Christophe Viseux para The New York Times
Christophe Viseux para The New York Times

Arábia Saudita usa recursos do petróleo para financiar novas iniciativas

O objetivo é acabar com a dependência do petróleo e estimular a economia

Stanley Reed, The New York Times

25 de junho de 2018 | 10h00

RAS TANURA, ARÁBIA SAUDITA - O porto de Ras Tanura, nas calmas águas azuis do Golfo Pérsico, opera com precisão militar. Superpetroleiros azuis e vermelhos precisam pedir autorização com meses de antecedência para embarcar a carga. Os registros remontam a 30 anos atrás e mostram as embarcação que infringiram as normas derramando petróleo ou utilizando equipamentos que não atendem às especificações. Radares superavançados procuram navios que possam causar problemas, como os que chegam do Irã.

Milhares de petroleiros zarpam anualmente destas águas, transportando a riqueza que brota do deserto saudita, rumando para países que esbanjam gasolina. O reino produz quase um sexto das exportações mundiais de petróleo, e a menor interrupção aqui poderia fazer estremecer os mercados globais.

A gigante petrolífera estatal, Saudi Aramco, é a força econômica que impulsiona a transformação da Arábia Saudita em uma potência regional. As reservas de petróleo que se encontram nas profundezas do deserto, extraídas, transportadas e vendidas pela companhia, tornaram o país um fator importante da equação geopolítica que inclui os Estados Unidos, China e Rússia. A Saudi Aramco construiu escolas, estradas, hospitais e infraestrutura em geral para a sociedade saudita.

Enquanto o reino agora se prepara para sua próxima revolução, a Saudi Aramco volta a ocupar uma posição central - papel que coloca a companhia e o país em risco.

O príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, apresentou uma iniciativa ambiciosa chamada Vision 2030, por meio da qual pretende acabar com a dependência do petróleo e estimular a economia. Seu plano é vender uma parte da gigante petrolífera ao público, em parte para captar recursos que destinará a outros investimentos.

Trata-se de uma das ofertas públicas iniciais mais aguardadas e que, segundo o príncipe, poderá dar à Saudi Aramco o valor de mercado de US$ 2 trilhões. Mas uma venda de ações deixa a companhia mais exposta a forças externas. Com os preços globais acima de US$ 70 o barril, a Arábia Saudita e sua gigante petrolífera estão sendo pressionadas a aumentar a produção.

“Paras se sustentar nas próximas décadas, o reino precisa se transformar”, afirmou Jim Krane, pesquisador da área de energia e geopolítica do Baker Institute da Rice University.

O príncipe quer que o reino e a Saudi Aramco se preparem para quando a era do petróleo se encerrar.

A Aramco está construindo enormes instalações que transformarão o petróleo bruto em produtos petroquímicos mais lucrativos, enquanto aumenta as prospecções de gás. Também trabalha em colaboração com o Google na criação de centros para desenvolver análise de dados e capacidade de computação em nuvem.

Mas a oferta pública inicial fará com que a companhia para a companhia, cujo funcionamento interno há muito tempo é mantido em segredo, seja alvo de análises minuciosas. As pressões dos investidores, somadas à pressa do príncipe para transformar seu país, poderão comprometer a estratégia de longo prazo que tornou a Aramco uma força dominante.

Há dois anos, uma equipe especial vem trabalhando com banqueiros e assessores ocidentais, preparando a companhia para a elaboração dos relatórios trimestrais e a coordenação das transações entre as várias bolsas. Uma oferta local parece certa, mas Londres, Nova York e bolsas da Ásia ainda estão em fase de preparação.

Segundo Amin H. Nasser, diretor-executivo da Aramco, a companhia planeja emissões em todas essas praças. “Estaremos prontos para qualquer mercado que o governo decidir”, afirmou.

A Saudi Aramco é administrada mais como uma empresa privada do que uma estatal; seus executivos costumam ser escolhidos pela competência, e não por suas relações. Seus funcionários são eficientes, especializados e têm uma formação excepcional.

A companhia é amplamente elogiada por adotar recursos da tecnologia e concluir projetos no prazo e dentro do orçamento. Segundo os analistas, seus enormes campos provavelmente indicam que os custos para levar o petróleo até a superfície são os menores de toda a indústria petrolífera.

A cerca de uma hora de automóvel de Dharhan, na costa leste, um complexo industrial domina a paisagem do deserto. Cobrindo uma superfície de cinco quilômetros quadrados, parece uma pequena cidade, não fossem as ruas ladeadas de tubulações, tanques de armazenamento e chaminés. Sadara, o nome do complexo, sugere como poderá ser a nova Aramco.

O ambicioso projeto, que entrou em operação no ano passado, é resultado de um investimento de US$ 20 bilhões da companhia e sua parceira, a Dow Chemical. No total, 26 fábricas produzem derivados do petróleo e gás para a produção de espuma, material de isolamento e plásticos, bem como produtos químicos que serão usados em adesivos e cosméticos.

O objetivo é lançar as sementes da diversificação da economia saudita. As autoridades esperam que Sadara promova o crescimento de setores como mobiliário e autopeças, criando empregos para uma força de trabalho mais jovem.

Separadamente, a Aramco tenta aumentar sua produção de gás natural, cada vez mais utilizado na produção de energia elétrica. A companhia procura também acordos internacionais para o fornecimento de gás natural que permitam trazer combustível de volta para a Arábia Saudita, numa inversão de papéis de um dos países exportadores mais fortes do mundo.

Mas a grande incerteza da Saudi Aramco é saber se a política e os lucros poderão coexistir pacificamente nesta mescla.

Quem investir em uma emissão de ações da Saudi Aramco talvez queira saber por que motivo a companhia tem centros de pesquisa em todo o mundo, quando outras os estão reduzindo. Poderá questionar também por que a companhia precisa emprestar executivos e engenheiros ao governo para a realização de projetos importantes para o reino, como a construção de uma nova universidade no Mar Vermelho.

“Eles têm uma mentalidade banhada a ouro”, afirmou Floris Ansingh, ex-funcionário da Royal Dutch Shell, referindo-se à Aramco. “São muito exigentes em matéria de tecnologia. Agem como uma companhia rica”. Segundo ele, "esta mentalidade terá de acabar" depois de uma oferta pública de ações.

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