Charly Triballeau/Agence France-Presse - Getty Images
Charly Triballeau/Agence France-Presse - Getty Images

Aproveitar as férias longe do celular é benéfico

Aplicativos tiram improviso e casualidade desse precioso tempo de descanso

Tom Brady, The New York Times

19 Agosto 2018 | 10h00

Com a temporada de férias em andamento para muitos americanos e europeus, ofereço um conselho: esqueçam o celular.

Como escreveu Catherine Price no Times: “Se você vai passar as férias de olho no Instagram ou respondendo e-mails, por que sair de casa?”

Ela oferece as seguintes dicas para quem quer deixar o celular de lado durante as férias: decida o que deseja fazer com o celular, seja tirar fotos, encontrar uma localização ou dar notícias no trabalho; não deixe que seu cérebro faça você abrir as redes sociais, para receber aquela dose de dopamina tão ansiada; apague os aplicativos que você abre obsessivamente; reorganize a tela inicial para que ela exiba apenas aplicativos práticos e livres de tentações; desative todas as notificações; e lembre-se, a vida é mais que a internet.

“Temos a tendência de pensar que as únicas experiências que valem a pena são aquelas com classificação de cinco estrelas", escreveu Catherine. “Mas as experiências mais memoráveis nunca serão encontradas no Yelp. Permita-se um pouco de improviso e casualidade.”

Seth Kugel se queixa de que as redes sociais eliminaram boa parte desse improviso nas viagens, impedindo nossa interação com os habitantes locais e nos levando a usar informações encontradas online para mapear nosso itinerário, o que significa menos surpresas e mais descobertas em primeira mão.

Kugel escreveu no Times, “‘Descobri uma tratoria caseira em Roma’ agora costuma significar apenas ‘Li a respeito dela no Yelp’”.

Mesmo lugares remotos como o Bobodia, um restaurante halal que serve frango no centro de Bobo-Dioulasso, Burkina Faso, são documentados na internet.

“Não hesite em pedir os rins e fígado com salsinha!” dizia uma resenha do TripAdvisor, de acordo com Kugel.

Se estivéssemos na África Ocidental e descobríssemos um lugar para almoçar que servisse miúdos, teríamos uma história melhor para contar se o tivéssemos descoberto sozinhos, diz ele. “Se as melhores experiências de viagem ocorrem quando as coisas não saem como o planejado", escreveu Kugel, “por que planejamos tanto?”

Não fique desesperado ao se ver longe de casa, perdido e sem celular, disse Catherine: há outras opções.

“Se estiver desesperado para acompanhar o noticiário, compre um jornal", escreveu ela. “Se precisa de um lugar para comer, ou se está perdido e precisa de orientação, peça ajuda a uma pessoa de verdade.”

O poço sem fundo da informação nas pontas dos dedos e das experiências “autênticas” oferecidas por uma agência de turismo, que planejam cada minuto das viagens, acabaram com boa parte da liberdade aproveitada nas férias.

Este ano, algumas pessoas que normalmente preferem experiências de status estão abrindo mão desse tipo de viagem em nome de um “hiato criativo".

Trent Preszler, diretor executivo de uma vinícola de Long Island, deixou de lado a observação de pinguins nas ilhas Galápagos ou as caminhadas no Deserto de Atacama, no Chile. Neste verão, ele vai construir à mão uma canoa de madeira de 5 metros inspirada nos modelos do século 19.

A modelo, correspondente de TV e consultora de moda Tamiko White vai abrir mão das férias em Martha’s Vineyard para escrever um livro. Reed Levine, médico de Los Angeles, tenta dominar a arte da gastronomia molecular.

Atividades desse tipo proporcionam a esses profissionais de destaque outro tipo de símbolo de status.

“É como passar férias de luxo em casa, mas, no final, terei um barco como lembrança", disse Preszler, 41 anos, ao Times.

Um problema da férias típicas é nos mostrar o quanto o nosso dia a dia pode ser comparativamente deprimente, disse Honor Jones ao Times.

“Temos vontade de dizer coisas como, ‘Preciso de uma escapada’”, escreveu ela. “Mas escapar do quê? Da nossa vida.”

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