parte consiste em concentrar-se no que você está fazendo. Você precisa esquecer como os outros estão indo e concentrar-se unicamente em seu trabalho.

“Se fizer isso, terá um desempenho de que se orgulhará, quer faça na apresentação de um projeto no trabalho, um recital de piano ou no biatlo”.

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