Glacier Archaeology Program, Innlandet County Council via The New York Times
Glacier Archaeology Program, Innlandet County Council via The New York Times

À medida que mudanças climáticas esquentam a Terra, a história humana ressurge da neve

A mudança climática está revelando artefatos e animais congelados há muito tempo aos arqueólogos

Franz Lidz, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 05h00

Nos últimos séculos, os povos Yupiks do Alasca contaram histórias horríveis de um massacre que ocorreu durante os Dias de Guerra do Arco e Flecha, uma série de batalhas longas e muitas vezes brutais na costa do Mar de Bering e no Yukon.

De acordo com um relato, a carnificina começou quando uma aldeia enviou um destacamento de guerra para atacar outra. Mas os moradores haviam sido avisados e armaram uma emboscada, exterminando o grupo. Os vencedores então atacaram a cidade indefesa, queimando-a e massacrando seus habitantes. Ninguém foi poupado.

Nos últimos 12 anos, Rick Knecht conduziu uma escavação em um local chamado Nunalleq, cerca de 400 milhas a oeste de Anchorage, no Alasca.

“Quando começamos, a esperança era aprender algo sobre a pré-história Yupik cavando em uma aldeia comum”, disse Knecht, arqueólogo da Universidade de Aberdeen, na Escócia. “Mal sabíamos que estávamos cavando em algo que se aproximasse do equivalente Yupik de Tróia.”

A descoberta mais surpreendente foi a de restos carbonizados de uma grande casa comunal de grama. O solo era preto e argiloso, repleto de centenas de pontas de flechas de ardósia, como em um tiroteio pré-histórico.

Ao todo, os pesquisadores e os Yupiks nativos que vivem na área desenterraram mais de 100.000 artefatos bem preservados, assim como a carniça chamuscada de dois cães e os ossos espalhados de pelo menos 28 pessoas, quase todas mulheres, crianças e idosos. Claramente, vários deles haviam sido arrastados para fora de casa, amarrados com corda de grama e assassinados - alguns decapitados.

"É uma cena de homicídio complexa", disse Knecht. "É também um raro e detalhado exemplo arqueológico de guerra indígena".

Até recentemente, o local estava ultracongelado no subsolo conhecido como permafrost. À medida que as temperaturas globais sobem, o permafrost e as geleiras estão derretendo e erodindo rapidamente em vastas áreas da Terra, liberando muitos dos objetos que haviam absorvido e revelando aspectos da vida em um passado antes inacessível.

“O mundo circumpolar está, ou estava, cheio de locais milagrosamente preservados como Nunalleq”, disse Knecht. “Eles oferecem uma janela para a vida inesperadamente rica de caçadores e coletores de forragem pré-históricos como nenhum outro.”

A arqueologia glacial é uma disciplina relativamente nova. O gelo foi literalmente quebrado durante o verão de 1991, quando alpinistas alemães nos Alpes de Ötztal avistaram um cadáver cor de chá embutido no lado italiano da fronteira com a Áustria. Inicialmente confundido com um montanhista da época morto em um acidente, Ötzi, o Homem de Gelo, como passou a ser chamado, foi submetido ao processo de datação por carbono, que revelou sua morte há aproximadamente 5.300 anos.

Em 2006, um outono longo e quente na Noruega resultou em uma explosão de descobertas na cordilheira Jotunheimen repleta de neve, lar dos Jötnar, os gigantes de rocha e gelo da mitologia nórdica. De todos os detritos desalojados, o mais intrigante era um sapato proto-Oxford de 3.400 anos, provavelmente feito de couro de rena.

A descoberta do sapato da Idade do Bronze significou o início da pesquisa glacial nos picos do condado de Innlandet, onde o Programa de Arqueologia Glacial financiado pelo estado foi iniciado em 2011. Fora do Yukon, é o único projeto de resgate permanente para descobertas no gelo.

A arqueologia glacial difere de sua prima de forma crítica. Os pesquisadores com o programa geralmente conduzem o trabalho de campo apenas em um curto espaço de tempo, do meio de agosto ao meio de setembro - entre o degelo da neve velha e a chegada de uma nova.

“Se começarmos muito cedo, a maior parte da neve do inverno anterior ainda cobrirá o gelo antigo e diminuirá a chance de descobertas”, disse Lars Holger Pilo, codiretor do programa. “Começar tarde demais também é arriscado. Podemos pegar a neve do início do inverno e a temporada de campo pode acabar antes de começarmos.” As descobertas glaciais tendem a se limitar ao que os arqueólogos podem colher no solo previamente bloqueado pelo gelo.

Quando o programa começou, as descobertas eram principalmente da Idade do Ferro e medieval, de 500 a 1.500 anos atrás. Mas, à medida que o derretimento aumenta, períodos cada vez mais antigos da história estão sendo expostos. “Agora derretemos até a Idade da Pedra em alguns lugares, com peças de até seis milênios”, disse Pilo. “Estamos voltando no tempo.”

As descobertas glaciais espetaculares envolvem invariavelmente sorte, como Craig Lee, um arqueólogo do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina, pode atestar. Quatorze anos atrás, na montanha de gelo fora do Parque Nacional de Yellowstone, ele avistou a parte anterior de uma lança chamada dardo atlatl, esculpida a partir de uma muda de vidoeiro há 10.300 anos. A arma de caça primitiva é o artefato orgânico mais antigo a ser recuperado de um pedaço de gelo.

“No Yukon, as descobertas nos pedaços de gelo nos deram novos insights sobre a tradição pré-europeia de trabalho com cobre pelos povos indígenas”, disse William Taylor, arqueólogo do Museu de História Natural da Universidade do Colorado em Boulder. “Nas Montanhas Rochosas, os pesquisadores recuperaram de tudo, desde árvores congeladas que documentam mudanças importantes no clima e na vegetação até ferramentas de caça de alguns dos primeiros povos do continente.”

A maioria das descobertas é feita a partir de pedaços de gelo. A diferença básica entre uma geleira e um pedaço de gelo é que uma geleira se move. Um pedaço de gelo não se move muito, o que o torna um preservador mais confiável.

“O movimento constante dentro das geleiras danifica corpos e artefatos e, eventualmente, despeja os detritos na desembocadura do bloco de gelo”, disse Pilo, do Programa de Arqueologia Glacial na Noruega. “Devido ao movimento e à renovação contínua do gelo, as geleiras raramente preservam objetos por mais de 500 anos.”

Lee, do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina, compara a destruição provocada pela degeneração glacial a uma biblioteca em chamas. “Agora não é hora de apontar os dedos uns para os outros, tentando achar a culpa pelo incêndio”, ele disse. “Agora é a hora de resgatar os livros que podem ser salvos para a edificação do futuro.”

É uma piada interna desagradável entre os arqueólogos glaciais que seu campo de estudo tem sido um dos poucos beneficiários das mudanças climáticas. Mas enquanto o recuo do gelo e da neve tornam alguns tesouros pré-históricos brevemente acessíveis, a exposição dos elementos ameaça destruí-los rapidamente.

Uma vez que os materiais orgânicos macios - couro, têxteis, flechas - venham à superfície, os investigadores têm no máximo um ano para resgatá-los para conservação antes que os itens se degradem e se percam para sempre. "Depois que desaparecem", disse Taylor, "a nossa oportunidade de usá-los para compreender o passado e preparar-se para o futuro desaparece com eles".

E. James Dixon, ex-diretor do Museu Maxwell de Antropologia da Universidade do Novo México, concordou. “A dimensão da perda em relação ao número de arqueólogos que pesquisam esses locais é impressionante”, ele disse. “É como uma extinção em massa arqueológica onde certos tipos de locais estão desaparecendo aproximadamente ao mesmo tempo.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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