(Greta Rybus/The New York Times)
(Greta Rybus/The New York Times)

Aquecimento da Terra ajudou pescadores de lagostas, mas agora poderá prejudicá-los

A mudança climática ameaça uma indústria de meio bilhão de dólares

Livia Albeck-Ripka, The New York Times

18 Julho 2018 | 10h15

VINALHAVEN, Maine - Às 3h30 da madrugada, certo dia em maio, os pescadores de lagostas tomavam café da manhã. Lá fora, suas embarcações balançavam na água, iluminadas apenas pelas luzes amarelo pálido do outro lado da baía. Ventava, demais para pescar, mas mesmo assim, um por um, os pescadores da ilha começaram a chegar no café Surfside. Diante de panquecas e ovos, comentavam com vozes ainda sonadas a pesca da temporada até aquele momento.

Alguns deles consideraram que era muito cedo ainda, a temporada mal começara. Outros temiam que se tratasse de um sinal do que iria acontecer dali em diante. Desde o início dos anos 80, a mudança climática vem aquecendo as águas frias do Golfo do Maine na temperatura ideal para as lagostas, contribuindo para quintuplicar os ganhos da pesca na região até meio bilhão de dólares. Entretanto, no ano passado, os desembarques de lagostas caíram 10 mil toneladas, para 50 mil.

Agora, cientistas e pescadores temem que as águas aqueçam demais para as lagostas, e se perguntam até quando este crescimento poderá durar.

“A mudança do clima de fato nos ajudou nos últimos 20 anos”, disse Dave Cousens, que deixou a presidência da Associação dos Pescadores de Lagostas do Maine, em março. Mas, acrescentou, “ela irá nos matar, provavelmente nos próximos 30 anos”.

Segundo os cientistas, outros fatores contribuíram para a expansão: a pesca excessiva de predadores como o bacalhau e os próprios esforços dos pescadores de lagostas preocupados com a preservação. Mas sem a mudança climática, a pesca da lagosta no estado não seria tão bem sucedida quanto é hoje, afirmou Richard A. Wahle, professor da Universidade de Maine.

O Golfo de Maine aqueceu mais rapidamente do que 99% dos oceanos do mundo, em grande parte deste século, por causa da mudança do clima associada à variação natural. Até 2050, este aquecimento poderá reduzir as populações de lagostas do golfo em até 62%, informa o Instituto de Pesquisa do Golfo do Maine.

Em uma manhã nublada, Cousens, 60, retirou da água as gaiolas e ficou decepcionado, estavam vazias. Era o começo da temporada, e ele sabia que encontraria poucas lagostas. Mesmo assim, sentiu certo desânimo.

Nos anos 90, contou Cousens, apanhava 36 toneladas de lagostas por ano. Mas, no ano passado, seus ganhos caíram 30%. “Não é possível continuar ganhando isto muitos anos seguidos”, afirmou.

À medida que as temperaturas do golfo subiram, as condições favoráveis para a reprodução das lagostas agora são encontradas no nordeste, na direção do Canadá.

Mas o filho de Cousens, Samuel, de 24 anos, não está preocupado, embora o seu barco, o Adrenaline, represente uma dívida de 200 mil dólares. “Baixei a cabeça e fui trabalhar”, afirmou.

Frequentemente, Samuel pesca 14 horas seguidas por dia, a 55 quilômetros do continente. Esta se tornou a norma para os pescadores mais jovens, que se aventuram a distâncias muito maiores em barcos maiores, mais rápidos e mais caros. As populações de lagostas não só estão indo para nordeste como se multiplicam em águas mais profundas à medidas que a temperatura da água do mar vai aquecendo.

Em alto mar, a pesca é um risco maior e proporciona ganhos maiores, disse Cousens. Quando o pescador puxa uma armadilha até o barco, afirmou, a sensação é empolgante. Ou você vê “sinais de dólares ou sujeira”.

A pesca da lagosta sempre foi um negócio cheio de altos e baixos, mas as medidas de preservação que os pescadores do Maine vêm adotando há muito tempo podem contribuir para evitar o colapso completo, de acordo com os cientistas.

Os pescadores marcam as caudas das fêmeas prenhas e as soltam, uma prática da marcação (V-notching) que começou de maneira voluntária no final do século 19 e mais tarde se tornou lei. Eles devolvem as lagostas que têm as marcas em V, juntamente com as que medem menos de nove centímetros ou mais de 12, segundo a órbita ocular na base da cauda. Estas medidas ajudam a preservar as reprodutoras, garantindo que as lagostas continuem a repovoar as águas.

Um estudo realizado no ano passado mostrou que estas medidas conservacionistas poderão salvar a indústria de um declínio considerável no futuro.

“Elas favorecerão em parte a capacidade de resistir às mudanças que na nossa opinião estão para vir”, disse Andrew Pershing, o cientista chefe  do Instituto de Pesquisa do Golfo do Maine.

Considerando os sinais sinistros, alguns estão partindo para outras atividades. Neste verão, Krista Tripp, 33, está comprando uma fazenda de ostras para complementar seu ganho com a pesca da lagosta.

Diversificar é difícil, ponderou Krista. Ela sempre quis ser uma pescadora de lagostas, desde que observava o pai e o avô erguendo as armadilhas da água, medindo e prendendo as garras das lagostas, numa espécie de dança.

“Eram tão práticos, tão rápidos”, ela disse. “Era isto o que eu queria fazer”. Neste verão, ela pretende passar as manhãs pescando lagostas, e à tarde dedicar-se à fazenda, vadeando pela lama dos pântanos.

Enquanto isso, os pescadores a bordo do Vinalhaven continuarão levantando de madrugada para tomar café no Surfside. O sol aparecerá, e eles irão ao mar. Se conseguirão encher sempre as suas armadilhas é outra questão.

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