Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

Aquecimento global coloca em risco paraíso no Pacífico

Pesca excessiva e desmatamento também ameaçam ilha

Ken Belson, The New York Times

28 Novembro 2018 | 06h00

Entre o aeroporto internacional de Nadi, Fiji, e a capital do país, Suva, a estrada litorânea na ilha de Viti Levu está repleta de resorts e ônibus de turismo. Suva é uma movimentada cidade portuária visitada o ano todo por cruzeiros que deixam ali milhares de turistas.

O fluxo constante de chegada dos navios é uma das principais fontes de renda. Mas a dependência do país em relação ao turismo, somada ao desenvolvimento vigoroso e aos efeitos do aquecimento global, conspiraram contra o frágil ambiente de Fiji.

O país enfrenta o desmatamento, práticas de pesca insustentáveis, e espécies invasivas que levaram à destruição dos recifes de coral. A elevação no nível do mar destruiu terras férteis e obrigou os moradores a mudar.

Na ilha de Kadavu, varrida pelo ciclone tropical Keni em meados de abril, os barcos na lagoa estavam impossibilitados de navegar. Uma piscina em construção parecia mais uma ruína. A tempestade chegou apenas uma semana depois de outro ciclone, Josie.

O que surpreendeu os ilhéus foi o fato de as tempestades terem chegado semanas depois do suposto fim da temporada de ciclones. Para muitos moradores locais, isso é evidência das mudanças nos padrões climáticos provocadas pelas temperaturas cada vez mais altas, deixando a ilha cada vez mais vulnerável.

“Nós, literalmente, dissemos, ‘Vamos construir a piscina porque a temporada de ciclones chegou ao fim’, e então as tempestades vieram", disse Luke Kercheval, um dos proprietários do Matava. “Recebemos mais chuva em uma semana do que alguns países recebem durante todo o ano. Não é normal.”

O tópico da mudança climática estava por toda parte em Fiji, até no aeroporto, em Nadi, onde um cartaz dizia “Aeroportos enfrentando mudança climática". O primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama, é o presidente atual da COP23, a Conferência das Nações Unidas para a Mudança Climática. Um quarto das espécies de aves do país e dois terços de seus anfíbios estão ameaçados ou em risco por causa da pesca excessiva e da alta da temperatura da água do mar.

Dick Watling, fundador da Nature Fiji, grupo dedicado à preservação ambiental, disse que os líderes de Fiji, como os de outras áreas do Pacífico, se tornaram especialistas em obter doações de países mais ricos. Assim, ele não se surpreendeu ao ver que a maioria dos problemas do país é atribuída à mudança climática, pois isso pode atrair ajuda estrangeira, ao mesmo tempo permitindo que legisladores deixem de lado questões como o desenvolvimento e a frouxa regulamentação ambiental.

“O COP23 é o melhor programa de marketing de turismo que já produzimos", disse Watling.

Os indícios do ecoturismo eram evidentes em Matava. A maior parte da energia era gerada por painéis. As frutas e legumes são cultivados no local e os peixes são apanhados nas imediações. Os ovos são das galinhas no próprio resort.

Mas o modelo sustentável pouco fez para proteger o local do ciclone Keni. As galinhas foram varridas e as hortas, destruídas. Vários funcionários perderam suas casas. O estrago nos recifes dificultou a pesca.

No Outrigger Fiji Beach Resort, a cerca de duas horas e meia de carro de Suva, o recife foi afetado pelas tempestades e pela água poluída de um riacho que deságua na região. Com a ajuda de uma organização, o hotel construiu jardins de coral dos quais os hóspedes ajudam a cuidar.

O israelense Sefano Katz, chegando da Austrália, é um especialista em ecossistemas de coral. Ele ajuda os moradores locais da ilha de Beqa na preservação do seu recife, com cerca de 15 quilômetros de largura.

Ensina crianças a respeito da compostagem e da restauração dos manguezais, que ajudam a proteger a costa da erosão. Trabalha com idosos para melhorar o saneamento. Os aldeões estão também removendo do recife uma estrela-do-mar de uma espécie invasiva conhecida como coroa-de-espinhos, que se alimenta de coral. 

Filipe Kirikirikula, 60 anos, diretor do conselho de idosos, disse que os dias de pesca no recife usando um arpão para apanhar a janta estão desaparecendo.

Kirikirikula disse apoiar a missão de Katz, que, de acordo com ele, exige a mudança de hábitos antigos. 

“A maioria das pessoas simplesmente abusa do meio ambiente", disse ele. “É bem difícil ensinar a elas a respeito da preservação. Aqui, cada um tem sua liberdade.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.