João Silva/The New York Times
João Silva/The New York Times

Aquecimento global afeta duramente as regiões áridas da África

Mudança climática tem grande impacto no continente, colocando milhões de pessoas em risco

Somini Sengupta, The New York Times

18 Março 2018 | 10h00

KAKUMA, QUÊNIA - Estas planícies áridas, cobertas de areia e pedras sempre conheceram tempos difíceis, com os rios secos, as vacas cada dia mais magras, até que os seus ossos acabam espalhados sob as árvores de acácia. Mas os tempos difíceis sempre foram seguidos por tempos normais, quando chove o bastante para recompor os rebanhos, pagar as dívidas, dar leite às crianças e comer carne algumas vezes por semana.

Agora, os tempos mudaram. O norte do Quênia - assim como os seus áridos vizinhos no Chifre da África - tornou-se visivelmente mais seco e mais quente, e os cientistas estão encontrando as pegadas do aquecimento global. Segundo uma recente pesquisa, a região secou mais depressa no século 20 do que em qualquer outra época dos últimos dois mil anos. Quatro secas graves castigaram a área nestes últimos vinte anos, uma rápida sucessão que levou milhões de pessoas entre as mais pobres do mundo à beira da inanição.

Um povo há séculos perseguido pela pobreza e pela guerra se encontrou na linha de frente de uma nova crise: a mudança climática. Mais de 650 mil crianças até os cinco anos sofrem em um grave estado de desnutrição em vastas regiões do Quênia, Somália e Etiópia. O risco da fome espreita as populações destes três países; pelo menos 12 milhões de pessoas dependem da ajuda para se alimentar, segundo a ONU.

Se não há chuva, não há leite

De manhã cedo, às margens de um riacho seco, com o cheiro de fuligem e areia no ar, uma avó, Mariao Tede, está diante de uma pilha de cinzas escuras, fazendo carvão. A mulher magérrima, que nem lembra da própria idade, conta que já teve 200 cabras, o bastante para vender os cabritinhos no mercado e comprar fubá para a família. Criar gado é tradicionalmente a principal fonte de renda na região, porque aqui crescem poucos produtos agrícolas.

Muitas das suas cabras morreram na seca de 2011, e muitas outras na de 2017. Quantas sobraram? Ela mostra cinco dedos. Não o bastante para vender. Nem o bastante para comer. E agora, na estação seca, nem mesmo o bastante para obter leite. “Só quando chove consigo tirar uma xícara ou duas, para as crianças”, ela disse.

A seca mais recente levou alguns pastores a roubar gado das comunidades rivais, ou invadir furtivamente as reservas naturais para que os seus rebanhos famintos pudessem pastar. A água se tornou tão escassa neste vasto condado - conhecido como Turkana, no noroeste do Quênia - que buscá-la, a tarefa das mulheres, significa caminhar em média 10 quilômetros por dia.

Mariao agora pega galhos para fazer carvão, o que está roubando da terra suas poucas árvores, de modo que quando as chuvas chegarem, se chegarem, a água não será absorvida pela terra.

Em uma aldeia com uma bomba de água, Mohammed Loshani mostra o seu registro de perdas. Das 150 cabras que possuía há pouco mais de um ano, restam apenas 30. Durante a seca de 2017, em um único mês morreram dez, e no seguinte, 12.

“Se tivermos chuva, vou poder refazer o meu rebanho”, ele disse. “Se não, até as poucas cabras que tenho irão morrer”.

A necessidade de se adaptar

Quando Gideon Galu, um meteorologista queniano da Famine Early Warning Systems Network, a FewsNet, analisa os 30 anos de dados da meteorologia, ele não vê a condenação dos pastores e agricultores do seu país. Vê a urgente necessidade de se adaptarem radicalmente: plantar forragem para os tempos magros, construir reservatórios para o armazenamento de água, mudar para culturas que se adaptem bem ao solo do Quênia, e não apenas o milho, o produto básico.

As previsões de chuva não são boas. “Estas pessoas vivem no limite”, afirmou. “Uma redução até mesmo mínima da chuva, é o fim para elas”.

Seu colega na FewsNet, Chris Funk, um climatologista da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, relacionou a seca recente ao aquecimento a longo prazo do Oceano Pacífico ocidental, bem como ao aumento das temperaturas da terra na África Oriental, ambos consequências da mudança climática induzida pelo homem. O aquecimento global, concluiu, produzirá mais perturbações climáticas graves, conhecidas como El Niño e La Niña, o que acarretará “uma seca prolongada e a insegurança dos alimentos”.

Jessica Tierney, paleoclimatologista da Universidade de Arizona, concluiu que agora a região esta secando mais rapidamente do que em qualquer outro momento dos dois últimos milênios e que a tendência pode estar ligada à atividade humana.

James Oduor, diretor da Agência Nacional da Administração da Seca do Quênia, tem um mapa do seu país do tamanho de um cartão postal, codificado por cores, para explicar a escala das dificuldades: laranja escuro para as zonas áridas, laranja claro para as zonas semiáridas, e branco para o restante.

Mais de 75% da terra, destaca, é laranja escuro ou claro, o que significa que sofre de grave escassez de água nas melhores épocas e durante as secas, ou seja, um situação extremamente perigosa. “A maior parte do meu país é afetada pela mudança climática e pela seca”, ele disse. “E as secas são frequentes. Duram muito tempo. Afetam uma enorme área”.

A Etiópia está em uma situação ainda pior. A FewsNet alertou para a persistência “da emergência da segurança dos alimentos” no sudeste do país, onde não choveu nos três últimos anos, e a guerra provocou, ao que se calcula, a fuga de 200 mil pessoas.

Na Somália, depois de décadas de guerras e de deslocamentos da população, 2,7 milhões de pessoas enfrentam o que a ONU define como uma “grave insegurança de alimentos”. Durante a seca de 2017, os esforços da ajuda internacional evitaram a carestia. Na seca anterior, de 2011, cerca de 260 mil somalis morreram de fome, a metade deles crianças.

“Morreram cinco. Depois, 10”

Longe da principal rodovia em Turkana e no vizinho Condado de Isiolo, no norte do Quênia, caminhos de areia levam para planícies arenosas. O pó no ar fustiga as pessoas.

Os pastores percorreram estas terras durante séculos. Os mais antigos lembram das secas do passado. Os animais morriam. As pessoas morriam. Mas depois vinham as chuvas, e depois de quatro ou cinco anos de chuvas normais, as terras voltavam a se cobrir de culturas. Agora, as secas são tão frequentes que reconstituir os rebanhos é praticamente impossível.

“A gente acorda, uma manhã, e cinco animais estão mortos, depois, 10”, conta David Letmaya, na clínica do Condado de Isiolo onde a sua família veio para a distribuição de sacos de soja e fubá.

Atualmente, pastores como Letmaya percorrem distâncias cada vez maiores, às vezes brigando com rivais de Turkana por causa do pasto e da água, outras vezes, correndo o risco de encontrar um elefante ou um leão do parque nacional, que está ao lado.

Quase todas as noites, os guardas florestais do parque ouvem tiros por causa dos pastores que invadem os rebanhos dos outros.

No centro de saúde de Isiolo, todo mundo sabe a conta precisa de suas perdas. Uma mulher disse que perdeu suas três vacas no ano passado e só ficou com três cabras. Outra contou que o marido foi morto alguns anos atrás em uma briga com pastores de Turkana por causa de pasto e, no ano passado, morreu a última das suas vacas. Uma terceira disse que perdeu 20 das suas 30 cabras na última seca.

Uma a uma, arrastando caixas de soja e fubá com o selo do Programa Mundial da Alimentação, as mulheres voltaram para casa atravessando as planícies secas e os leitos secos dos rios, descansando algumas vezes embaixo de uma acácia carregada de ninhos que os pássaros tecelões fizeram com mato seco.

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