David Gray/Reuters
David Gray/Reuters

Aquecimento global prejudica recuperação de recifes de coral

Grande Barreira de Corais está perdendo capacidade de recuperação, segundo estudo

Livia Albeck-Ripka, The New York Times

22 de abril de 2019 | 06h00

MELBOURNE, AUSTRÁLIA - Durante milênios, os ecossistemas resistiram a incêndios, enchentes, ondas de calor, secas e até pragas graças à adaptação e reconstrução da biodiversidade de suas comunidades. Mas novas pesquisas mostram que há um limite para a capacidade de resistência até mesmo dos maiores ambientes, e a mudança climática está forçando esse limite em um dos habitats mais preciosos do planeta: a Grande Barreira de Coral.

O estudo, publicado este mês na revista Nature por pesquisadores do Centro ARC de Excelência em Estudos de Corais, na Austrália, monitorou as mortes e nascimentos de corais após ondas de calor oceânicas que provocaram o branqueamento em massa da Grande Barreira de Coral em 2016 e 2017.

Além de muitos corais terem morrido, pela primeira vez os pesquisadores observaram uma queda significativa no número de novos corais se assentando no recife, prejudicando sua capacidade de recuperação. “Pensamos que a Barreira de Coral fosse grande demais para entrar em colapso", disse Andrew Baird, um dos autores do estudo, “mas ela não é".

Desde 1998, a Grande Barreira de Coral, que cobre 344 mil quilômetros quadrados, sofreu quatro eventos de branqueamento em massa, sendo que dois deles ocorreram em anos consecutivos (2016 e 2017). A população de corais pode se recuperar de um branqueamento maciço, mas, para tanto, é necessária uma década.

Se as elevadas emissões de carbono prosseguirem, o branqueamento passará a ocorrer duas vezes por década já em 2035, e anualmente a partir de 2044, de acordo com modelos climáticos da Unesco. “Não é tarde demais para agir, mas o tempo está se esgotando", disse o professor Baird, acrescentando que, na ausência de medidas climáticas drásticas, os recifes serão “fundamentalmente alterados".

O assentamento de jovens corais no recife teve queda de 89% no ano passado, de acordo com o estudo. O tipo de coral que apresentou o declínio mais acentuado no assentamento de novos organismos (93%) é chamado de Acropora, e forma a maior parte do habitat do recife que sustenta milhares de outras espécies, incluindo trutas, peixes-palhaço e outros.

Mas os corais que sobrevivem ao trauma se mostraram mais resistentes a períodos prolongados de calor extremo, de acordo com estudo realizado pelo professor Baird e outros no ano passado. Os cientistas tentam acelerar a reprodução das formas mais resistentes de coral na esperança de usá-las para repovoar o recife.

Embora sejam cruciais, projetos desse tipo têm limitações, disse Mark Eakin, coordenador do programa Coral Reef Watch da Agência Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos. O colapso da Grande Barreira de Coral significaria “a perda de toda uma paisagem oceânica", disse ele, comparando o acontecimento à queda do Império Romano. “É outra prova do efeito devastador da mudança climática", disse Eakin.

O cientista Russ Babcock, de uma agência do governo australiano, disse que o estudo, do qual ele não participou, confirmou os piores medos de muitos cientistas. “Todos os ecossistemas têm algumas coisas em comum, e uma delas é a capacidade de recuperação", disse ele. “A sorte não vai nos salvar". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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