Alan Berner / The New York Times
Alan Berner / The New York Times

Aquecimento da água ameaça sobrevivência do salmão rei

Barragens também estão tornando a migração do salmão Chinook ainda mais mortal - e ameaçando outras espécies

Jim Robbins, The New York Times

19 de outubro de 2019 | 06h00

NORTH FORK, IDAHO - Middle Fork do Salmon River, um dos rios mais bravios dos Estados Unidos, é o habitat por excelência desta espécie. Águas gélidas, transparentes, que se formam com o degelo das neves, despencam dos montes do Salmon River no rio repleto de grandes pedras, e é protegido em toda a federação.

O último dos salmões Chinook que desovaram na temporada primavera-verão chegou aqui em junho, depois de um esforço hercúleo nadando rio acima por 1,3 mil quilômetros. Agora, os grandes peixes - que chegam a pesar 14 quilos - encerram os seus rituais de acasalamento. No próximo ano, haverá uma nova geração de Chinook. Apesar deste refúgio primitivo de 180 quilômetros nas montanhas, os peixes que regressaram aqui para se reproduzir e morrer, há incontáveis gerações, correm um enorme perigo.

Cerca de 45 mil a 50 mil Chinook nasceram na primavera-verão nos anos 1950. Atualmente, a média é de cerca 1,5 mil e o seu número está em declínio. E não apenas aqui: os peixes nativos estão em queda livre por toda a bacia do Rio Columbia. A sua situação é tão dramática que muitos grupos pedem a retirada de quatro grandes barragens a fim de impedir que estes peixes desapareçam.

“O Rio Columbia foi outrora o habitat nativo dos chinooks mais produtivos do mundo”, disse Russ Thurow, um cientista que pesquisa a pesca para o Serviço  Florestal dos EUA. “Agora, estes peixes poderão ter apenas quatro gerações antes de desaparecer”, explicou. “Talvez 20 anos”.

Treze espécies de salmão e trutas arco-íris estão na lista de peixes ameaçados ou em vias de extinção na bacia do Columbia, uma área que compreende partes de Idaho, Oregon, Washington, Montana e Columbia Britânica. Os salmões são cruciais como fonte de alimentação para animais como ursos, águias e até insetos.

Este grupo de beneficiários inclui a população ameaçada das orcas, as baleias assassinas, ao longo da costa Oeste, que sobrevivem comendo até 30 chinooks por dia no inverno e na primavera. Muitos especialistas acreditam que as orcas estejam morrendo de inanição por causa do declínio do salmão selvagem. Somente este ano, o seu número caiu de 76 para 73, alarmando conservacionistas e cientistas.

“A melhor coisa que se poderia fazer para conseguir mais chinooks da primavera para as orcas seria  acabar com aquelas quatro barragens inferiores”, segundo Don Chapman, um cientista da pesca hoje aposentado. “Elas matam inúmeros filhotes que descem rio abaixo e alguns adultos que nadam rio acima”.

Os salmões estão nadando em águas aquecidas, com consequências incertas, mostra um estudo recente. Romper as barragens ajudaria também a manter a temperatura das águas mais fria enquanto ocorre a mudança climática, afirmou Chapman. O Chinook, ou salmão rei, é o membro mais numeroso da família dos salmões da América do Norte. Os chinooks empreendem uma migração épica percorrendo milhares de quilômetros através do Rio Columbia até as Ilhas Aleutas no Alasca, e de volta até as Montanhas Rochosas.

Acredita-se que, antes do século 20, de 10 milhões a 16 milhões de salmões adultos e trutas arco-íris retornavam anualmente para o sistema do Rio Columbia. Segundo algumas estimativas, atualmente, apenas 2% deles conseguem. Embora a criação, o desmatamento e a pesca comercial do salmão, no início do século 20, tenham provocado um terrível impacto para a espécie, o maior impacto para os peixes selvagens se dá em decorrência da operação de oito grandes barragens - quatro no Rio Columbia e quatro no Rio Snake, um seu importante tributário.

As quatro barragens do Rio Snake elevam as temperaturas da água e bloqueiam as rotas da migração, aumentando a mortalidade dos peixes. A mudança climática também contribui para elevar a temperatura dos rios e do oceano, o que poderá ser mortal para os peixes. Em 2015, por exemplo, a água inusitadamente quente matou, ao que se calcula, 250 mil salmões sockeye (salmão-do-pacífico).

Os especialistas tentaram compensar a perda dos peixes da Columbia instalando escadas que permitem que eles superem as barragens, e também transportando-os em barcaças e caminhões de maneira a evitar os obstáculos. Os esforços não impediram o seu declínio, embora nas últimas décadas tenham sido gastos mais de US$ 16 bilhões para a sua recuperação. Agora, a maioria dos cientistas passou a cogitar a retirada das barragens.

As agências federais responsáveis pelo manejo da pesca no Columbia afirmam que a retirada das barragens do Rio Snake não é fundamental para a sobrevivência do salmão e que os peixes criados em incubadoras compensaram a perda dos espécimes de rio para as orcas. Os que querem manter as barragens  apontam as mudanças nos oceanos como um dos principais fatores do declínio do salmão.

Thurow afirma que o Middle Fork do Rio Salmão será crucial com o aquecimento da água. Os riachos de grande altitude devem aquecer menos, e os ali os chinooks encontrarão um refúgio de água gélida - e se se adaptarem, será uma base para voltar a povoar outros cursos de água. “A perspectiva não é boa, mas estes peixes me dão alguma esperança”, disse Thurow. “Apesar de todos os obstáculos, eles continuam aqui”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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