Amr Nabil/Associated Press
Amr Nabil/Associated Press

Arábia Saudita adota esportes ocidentais para reabilitar sua imagem

Críticos acusam governo de "lavagem esportiva", pois as empresas internacionais de entretenimento ignoram as preocupações com direitos humanos

Alan Rappeport, The New York Times

17 de dezembro de 2019 | 06h00

RIAD, ARÁBIA SAUDITA - No dia das bruxas, enquanto duas lutadoras da World Wrestling Entertainment (organização de luta livre conhecida como WWE) se enfrentavam dentro de um ensurdecedor Estádio Internacional Rei Fahd, Najla Ibrahim registrava o momento no seu celular. Durante anos, essa enfermeira de Riad acompanhou a luta livre sonhando com o dia em que as mulheres poderiam subir no ringue no país dela.

“Sinto muito orgulho, pois elas estão fazendo história", disse Najla, 23 anos, usando uma abaya preta, enquanto a luta chegava ao fim em meio a fogos de artifício. “Esperei tanto por esse momento.” Um ano após o assassinato do colunista do Washington Post Jamal Khashoggi, saudita dissidente, a mando do estado, o governo da Arábia Saudita está acelerando os esforços para diversificar a economia, cultivar o gasto interno e melhorar sua imagem no exterior com uma oferta mais ampla de ofertas culturais centradas no esporte e no entretenimento ocidentais.

Organizar uma luta feminina não é pouca coisa em um reino onde a interpretação rigorosa da lei islâmica determina que as mulheres precisam viver segregadas e ter um guardião masculino. Ainda que o momento fosse notável, era também ensaiado, trazendo à tona um debate a respeito da Arábia Saudita e suas mudanças, que podem ser apenas uma forma de maquiar seus defeitos.

“É sem dúvida uma 'lavagem cerebral esportiva’”, disse Philippe Nassif, diretor da Anistia Internacional. “Os sauditas são conhecidos pela opressão às mulheres e restrição aos direitos delas, bem como aos de minorias étnicas e raciais. Haveria melhor forma de tentar mudar essa imagem do que uma luta livre só para mulheres?”

O relacionamento entre marcas internacionais e o governo saudita é simbiótico, conforme as empresas buscam mercados inexplorados e o reino tenta afastar sua economia da dependência em relação ao petróleo. Mas a campanha tem complicações. Empresas e astros do Ocidente enfrentaram boicotes e críticas em meio a acusações de estarem participando de uma iniciativa de relações públicas de um governo opressor.

A Arábia Saudita fez do esporte uma prioridade em 2016, como parte da visão do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e seu programa de desenvolvimento econômico para 2030. A princesa Reema Bandar al-Saud, atual Embaixadora da Arábia Saudita nos Estados Unidos, trabalhou com uma empresa americana de lobby no ano passado para marcar reuniões com a Associação Nacional de Basquete (NBA), a Liga de Futebol (MLS), a Liga Mundial de Surfe (WSL) e a Fórmula 1 para debater a possibilidade de trazer esses esportes para o reino.

Os investimentos pesados logo começaram. Em julho, a Autoridade Geral Esportiva da Arábia Saudita anunciou um aporte de US$ 650 milhões para o desenvolvimento de atletas e equipes, e para atrair eventos internacionais. A luta livre é uma faceta do novo apetite esportivo da Arábia Saudita. Anthony Joshua derrotou Andy Ruiz Jr. no dia 7 de dezembro em uma disputa pelo título dos pesos-pesados apelidada de “embate nas dunas". Em fevereiro ocorre a estreia da Copa Saudita, uma corrida de cavalos com prêmio de US$ 20 milhões - o maior da história. Um campeonato de golfe feminino está nos planos para março.

A expansão dos esportes é parte da tentativa do príncipe Mohammed de trazer investimento estrangeiro e aumentar o potencial financeiro de um país de população majoritariamente jovem. Dos 22 milhões de habitantes do reino, dois terços têm menos de 30 anos.

Desde a sua ascensão ao poder em 2017, o príncipe Mohammed tentou convencer o mundo que a Arábia Saudita estava mudando. Certa noite em outubro, homens e mulheres sauditas na casa dos 20 anos dançaram ao som de hip-hop em uma butique da moda que abriu a Semana do Design de Riad. Os jovens estão se adaptando a novas fronteiras.

No evento estava presente Mohammed Alhamdan, que cinco anos atrás era um aspirante a ator trabalhando em um McDonald’s de Riad até criar videoclipes satíricos que alcançaram imensa audiência no YouTube. Agora ele tem mais de sete milhões de seguidores nas redes sociais e é pago para se apresentar fazer participações em anúncios de marcas como McDonald’s e Pepsi, ativas no reino.

“Tudo é novo, para nós e para o país", disse Alhamdan, 25 anos, conhecido na internet como Warchieff. Críticos da Arábia Saudita afirmam que seu interesse pelos esportes e o entretenimento do Ocidente é uma diversão para desviar a atenção do péssimo histórico de respeito aos direitos humanos no país. As marcas internacionais têm sido cautelosas.

Para os atletas e entertainers ocidentais, fazer negócio com a Arábia Saudita continua arriscado. Novak Djokovic e Rafael Nadal foram criticados no ano passado por planejarem uma partida amistosa de tênis em Jedá. Acabaram desistindo da ideia, citando uma lesão de Nadal.

O campeão de golfe Ernie Els, da África do Sul, está ajudando o governo saudita a se estabelecer enquanto destino global para os golfistas. “Entendo a preocupação da comunidade internacional, mas os sauditas precisam começar em algum lugar", disse. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALILA

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