M. Scott Brauer para The New York Times
M. Scott Brauer para The New York Times

Aprendendo sobre medicina humana tratando animais

Estudantes de medicina aprendem com veterinários sobre doenças que atingem humanos e animais

Karen Weintraub, The New York Times

09 Julho 2018 | 10h15

BOSTON - Hoppy, um jovem panda vermelho, o primeiro paciente do dia, foi anestesiado e carregado até a sala de exames para uma avaliação.

Então Mildred, a gansa de face branca de 24 anos, veio andando com dificuldade pelo chão da salinha enquanto os veterinários analisavam seus movimentos. Dez dias depois do último exame, não foi possível constatar melhora. A substituição das articulações não seria recomendável para ela. Quem sabe a acupuntura poderia ajudar?

O paciente seguinte foi Sofina, um lêmur diabético de 8 anos que se dera bem com doses de insulina durante seis anos, mas que ultimamente apresentava novos sintomas preocupantes.

Era uma manhã como qualquer outra para três veterinários no Franklin Park Zoo, mas bastante inusitada para os três estudantes da Faculdade de Medicina de Harvard que estavam ao lado deles. Os estudantes faziam um estágio no zoológico nos últimos meses de treinamento. A finalidade da clínica eletiva é reforçar a ideia de que animais e pessoas compartilham do mesmo ambiente.

Surtos de doenças infecciosas como o Ebola e a doença de Lyme são exemplos terríveis da vulnerabilidade das pessoas a um ecossistema disfuncional, segundo Eric Baitchman, do Zoo New England, que opera o Franklin Park Zoo no centro de Boston. “A maioria dos estudantes de Medicina não conhece este lado da situação”, disse Baitchman, observando que o desmatamento causado pelo homem, o consumo de carne de animais selvagens e outras mudanças que ocorrem no habitat por causa do ser humano podem desencadear estas crises. “As atividades humanas podem influir diretamente em nossa saúde”, afirmou.

Segundo Sharon Deem, diretora do Zoológico de St. Louis, Missouri, as pessoas têm uma profunda necessidade de conviver com os animais e com a natureza e mencionou como exemplo os cães de terapia, e o poder restaurador de uma caminhada pela mata. “Essas coisas têm efeitos físicos e psicológicos que não podemos ignorar”, afirmou.

Os estudantes que concluíram o estágio em Boston contaram que ficaram surpresos com o que aprenderam em um mês no zoológico. Um deles examinou um gorila com uma doença cardíaca, outro tratou de um morcego que quebrara uma asa, e outro ainda passou parte de seu primeiro dia lutando para impedir que uma tartaruga africana saísse de uma máquina de raios X enquanto ele tentava examinar se ela tinha cálculos na bexiga.

“Vendo como a tartaruga estava relutante me ajudou a sair da minha casca”, disse Gilad Evrony, o primeiro estudante de medicina de Harvard a fazer um estágio. Evrony, atualmente médico residente em pediatria no Mt.Sinai Hospital de Nova York, escreveu a respeito de sua experiência no zoológico, em 2016, na revista Journal of the American Medical Association. “Nunca teria imaginado que passaria meu ultimo mês da faculdade de Medicina fazendo ultrassons fetais em uma gorila grávida, sangrando uma anta de 250 quilogramas que sofria de hemocromatose, cuidando de um suricate com falência cardíaca e investigando os mistérios da medicina no reino animal”, escreveu no artigo.

E observou: “Em quase todas as doenças que vi no zoológico, a simples indagação sobre a razão pela qual determinadas espécies, humanas ou não humanas, são suscetíveis a elas, enquanto outras não são, levantou possibilidades de pesquisa imediatas”.

Em uma entrevista, ele disse: “Na realidade, tive de superar alguns preconceitos que acho que são comuns em grande parte da medicina, por exemplo, que a psicologia e as doenças humanas são peculiares do homem e que a medicina veterinária não tem muito a nos ensinar”.

O médico Travis Zack, atualmente residente de Medicina interna na Universidade da Califórnia, em San Francisco, revelou que fez algumas descobertas a respeito de uma rara forma de leucemia linfocítica crônica humana tratando de um cisne negro de 13 anos, Merlot, que sofria da mesma doença. O cisne parecia estar respondendo bem a um medicamento contra a leucemia humana.

“Nós julgamos que estas sejam doenças exclusivamente humanas, mas, na realidade, elas ocorrem em todo o reino animal”, reconheceu Zack.

No hospital do zoológico, os estudantes colocaram Hoppy na mesa de metal para ser examinado, e o médico Wataru Ebina introduziu um tubo na garganta do panda para que ele pudesse respirar enquanto estava anestesiado para a realização do exame. A equipe verificou seus olhos: as pupilas pareciam saudáveis; os ouvidos, sem problemas; o abdome, sem “nenhuma massa aparente”. Apertaram suas patas peludas para inspecionar cada garra.

“É sempre a mesma anatomia”, disse Ebina. “Ver um animal que parece completamente diferente, mas, na realidade, assemelha-se a nós, reforça os conceitos anatômicos que aprendemos, o que é muito útil para a minha formação futura”.

Mais tarde, Alex Becket, veterinário associado, informou que Hoppy parecia estar indo muito bem. Ele começara a se limpar e voltava ao normal. Embora o programa vise o ensino da interdependência das espécies, Hoppy não parece ter entendido a mensagem. “Ele tenta tirar de si o fedor dos humanos”, disse Becket.

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