Jamie McGregorSmith / The New York Times
Jamie McGregorSmith / The New York Times

Na Arábia Saudita, água doce é produzida a partir de água marinha

Metade do abastecimento de água doce no país de 33 milhões de habitantes, um dos mais secos do planeta, é feita com água dessalinizada

Henry Fountain, The New York Times

08 de novembro de 2019 | 06h00

THUWAL, ARÁBIA SAUDITA — A água marinha dessalinizada é a força vital da Arábia Saudita — e ainda mais na Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (Kaust, na sigla em inglês), um centro internacional de pesquisa. A dessalinização fornece toda a água doce utilizada na universidade, cerca de 19 milhões de litros por dia. Mas essa quantidade é somente uma pequena fração da produção total da Arábia Saudita. Aproximadamente metade do abastecimento de água doce neste país de 33 milhões de habitantes, um dos mais secos da Terra, é feita com água dessalinizada.

Ao redor do mundo, a dessalinização é vista cada vez mais como uma resposta possível a problemas com a quantidade e a qualidade da água, que vão piorar com o crescimento da população do mundo, o calor extremo e as secas prolongadas associadas às mudanças climáticas. “É uma solução parcial para a escassez de água”, afirmou Manzoor Qadir, cientista ambiental do Programa para Água e Desenvolvimento Humano da Universidade das Nações Unidas. “Essa indústria vai crescer.”

A Arábia Saudita e outros países do Oriente Médio e do Norte da África estão no centro desse crescimento, mas a dessalinização também abriu caminho em partes dos Estados Unidos, notavelmente na Califórnia, e em outros países, incluindo Espanha, Austrália e China. Ainda assim, persiste a questão de onde mais a dessalinização ganhará espaço. “Em países de renda baixa, quase nada está acontecendo”, destacou Qadir.

Dessalinização no mundo

Cerca de 1% da água doce no mundo vem da dessalinização. A primeira razão é o custo. A dessalinização é cara e demanda uma enorme quantidade de energia. Há também custos ambientais da dessalinização: em relação às emissões de gases de efeito estufa, por causa das grandes quantidades de energia utilizadas, e no descarte da salmoura resultante, que, além de ser extremamente salgada, fica impregnada de elementos químicos tóxicos usados no processo.

Caminho da água

Do lado de fora da principal usina de dessalinização da Kaust, que utiliza uma tecnologia chamada osmose reversa, quatro enormes tanques cheios de areia filtram impurezas da água marinha que chega por uma tubulação. Do lado de dentro, o ruído das bombas é ensurdecedor, enquanto a água é submetida a uma pressão equivalente a até 70 atmosferas, dentro de centenas de tubos de aço recheados de membranas em espiral, com ranhuras.

Poros microscópicos nas membranas permitem a passagem das moléculas de água, mas retêm o sal e outras impurezas. Esforços para combinar energia renovável e dessalinização estão nos estágios iniciais. Ainda assim, a Arábia Saudita e outros países ainda mantêm muitas usinas de dessalinização usando antigas tecnologias térmicas que dependem completamente de combustíveis fósseis. Estas usinas fervem a água do mar e condensam o vapor resultante, que é água doce. As indústrias térmicas utilizam gigantescas quantidades de energia e têm o custo de operação muito mais elevado do que as usinas que utilizam as membranas.

Uma pequena usina-piloto em um dos edifícios de pesquisa da Kaust utiliza energia solar para aquecer diretamente a água. O projeto também eleva a amplitude da temperatura de operação, produzindo muito mais água doce que as usinas térmicas convencionais. Seja qual for o método utilizado, todas produzem uma salmoura concentrada como dejeto. A prática atual é bombear essa salmoura de volta ao mar. Mas uma água marinha extremamente salgada pode prejudicar algas e peixes em fase de larva — e pode criar camadas de água sem oxigênio no mar, que podem prejudicar ou matar outras criaturas marinhas.

A indústria argumenta que, instalando os canos de saída adequadamente e equipando-os com difusores e outros aparelhos, a maioria dos problemas pode ser evitada.  Outra abordagem é tentar fazer algo com a salmoura além de descartá-la.  “Acreditamos que a salmoura não serve somente para ser descartada”, indicou Nicolay Voutchkov, conselheiro técnico da Corporação para Conversão da Água Salgada, estatal saudita que é atualmente a maior produtora de água dessalinizada no mundo, responsável por três quartos da produção da Arábia Saudita. “Na realidade, a salmoura é uma valiosa fonte de minerais”, disse.

No instituto de pesquisa da empresa, na costa do Golfo Pérsico, cientistas estudam maneiras de extrair alguns desses minerais. Os objetivos óbvios são cálcio e magnésio, que ocorrem naturalmente na água marinha e permanecem na salmoura após o processo de dessalinização. Por razões sanitárias e para reduzir a corrosão nos canos de distribuição, porém, os minerais têm de ser adicionados à água dessalinizada após o processo.

A maneira atual de adicionar minerais à água dessalinizada é comprá-los em outro lugar. Mas por que não colher cálcio e magnésio da salmoura, em vez disso? “Nosso objetivo é extrair os minerais necessários para a remineralização da própria água em dessalinização”, explicou Voutchkov. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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