Tasneem Alsultan/The New York Times
Tasneem Alsultan/The New York Times

Arábia Saudita investe na indústria do entretenimento

O reino saudita está apostando em uma economia que vai além do petróleo ao abrir espaço para a arte no país

Ben Hubbard, The New York Times

25 Março 2018 | 15h00

RIYADH, Arábia Saudita - As luzes se apagam, o maestro emerge e a casa praticamente cheia o aplaude diante da orquestra. Então as luzes são acesas e o elenco aparece no palco vestindo trajes árabes históricos.

"Meu amor, fale comigo em um poema", canta uma vocalista feminina no início de uma ópera sobre racismo, guerra e amor. O assunto era incomum, e o fato do show estar acontecendo na conservadora capital da Arábia Saudita foi notável. A produção de "Antar e Abia" era parte de um esforço do governo saudita em criar - do nada - um setor de entretenimento para 29 milhões de pessoas.

A Arábia Saudita é conhecida há muito tempo como um dos países mais conservadores do mundo, onde a polícia religiosa aplica códigos sociais rigorosos e as mulheres cobrem seus corpos e, muitas vezes, seus rostos em público. Os shows e o teatro foram em grande parte banidos, e até a noção de diversão era frequentemente desaprovada como não islâmica.

Agora o reino está sendo iluminado com festivais de quadrinhos, apresentações de dança, shows e corridas de monster trucks. O guru da música New Age, Yanni, se apresentou lá em dezembro, assim como o rapper americano Nelly (para uma plateia exclusivamente masculina). O astro do pop egípcio Tamer Hosny vai se apresentar neste mês, embora seus fãs sejam impedidos de dançar. O Cirque du Soleil fará sua estreia na Arábia Saudita neste ano (com roupas menos atrevidas do que as usadas em outros lugares). E empresas internacionais estão assinando acordos para operar cinemas em todo o país.

Essas mudanças estão entre as que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salmanis mostra quando corteja os investidores americanos. O impetuoso príncipe Mohammed, 32, é herdeiro do trono saudita e está buscando reorientar a economia para longe do petróleo, ao mesmo tempo que torna a vida mais agradável para os sauditas. Autoridades dizem que o entretenimento vai ajudar ambas as frentes. 

A lógica é que os sauditas que gastam bilhões de dólares a cada ano em entretenimento no exterior, em vez disso, permanecerão no reino para se divertirem, criando empregos muito necessários. A maioria dos sauditas que têm emprego trabalha para o governo.

O estímulo também é útil politicamente. Desde a sua aparição, há três anos, o príncipe Mohammed subiu ao topo da estrutura de poder saudita enquanto destroçava os pilares tradicionais.

Ele reduziu o sistema religioso tirando o poder da polícia religiosa de prender pessoas, e silenciando clérigos que se opõem a suas reformas sociais. Ele também liderou uma remoção de príncipes e empresários proeminentes.

Ao mesmo tempo, o príncipe Mohammed cortejou ativamente a juventude como um novo eleitorado para apoiar seus programas. Cerca de dois terços dos sauditas têm menos de 30 anos, e muitos apoiaram entusiasticamente as mudanças.

"Eu o amo", disse Ibtihal Shogair, 25, que estava comendo míni-hambúrgueres com uma amiga em uma feira de alimentos, apoiada pelo braço de entretenimento do governo, no gramado de um hotel de luxo em Riyadh. "Ele veio e ele era um jovem que pensava mais como nós".

Alguns anos atrás, havia poucas atividades para as mulheres de sua idade fazerem nos fins de semana, disseram Ibtihal e sua amiga. Então elas se reuniam em casas ou iam a restaurantes. Quando saíam, a polícia religiosa as perseguia, embora as duas se vestissem de maneira modesta e cobrissem os cabelos.

"Eles andavam atrás de você e diziam: 'Cubra seu rosto, cubra seu rosto'", disse sua amiga, Lina Bulbul, 26 .

Agora, as mulheres raramente veem os policiais barbudos e constantemente checam o calendário da Autoridade Geral de Entretenimento do governo. Elas pretendem tirar suas carteiras de motorista em junho, quando a lei que proíbe mulheres de dirigir será revogada.

A Autoridade Geral de Entretenimento, criada em 2016, supervisionou mais de 2 mil eventos no ano passado, um número que deve mais que dobrar em 2018. Juntamente com a centralização de agendamentos e a facilitação de permissões, oferece subsídios para empresas de entretenimento na esperança de se tornarem autossuficientes.

O país está começando do zero. As poucas salas de cinema que o reino possuía foram fechadas quando uma onda de conservadorismo se espalhou depois de 1979. As escolas sauditas não ensinam música, dança ou teatro, e o reino não tem academias de música e cinema.

A Arábia Saudita tem um orçamento de US$ 64 bilhões de dólares para a aposta ao longo da próxima década.

Ameera Al-Taweel, presidente da Time Entertainment no país, contou que costumava levar meses para obter permissão para eventos e exigia negociações com a polícia e os ministérios do governo. Agora, leva apenas algumas semanas e, segundo ela, os eventos da empresa dobram a cada ano. São 28 eventos planejados para 2018, incluindo o Cirque du Soleil, a Saudi Fashion Week, um festival de jazz e a ópera "Antar e Abla".

Alguns eventos, no entanto, desencadearam uma reação negativa. Um vídeo de meninos e meninas dançando juntos em uma convenção de quadrinhos em 2016 se tornou viral. Mas o público se ajustou.

"Agora, quando você vai a um lugar e ouve música, não é mais estranho", disse Ameera.

O conteúdo ainda é verificado com antecedência e às vezes modificado. Quando Ameera conseguiu aprovação para "Shadowland", uma performance de dança, uma dançarina com um vestido curto teve de usar leggings e uma imagem evocando a teoria da evolução de Darwin foi removida.

"Porque no Islã, nós não acreditamos nisso", explicou.

Raif Bukhari, guitarrista da banda saudita de jazz Fusion Mizan, costumava se apresentar apenas em complexos privados e em escolas internacionais. Sua banda agora tem shows em restaurantes, empresas de eventos e resorts. E eles se apresentaram em Londres neste mês, durante a visita do Príncipe Mohammed ao Reino Unido.

"Agora as oportunidades são infinitas", disse ele.

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