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Stanley Reed/The New York Times
Stanley Reed/The New York Times

Arábia Saudita aposta em uma nova commodity: o turismo

País está investindo bilhões de dólares em projetos turísticos, mas alguns temem que as medidas repressivas possam afastar os visitantes

Stanley Reed, The New York Times

31 de janeiro de 2020 | 06h00

AL-UYAYNAH, ARÁBIA SAUDITA - Em uma espécie de acampamento, Ghazi Al-Anazi falava de sua experiência no florescente setor do turismo saudita. Há dez anos, quando tinha pouco mais de 20 anos, ele começou a levar os sócios britânicos nos negócios do seu irmão para apreciar as colinas esculpidas pelo vendo do deserto saudita.

Hoje com 31, ele tem uma pequena frota de veículos utilitários esportivos, cerca de doze funcionários e a capacidade que desenvolveu por conta própria de atender aos caprichos dos visitantes. “Eu sei o que eles querem fazer, e o que eu preciso fazer para satisfazê-los”, disse, providenciando um jantar a turistas da França, Ucrânia, Malásia e Estados Unidos. Al-Anazi e o seu negócio, a Ghazi Tours, leva cerca de 900 visitantes por mês para caminhadas em trilhas como esta pelo leito seco de um rio pontilhado por árvores de acácias no norte de Riad, a capital saudita.

Mas ele está convencido de que estes números possam multiplicar-se, porque a Arábia Saudita decidiu abrir-se como um dos grandes destinos turísticos. Recentemente, o governo começou a emitir pela primeira vez vistos para turistas, o que representa uma mudança considerável para uma sociedade tradicionalmente fechada. Bilhões de dólares estão sendo destinados a projetos turísticos em todo o reino com a finalidade de desvincular a economia de sua dependência do petróleo e dos empregos no governo que este financia.

Visitar a Arábia Saudita foi por muito tempo um projeto difícil para todo mundo, salvo para os muçulmanos que vão em peregrinação à Meca , o “hajj”, e os que viajam a negócios. Há dezenas de anos, sítios históricos têm sido em geral ignorados, e hotéis e serviços de viagens eram escassos fora das principais cidades.

O desemprego entre os sauditas é de cerca 12%. Mas o governo acredita que o setor de viagens, que emprega cerca de 600 mil pessoas, poderá expandir-se criando mais um milhão de empregos. A decisão de promover o turismo foi do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o principal estrategista do reino, de 34 anos, cujo programa Vision 2030 procura diversificar a economia, atrair mais investimentos externos e expandir o setor privado.

Mas segundo especialistas em viagens, há uma dúvida em relação a esta iniciativa: quantas pessoas mais irão conhecer um reino ultraconservador, que é alvo de intensas críticas pelo tratamento dado aos dissidentes e às mulheres, que restringe uso do álcool, e que até recentemente proibia que namorados, e portanto não formalmente casados, compartilhassem o mesmo quarto. Mas a imagem que Arábia Saudita está promovendo é de resorts ultramodernos, ruínas de antigas civilizações e paisagens românticas no deserto. Os guias de turismo não fazem objeção se os visitantes pedem para tirar um selfie ao lado de um camelo.

Referindo-se aos vistos globais: “Eu o chamo de novo petróleo amarelo”, disse Amr Al Madani, diretor executivo da Real Comissão para Al-Ula, uma região no noroeste da Arábia Saudita. Al-Ula inclui as ruínas de uma antiga cidade de tumbas esculpidas na rocha, chamada Mada’in Saleh. Assim como Petra, famoso destino turístico no sul da Jordânia, a cidade foi construída pelos Nabateus há cerca de dois mil anos.

A região tem apenas 45 mil habitantes, mas Madani planeja um investimento de US$ 20 bilhões, de fontes públicas e privadas, para financiar a expansão do aeroporto, hotéis e outras instalações e acolher até dois milhões de visitantes. Na costa ocidental da Arábia Saudita, um projeto no Mar Vermelho ocupará cobre uma área de quase 200 quilômetros de litoral, mais de 90 ilhas e extensos recifes de coral. Ali, os sauditas pretendem erguer 50 hotéis, prevendo que eles representarão um faturamento de cerca de US$ 6 bilhões ao ano para a economia.

Os ganhos com a venda de uma participação na companhia nacional de petróleo, a Saudi Aramco, provavelmente ajudarão a pagar o projeto. O desenvolvimento sobre o Mar Vermelho não estará conectado à rede elétrica nacional e será alimentado por energia renovável, eólica e solar, explicou o canadense John Pagano, diretor executivo da Companhia de Desenvolvimento do Mar Vermelho.

Os projetos do Mar Vermelho e de Al-Ula aspiram a atrair turistas ricos e defensores do meio ambiente dispostos a pagar mais por um destino novo e relativamente intocado. Aman Resorts, um grupo de hotéis sediado na Suíça que atende aos ricos e famosos, está criando três locais em Al-Ula, com o plano de abrir em 2023. No entanto, alguns visitantes em potencial poderão dar as costas ao projeto por causa do brutal assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018 por agentes sauditas, e por outras medidas, como a prisão de críticos do governo.

“Não será fácil fazer com que a Arábia Saudita se torne uma atração para muitos turistas”, disse Henry Harteveldt, consultor de viagens da Atmosphere Research em São Francisco. Mas para os empreendedores sauditas da área de turismo, este parece um novo dia. Madawi Bander Al Saud informou que a sua companhia, The Traveling Panther, prepara tours para o reino para clientes do Japão, México e Itália. Alan Rappeport e Tasneem Alsultan contribuíram para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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